30 August 2008

Trechos, torres e lugares no mundo

Dia chuvoso de leituras (anti-) psicanalíticas e (anti-) existencialistas, que me trazem a certeza da superação de determinadas indefinições (em outras palavras, a certeza do "a que vim fazer neste mundo"). Rômulo conhece os prenúncios da pergunta recorrente - "Posso ler um trecho para você?" - e parece se arrumar para ouvi-lo. É certo que me acusa de distraída, por perder o fio da atenção quando ele me oferece "um trecho". É certo também que as idéias entram em mim de maneira menos organizada do que nele. De qualquer forma, enquanto as idéias voam desvariadas por todos os lados, olhamos para o mesmo céu, nos reconhecemos nele, nos reconhecemos em nós dois.

Cada vez mais percebo ser difícil o debate público (e acho um momento heróico dos homens públicos sinceros e complexos). No meu caso, debate público se refere a uma arena bem restrita, quase privada a amigos, conhecidos e semi-desconhecidos. O obstáculo está no começo de todas as discussões, que jamais é realmente um "começo", pois as pessoas já trazem em si uma bagagem de pressupostos e concepções (refletidos, irrefletidos, folclóricos, de senso comum etc). A sensação Torre de Babel me persegue.

Acho que a explicação do problema pode ser a seguinte: Um saber é realmente adquirido apenas quando o processo de aprendizado se apaga da memória. O encadeamento de regras, argumentos e pressupostos - tão necessário e claro numa fase - passa a ser internalizado no fim do ciclo: o indivíduo simplesmente "sabe". Como andar de bicicleta, falar uma língua ou ter uma visão de mundo.

Uma simples idéia, portanto, significa um longo processo de escolhas conscientes e inconscientes. Nunca pode ser resumida a uma tomada de posição imediata num debate. Para que um debatedor pudesse realmente convencer o outro, teria que voltar muito atrás no seu processo de aprendizado (já internalizado) e mostrar ao concorrente as suas razões mais profundas.

Algumas poucas pessoas, entretanto, nos surpreendem por terem uma consciência nata dessas nossas razões mais profundas. São com as quais nos comunicamos sem palavras. Mesmo que nem sempre concordem com a superfície dos nossos argumentos imediatos. Antes de tudo, são um contraponto à Torre de Babel na qual nos metemos ao nascer. São, talvez, nosso verdadeiro lugar no mundo.

05 August 2008

Porque Marx não serve para nada

Rômulo chegou esbaforido de uma incursão na graduação. A disciplina era História do Pensamento Econômico II, cuja ementa prevê a leitura do livro I de O Capital. Difícil ter estômago para graduação, sobretudo porque 99% das pessoas que nela estão foram levadas compulsoriamente até lá, com a missão básica de conseguir um diploma qualquer que lhes garanta um emprego burocrático e uma dignidade mínima na sociedade contemporânea. Universidade é um nome que perdeu o sentido: longe de parecer um universo - infinito, complexo e revelador -, mais parece, tantas vezes, a sala de espera do dentista, em que criaturas distraídas folheiam revistas sem menor critério. Quantas pessoas conseguiram se formar, em instituições públicas ou privadas, sem terem lido sequer um livro inteiro?

Mas voltando ao caso de hoje. Rômulo me conta que o professor era um homem de 60 e poucos anos, sisudo mas afável. Ele pergunta se alguém na turma já havia tido contato com a obra de Marx. Um garoto se adianta: "Odeio Marx. Ele não serve para nada". O professor argumenta: "Mas você já leu alguma coisa do autor?". Não havia lido. A Economia é povoada pelo que gostamos de chamar de "ogros matemáticos". É o tipo de cara que exercita bastante os músculos e promete que fará seu primeiro milhão aos 20 e poucos. Acredita ter sido tocado pelo dom da inteligência, pois consegue resolver equações matemáticas e sofre de pró-atividade mercadológica.

O professor parece estar psicologicamente preparado para lidar com essa gente "do futuro". Rômulo faz uma referência ao nome do filme dos irmãos Cohen: "No country for old men". Filme ruim, título ilustrativo. O veterano continua: "Por muitos anos, tentei explicar por que Marx não serve para nada. Agora já tenho uma resposta".

Numa tribo sem História ou, melhor seria dizer, numa sociedade em que as organizações e relações sociais se mantêm inalteradas ao longo dos anos, tanto faz observá-la hoje ou dois séculos atrás. Ela se converva igual, pois todos indivíduos, em todas as gerações, se inserem naturalmente no grupo. Não existem margens que se multiplicam. Nessa sociedade, Marx é completamente inútil.

Muitos estão convencidos que vivemos numa sociedade sem História, que desigualdades e opressões de várias espécies não têm origem no tempo histórico. Tantos jovens assimilaram que o mundo tal como vemos hoje sempre existiu e sempre existirá, equiparando-o a uma tribo de equilíbrio perfeito, em que mesmo as características ruins têm sua razão de ser - ou, como se diz hoje, a existência miserável de 2/3 de pessoas no planeta é a condição básica para que a última parte viva bem.

Nesse "equilíbrio perfeito", cada um se vê "livre" (no sentido mais escroto da palavra) para cultivar seu intimismo à sombra do poder, para fazer um milhão de reais, para consentir um projeto que mutila em massa carne e alma humanas... Afinal, a História não existe mesmo e as pessoas são responsáveis apenas pelo curto espaço de tempo em que respiram e consomem.


(Para Rômulo, como tudo que escrevo e penso).

25 July 2008

Em busca da finalidade perdida

Catarina saiu pelas ruas com seu vestido florido, atravessando vendavais de esquina, tempestades de quarteirão, praças desertas e becos lotados. Marchou, furiosamente, por uma hora e quarenta e três minutos até se lembrar o motivo pelo qual havia saído. E percebeu, pela primeira vez, que não poderia mais voltar.

Então, caminhou por mais uma hora, até estar bastante distante, e concluiu que deveria abandonar a cidade. Diante dos muros baixos de uma casa cor de tijolo, decidiu que teria 15 dias para cruzar a fronteira. 'Um dia para me despedir de cada ano que vivi aqui'. Tratou de excluir os três primeiros anos, que sua memória não alcançava, e alguns outros que julgava terem sido desprezíveis.

Havia superado Almodóvar, Bertolucci ainda não, os beatniks, a vodka, as solas dos pés com cacos de vidro, a disposição aos acasos, as festas que podem desabar, os jornais, sobretudo os jornais e as revistas, os refrigerantes nojentos, eca!, os papos de drogado acomodado, os planos eternos (ou eternamente irrealizáveis), a histeria de 'não amar, não amar, não amar...' (Ó, que sofrimento!). No auge de uma corrida desatinada, percebeu que alguém deveria ter mexido naquela faixa amarela com a inscrição "Fim". Tentou pedir informação: Onde vai, onde vamos? Mas, acredite você, todos estavam se debatendo sozinhos como aquelas moléculas acaloradas das aulas de química. Que cena estranha. "Alguém está bagunçando com a gente, pessoal!", ela gritou. Não era para ser assim. "Desliga o maçarico, está todo mundo ficando doido".

Pelo menos, a epifania teve trilha sonora do Beethoven e luz celestial. Mentira. Foi assim: ela ficou puta da vida e leu na placa cinza Bem-vindo ao deserto do real.

E Catarina é uma radicalzinha. "Sou meeeesmo", ela repete sozinha ao ouvir a narrativa em off de sua própria vida. Disse para o diretor: "Corta tudo. Pode cortar tudo. Corta álcool, corta crise, corta esse bando de figurante, corta o espetáculo adolescente-burguês. Isso é palhaçada, ouviu?". Então, o diretor, um tipo introvertido e pacífico, cortou. Ainda se ouviu, vindo do fundo, um princípio de vaia. Mas o fundo nunca importa. Catarina representa só para a primeira fileira.

17 July 2008

Passagem das horas

Trago dentro do meu coração,
Como num cofre
Que não se pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
Todas as paisagens que vi
Através de janelas ou vigias,
Ou de tombadilhos, sonhando,
E tudo isso, que é tanto,
É pouco para o que eu quero.
(FP)

02 July 2008

O mistério das pombinhas

No outro dia, estava prestes a dormir quando uma revelação me tirou da cama. Eu havia decifrado o mistério das palomitas de maíz! Conheço a tradução há cerca de dez anos: pipocas. Mas só depois de tanto tempo entendi que os grãos de milho estourados assumem o aspecto de pombinhas. É um gênio quem inventou essa expressão. Nunca mais voltarei a comer pipocas sem lembrar que são, na verdade, pombinhas de milho.

26 June 2008

Confesso que vivi

Uma anedota sobre o ano em que Pablo Neruda ganhou o Nobel da Literatura (em Confesso que Vivi):

"Entre as inúmeras cartas chegou uma curiosa e um tanto ameaçadora. Escrevia-a um senhor da Holanda, um homem corpulento e de raça negra, segundo podia ser observado no recorte de jornal que anexava. 'Represento', dizia aproximadamente a carta, 'o movimento anticolonialista de Georgetown, Guiana Holandesa. Pedi um convite para assistir à cerimônia que será realizada em Estocolmo para lhe entregar o prêmio Nobel. Na embaixada sueca me informaram que é preciso um fraque, uma exigência da rigorosa etiqueta para esta ocasião. Não tenho dinheiro para comprar um fraque e jamais colocarei um alugado, posto que seria humilhante para um americano livre vestir uma roupa usada. Por isso lhe anuncio que, com o escasso dinheiro que possa reunir, irei a Estocolmo para dar uma entrevista à imprensa e denunciar o caráter imperialista e antipopular dessa cerimônia, assim que seja celebrada a homenagem ao mais antiimperialista e mais popular dos poetas universais".

27 May 2008

Hordas de palavras bárbaras

Hordas de palavras bárbaras que se empurram em desfiladeiros derrapantes numa espécie de Serra Pelada em convulsão, prestes a explodir como um vulcão ao contrário, cuspindo todas as palavras que não formaram frases, que serviram a nada. E eu, às suas bordas, como um pescador pobre esticando minha varinha de bambu para capturar algum sentido.

17 May 2008

Hordas de bárbaros

Hordas de bárbaros habitam minha mente.
Preciso me organizar.
FN

14 May 2008

A Marcha de Catarina

Catarina saiu pelas ruas com seu vestido florido, atravessando vendavais de esquina, tempestades de quarteirão, praças desertas e becos lotados. Marchou, furiosamente, por uma hora e quarenta e três minutos até se lembrar o motivo pelo qual havia saído. E percebeu, pela primeira vez, que não poderia mais voltar.

Então, caminhou por mais uma hora, até estar bastante distante, e concluiu que deveria abandonar a cidade. Diante dos muros baixos de uma casa cor de tijolo, decidiu que teria 15 dias para cruzar a fronteira. 'Um dia para me despedir de cada ano que vivi aqui'. Tratou de excluir os três primeiros anos, que sua memória não alcançava, e alguns outros que julgava terem sido desprezíveis.

11 May 2008

Em modo terceira pessoa

"Eu tinha um comportamento distanciado, talvez pela minha experiência de vida; estava nos lugares, mas ao mesmo tempo estava na 'terceira pessoa'. Mantinha um olhar de fora e comecei a achar que isso era cinema". MG

Achei sympa.

04 May 2008

Insultos do destino

"Escravo do temperamento como das circunstâncias, insultado pela indiferença dos Homens como pela sua afeição a quem supõem que sou... Os insultos humanos do Destino". FP

O estrangeirismo do meu eu

Porque tudo que não é escola, letras e um-mundo-melhor, não sou eu.

Que não é chuva de verão nem sol de inverno, não sou eu.

Que não é soluço de horror ou canto de mágoa, não sou eu.


Que não é quietude do que voa, não sou eu.

Que não é gentileza desmedida, não sou eu.


Que não são carinhos e fúrias de colecionador, não sou eu.

Que não são desfechos espetaculares para histórias sem começo, não sou eu.


Portanto e para tanto, sou eu estrangeira em minha terra, no meio de minha gente, estrangeira assim. Sinto-me estranha na forçosa convivência diária. Preciso voltar à casa onde habita meu eu e outros poucos. Para ser feliz.

24 April 2008

Depois do P.S.

Não dá para ter uma teoria totalizante. Só conseguimos embarcar no Trem Regional (que alguns chamam "da Morte") porque uma senhorinha de La Paz nos ajudou.

Além disso, ainda existe um regime comunal nos pueblos do Altiplano, com trocas diretas e trabalho comunitário.

A solidariedade e a mesquinhez não são regras. Mas a solidariedade deveria ser.

O Post-Scriptum sobre a Bolívia tinha caráter mais de observação do que de teoria. Experiências isoladas, de solidariedade ou de mesquinhez, não dão conta de explicar a sociedade boliviana (nem qualquer outra). Mas algumas pessoas bem-intencionadas viajam para lugares pobres em busca do primitivo, do ser humano pré-capitalista, do bom selvagem, do "os pobres também são felizes", da pureza perdida das grandes metrópoles. E isso pode gerar um conforto traiçoeiro: ao fantasiarmos o Outro, nos distanciamos da realidade que buscávamos compreender, nos alienamos cheios de boas intenções.

Muitos tentam se agarrar à América Latina por fiapos de Macondo, com olhos realistas-mágicos. Isso pode ser solução ou problema. Pode gerar uma unidade necessária para o imaginário comum. Ou retóricas vazias e anacrônicas.

21 April 2008

Post-Scriptum sobre a Bolívia

A Bolívia me impressionou pelo seu potencial revolucionário (a sensação latente que a insurgência está por um fio de se realizar) e, paradoxalmente, pela crônica falta de solidariedade do povo. Não era raro perceber situações em que um boliviano tentava passar a perna nos demais, como por exemplo aumentando drasticamente o preço combinado da passagem quando o veículo estava na metade de sua rota. Quando se tratava de estrangeiros, a situação apenas piorava. Todo banheiro público era pago: mesmo que existisse uma placa dizendo "Gratuito", haveria de existir também duas ou três criancinhas cobrando o uso de latrinas pavorosas. Num pueblo, uma argentina pediu um copo de água da torneira para ferver e usar no seu chimarrão. A dona do restaurante quis cobrá-la um ou dois bolivianos. A argentina protestou, alegando que em seu país a água era dada como cortesia. O que surpreende é que, sendo um boliviano morto de sede, a cobrança se daria da mesma forma. Um ônibus cheio de crianças e velhos quebrou, pela quinta vez, no meio de uma estrada lamacenta. Um caminhão parou em seguida e os passageiros trataram de subir na caçamba precária. O caminhoneiro cobrou três bolivianos por pessoa, incluindo crianças famintas e sujas. A brutalização dos seres humanos na Bolívia é um processo de vários séculos. A pergunta que me resta é: alguma Revolução se sustenta sem qualquer noção de solidariedade? Eles lutam entre si pela lavagem dos porcos, usando muitas vezes artifícios dos mais baixos. Mudar apenas a ordem econômica resolve uma herança cultural tão famigerada, medonha, triste? Motoristas de táxi e pessoas comuns costumavam carregar debaixo do braço para todo canto rolos de papel higiênico (prova de que ninguém estaria disposto a oferecer artigo algum que não fosse pago). Argentinos, chilenos, uruguaios e brasileiros chocavam-se com tamanhas demonstrações de mesquinhez, como se seus próprios países não fossem também mesquinhos: o fato assombroso é que a experiência boliviana faz o Brasil, a Argentina e o Chile parecerem generosos. E nada soa mais estranho do que isso.

Essas são questões pendentes para mim.

27 March 2008

Nada se ilumina

Queria saber explicar como as coisas acontecem na cabeça da gente. Em que momento algo abstrato se torna compreensível (mesmo que ainda abstrato). Gaguejo, gaaaa-gue-jo, ao tentar explicá-lo. Para isso, tenho que voltar a coisas muito anteriores... Que também se perderiam de mim em ramificações infinitas. Preciso de tempo. Deixe que me cale, se não pode entender. Ou deixe-me falar, se quer ver os caminhos do meu pensamento. O fato é que nenhum pensamento meu é de alguma forma acabado. Só posso falar de caminhos, de ramificações, de possibilidades. Só posso falar do que não sei ou da minha luta interna contra a ignorância, a escuridão. Tenho em mim feixes de luz - às vezes fracos, às vezes rápidos e intensos - com vida própria. Há momentos em que simplesmente eles não se acendem, por causa ou conseqüência de devaneios outros.

Na semana de 22 a 30 de março, não estive/ estou iluminada.

10 March 2008

Rrrratatatá!

Falha a fala. Fala a bala.
Falha a fala. Fala a bala.
Falha a fala. Fala a bala.
Falha a fala. Fala a bala.
Falha a fala. Fala a bala.
Falha a fala. Fala a bala.
Falha a fala. Fala a bala.
Falha a fala. Fala a bala.
Falha a fala. Fala a bala.
Falha a fala. Fala a bala.

27 February 2008

La Paz

Achei agora um e-mail em que Rômulo tentava descrever La Paz. Terminava assim:

"Parafraseando Borges:

Quando cheguei à La Paz, pensei: esta ciudad és obra de dioses. Passeando pelas suas ruas, acrescentei: los dioses que la han construido están muertos. Ao deixar a cidade, defini: los dioses que la han construido eran locos".

23 February 2008

'Para não dizer que só sei ser contundente'

Morena, morena
Por você me desespero
Cedo, tarde ou tarde da noite
Você junta tudo que eu quero

Aleph do bem
Você é tudo que há de bom nesse mundo
Suco de manga
Fernando Pessoa
Vestido florido de chita (Deus está na barra desse vestido)
Encontros na biblioteca
Evo, Machu Picchu, Equador
Morena doce como a flor

Bola de fogo do meu amor
Morena como o Brasil
A Tijuca e a América Latina

Morena no corpo
no jeito
no cheiro
no gosto
no verso
reverso
no choro
no amor

Morena mais linda
Te amo sem ter jeito
Você entrou para não sair
Do fundo do meu peito

Morena, morena
Você é branco, é preto, é índio
E eu sou mameluco
Mameluco por você.


(Do meu moreno, com esse títutlo rabugento mesmo)

20 February 2008

Ándate por los Andes

Revoadas de borboletas
Brigas de touros
Palafitas
Cabanas de argila e palha
Os trens
As pessoas nos trens
O amanhecer no Altiplano
As mulheres que correm sem destino
E os que defecam acocorados em público

O soroche
Os tshaskis
Os tambos
Os pucaras
As panacas
O Tawantisuyu
E as guacas

As colinas
Com carneiros
Burricos
Crianças
Plantações de flores
São tão difíceis de descer

Noites estreladas do deserto
Lagoas que espelham o céu
Pueblos perdidos na poeira
Cósmica?

Pablo Neruda na parede
Falando das minas de Chuquicamata
E como a gente se sente ao chegar
Nos Andes

Um índio grande e gordo chamado Jesús ouvia uma música que diz:

Andes lo que andes, ándate por los Andes.

Os chilenos rasgam sacos de trigo
Dos peruanos, dos bolivianos
Que são pobres e escuros
E falam línguas que não podem escrever

A única coisa que separa ainda
Chilenos e bolivianos
É uma faixa de terra
Uma fronteira
Na cabeceira
Da Bolívia que não dorme

Nem descansa
Do trabalho nas minas
Das minas terrestres
Que ainda dividem
Bolivianos e chilenos

Nós que somos brasileiros
E nada temos com isso
Andamos pelos Andes
A repetir:

Hasta la Bolívia, siempre.

07 January 2008

A Morte e a Donzela

Aqui jaz tanta coisa que nem sei ainda bem dizer o quê. Pois faltam quatro dias. Quatro. Apenas quatro.




P.S. Trabalhando, minha gente, trabalhando!

27 December 2007

Nasce morrendo

No dia em que conheci Gervásio, o caminhoneiro aposentado de 12 dedos, duas pessoas que não se conhecem me disseram, em contextos diferentes, a mesma frase: "A gente já nasce morrendo". Sexta-feira de acontecimentos bizarros. Pensei nisso no ponto de ônibus da Praça da Cruz Vermelha (que o Alvinho um dia definiu como "linda, pois é redonda"). Olhei o prédio do Inca, os muitos buracos do asfalto e a praça (um velhinho de mais de 80 anos foi preso uma vez ali, onde vendia cocaína. Ele era manco e carregava as drogas numa sacola). O ponto de ônibus fica abrigado debaixo de uma marquise improvisada com pedaços de madeira. Está prestes a cair há pelo menos um ano. Muitas crianças de chapéu esperam seu ônibus ali. Elas têm câncer.

* * * * * * * * * *

Faltam quatro dias para o fim do ano e não sinto que tenha tanto a dizer. Charles Chaplin, que morreu no Natal de 1977, fazia cinema-mudo porque as palavras pareciam "fúteis, imprecisas". Gostaria também de fazer jornalismo-mudo, dedicatórias-mudas em livros, declarações-mudas de amor, desejos-mudos de feliz ano novo.

Sem mais.

22 December 2007

21 December 2007

Gervásio

Acordo poucas horas depois de dormir. A semana foi cruel. Melhor, o ano. Na noite anterior, havia recebido uma ligação urgente da redação e uma ordem ingrata: que chegasse às 6h30 no dia seguinte para tomar café-da-manhã com o governador num bandejão popular na Central do Brasil. Chovia. Tinha sono. Todas as roupas me pareciam armaduras de tão pesadas e incômodas. Maldisse o momento em que escolhi a profissão. Falei disso na breve caminhada que fiz com Rômulo, de sua casa ao ponto-de-ônibus. A partir dali, ficaríamos mais 10 dias sem nos ver. Ele estaria em Fortaleza. Quando vi sua imagem desaparecendo, percebi que burrice era tocar nesse assunto naquele momento. Estava com saudade.

Chego na redação. Vazia. Espero algum tempo até o fotógrafo aparecer. Desembarcamos do carro na Central: tudo em volta é abandono e miséria. Um homem que passa por nós fala sozinho: "Jesus Cristo nunca passou por aqui". Até os cachorros são mais deprimentes, arrastam-se e resmungam. Velhinhos raquíticos e doentes se acomodam por horas em cadeiras plásticas à espera do almoço. Chega o governador, secretários, deputados e a claque. O evento todo dura menos de 20 minutos. Todos se recusam a comer o lanche servido dentro de sacos plásticos. E saem porta afora.

Eu deveria ter entrado no trem que o governador viajaria até São Cristóvão. Perdi a saída quando me distraí com uns velhinhos que denunciavam que ele não havia tocado na comida. Tentaram lhe entregar a trouxinha, alertaram funcionários. Por fim, repartiram entre si mais uma ração alimentar. Em segundos, havia me integrado ao grupo. Já sabia que uma senhora de 78 anos, moradora de Irajá, acordava às 4h todos os dias, há sete anos, para almoçar por R$ 1 no bandejão. Com a freqüência, fez os amigos que não tinha na vida (o marido morreu há 18 anos e a deixou sem filhos). Havia até uma espécie de líder comunitário do restaurante popular, que pleiteava para si o dever de brigar por causas comuns, como a manutenção do bebedouro.

Um negro alto de 74 anos, com aparência de 50, filho de angolanos, nascido com 12 dedos (assim como os filhos), todos os dentes originais, viúvo, morador da Cidade de Deus, caminhoneiro aposentado, compositor de sambas, rei dos malandros. Gervásio é uma fábrica de frases de impacto.

- Meu antigo celular está com a desdentada.

- Que desdentada?

- Se não colocar um vulgo na nega, ela não atende. Branquinha assim como você fica toda-toda de ser chamada de crioula. Nem que seja por um verão.


Se tem algo que não aprecia na vida é mulher com pé rachado e cheiro de arroz queimado. Gervásio melhorou meu dia. E até me fez escrever de novo.


[Por curto tempo. Agora volto à matéria do governador.]

17 December 2007

Caravana




Corra, não pare, não pense demais, repare essas velas no cais, que a vida é cigana, é caravana.


FALTAM: 24 DIAS.

10 December 2007

Melhor da semana

Não-poema pessoal e intransferível

1.
Nem todo mundo
dá num poema
meu
ou de qualquer outra pessoa.

2.
Ele - o poema -
salta, corre, dança
tentando te ser,
mas não alcança:
me foge.

Ele - não este -
pensa, fabula, conspira
e, tentando te ser,
irrompe em fala.
Mas fala pouco,
fala sem ênfase:
e não te serve.

3.
Aqui, a busca pára
e o poema não aparece.
Entrego: não tenho a técnica para fazê-lo.
Mas sei bem
que ele existe, mesmo
sem ser encontrado,
anti-estético, em mim.

4.
Então, este - o não-poema - se faz
no inconcluso.
Se faz pouco,
e tampouco te diz ou te digniza,
mas, teu,
é o que pude
com tempo estreito
e largo carinho,
Lia.


P.S. O poeta do meu tempo: Rodolfo Gomes.
Visitem em http://e-musicafalada.blogspot.com/

02 November 2007

Torna-te quem tu és

A caretice me comove. Como me comovem o sol e a chuva na rua, e todas as pessoas que nela trabalham. E alternam capas plásticas, guarda-chuvas, galochas, mãos em forma de abano, mãos em forma de sombrero na testa. Comovem os mosquitos que perseguem e lastimam minhas pernas. Estas, como todo o corpo, resistem. No pasarán. Os olhos ignoram as picadas que formam pequeninos pontos de sangue coagulado. As mãos, quando não são abanos ou sombreros, tratam de coçá-las, às vezes discretamente, às vezes como quem tira diamente da pedra. Me comovem todos os reflexos de olheiras, de despenteios, de desarranjos visuais. E o corpo a se arrastar de bairro a bairro, de enchete a queimada, de linguajar callejero a lições de francês. Me comovem todas as contradições e ironias da rotina. A comoção anestesia e vicia, mas não entorpece. Por entre os fiapos da lucidez, lá vejo o mundo como é. Trágico e cômico como sempre foi. E eu, de comicidade insultante, de tempestades risíveis... Eu me comovo por ter escolhido estar aqui.

28 October 2007

Nomes de favela




O galo já não canta mais no Cantagalo
A água já não corre mais na Cachoeirinha
Menino não pega mais manga na Mangueira
E agora que cidade grande é a Rocinha!

Ninguém faz mais jura de amor no Juramento
Ninguém vai-se embora do Morro do Adeus
Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres
E a vida é um inferno na Cidade de Deus

Não sou do tempo das armas
Por isso ainda prefiro
Ouvir um verso de samba
Do que escutar som de tiro

Pela poesia dos nomes de favela
A vida por lá já foi mais bela
Já foi bem melhor de se morar
Mas hoje essa mesma poesia pede ajuda
Ou lá na favela a vida muda
Ou todos os nomes vão mudar

.
.

Nomes de favela, Paulo César Pinheiro.
Foto do Severino Silva, mestre dos mestres, companheiro de trabalho.

29 September 2007

Surrealismo é...

"... a surpresa mágica de encontrar um leão num guarda-roupas, onde tínhamos a certeza que encontraríamos camisas".

Frida Kahlo (Quem é vivo sempre aparece. Em lembranças)

15 September 2007

Meus personagens não têm certezas

Pós-modernismo (verbete): experiências e imagens chãs, unidimensionais, desconexas e fragmentadas, porém entremeadas por momentos de intensidade eufórica.

.
.

'A juventude está perdida e, como fica claro, tem uma vida completamente desfragmentada e desconexa, passando de uma atividade à outra em meio a mediações em grande parte casuais. Ninguém parece ter planos ou projetos de longo prazo, e todos dão a impressão de só viverem o momento, vagando pela vida como num sonho sem sonhador.

No entanto, as personagens vão passando pela cena, e, à medida que algumas delas saem e outra entram, temos a percepção de uma espécie de comunidade slacker cujos integrantes estão interligados, ainda que de maneira efêmera e mínima. Contudo, a comunidade é constituída por vagabundos nômades, vínculos acidentais, vaivéns não estruturados e por uma visão segundo a qual a vida é constituída por momentos desconexos de intensidade eufórica, intercalados por períodos de banalidade e falta de sentido'.

13 September 2007

O físico mais legal do universo

Amor
pode ser apenas uma palavra, e foi
mas por incerteza semântica
e medo de força desconhecida
foi menos que palavra
foi palavra nem dita

mas agora de repente se faz, e é
pela certeza do des-significado
e por ser força infinita
é mais que uma palavra
é uma poesia

(Diogo Fransozi)

Como eu ia dizendo, o físico mais legal do universo é meu amigo. E escreve boas poesias. Feliz aniversário!

10 September 2007

À minha mãe

Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana

Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana

(Do Ferreira Gullar)

09 September 2007

A vida bate (na cara)

AS FLORES TÊM O PERFUME QUE A TERRA LHES DÁ SEM SER PERFUMADA. ASSIM, TAMBÉM NÓS DEVEMOS DAR A NOSSOS ATOS AQUILO QUE NÃO TRAZEMOS EM NÓS, MAS DE QUE SOMOS REALMENTE CAPAZES, E QUE NÃO MORRERÁ COM NOSSA MORTE.

CAMPOS DE CARVALHO

.
.

Achei na minha caixa de pensamentos.

.
.

OUVINDO: Tempos idos, Cartola.

08 September 2007

Voar

Eu sou a quietude do que voa.

Embora faça tanto barulho ao bater asas.

Eu e eu mesma nos encontramos, nos redimimos, nos perdoamos - quando voamos.

05 September 2007

Their finest art


The Genius of the Crowd
(Charles Bukowski)

there is enough treachery, hatred violence absurdity in the average
human being to supply any given army on any given day

and the best at murder are those who preach against it
and the best at hate are those who preach love
and the best at war finally are those who preach peace

those who preach god, need god
those who preach peace do not have peace
those who preach peace do not have love

beware the preachers
beware the knowers
beware those who are always reading books
beware those who either detest poverty
or are proud of it

beware those quick to praise
for they need praise in return

beware those who are quick to censor
they are afraid of what they do not know

beware those who seek constant crowds for
they are nothing alone



beware the average man the average woman
beware their love, their love is average
seeks average

but there is genius in their hatred
there is enough genius in their hatred to kill you
to kill anybody

not wanting solitude
not understanding solitude
they will attempt to destroy anything
that differs from their own

not being able to create art
they will not understand art
they will consider their failure as creators
only as a failure of the world

not being able to love fully
they will believe your love incomplete
and then they will hate you
and their hatred will be perfect

like a shining diamond
like a knife
like a mountain
like a tiger
like hemlock

their finest art

Estilingue e diário




A mãe lhe dizia para não mexer na sacola. O moleque continuou até achar um toco de quiabo. Ajeitou o legume num estilingue de galhos e acertou a nuca do pai que dirigia. O carro comeu a linha divisória da pista. O pai reclamou muito. A mãe, no banco de carona, esticou-se para apreender a arma. A garotinha que escrevia num diário, silenciosa, tateou no peito uma chavinha que pendia de cordão dourado. Fechou o cadeado do diário. Deu um soco no irmão... e um suspiro. Como se não fosse nada, voltou a abrir a tranca, sentiu o perfume das páginas e concentrou-se em escrever. A mãe protestou, histérica. Disse à pequena escritora que, da próxima, apanharia por bater no irmão. Cinco minutos depois, o mesmo copinho plástico de garrafa térmica passava de mão em mão. Beberam suco de goiaba.

17 August 2007

A grandeza argentina

Dei "Ficções", do Borges, para um amigo em seu aniversário. Nesta semana, ele me disse "A verdade? Não gostei. Pareceu arrogante". Respondi "A verdade? Eu sabia que não gostaria quando comprei o livro".

Este é o problema fundamental em dar presentes: saber se devemos dar o que a pessoa vai gostar ou se devemos abrir uma janelinha na vida dela, para que veja algo que não veria sozinha. É como tirar algo da invisibilidade e fazê-lo existir no mundo de outra pessoa. Prefiro sempre esta opção.

E-MAIL PARA O AMIGO

Achei uma entrevista do Cortázar em que ele fala sobre escrever bem e escrever de verdade. Claro que, para mim, Borges escreve inacreditavelmente das duas maneiras. Mas compreendo quando as pessoas não se sentem tocadas mesmo com tal nível de refinamento estético. A verdade dele não é a sua verdade. Eu sei como é isso. Segue o texto. Um beijão

“Es muy fácil advertir que cada vez escribo menos bien, y ésa es precisamente mi manera de buscar un estilo. Algunos críticos han hablado de regresión lamentable, porque naturalmente el proceso tradicional es ir del escribir mal al escribir bien. Pero a mí me parece que entre nosotros el estilo es también un problema ético, una cuestión de decencia. ¡Es tan fácil escribir bien! ¿No deberíamos los argentinos (y esto no vale solamente para la literatura) retroceder primero, bajar primero, tocar lo más amargo, lo más repugnante, lo más obsceno, todo lo que una historia de espaldas al país nos escamoteó tanto tiempo a cambio de la ilusión de nuestra grandeza y nuestra cultura, y así, después de haber tocado fondo, ganarnos el derecho a remontar hacia nosotros mismos, a ser de verdad lo que tenemos que ser?” (Cortázar)

16 August 2007

A vingança do museu

(Publicado no Direto da Redação: www.diretodaredacao.com)

Quarenta anos depois de Hélio Oiticica ter levado a mostra Nova Objetividade Brasileira ao Museu de Arte Moderna do Rio, voltei à cena do crime para ver exposição recém-chegada do circuito Chicago-Londres-Berlim-Nova York. Quando a Tropicália surgiu, eu era menos que um espermatozóide, menos que uma idéia maliciosa na cabeça dos meus pais. Ao longo da adolescência, fui montando um mosaico dos meus preferidos nas artes, sem saber que Ferreira Gullar, Zé Celso, Glauber Rocha e Caetano Veloso tinham qualquer relação entre si. Vieram as muitas explicações para o movimento. Engajamento, não engajamento, exotismo, liberação, brasilidade, estrangeirismo. A funcionária do MAM que nos recebeu, porém, parecia certa do que se tratava a Tropicália: "Sejam bem-vindos. Aqui é proibido proibir!"

Apesar de certa desconfiança sobre aquelas palavras mágicas, meu amigo e eu estávamos decididos a viver uma tarde catártica no MAM. Lá estava a primeira instalação a ser sentida. Um minuto após ter dito "É proibido proibir", a mesma mulher, vestida de preto da cabeça aos pés, volta a se manifestar "É proibido pisar de tênis nas pedrinhas". Ok, eu tiro o tênis. Seguimos caminho dentro da instalação, andando por palha e espuma. Sentamos num chão de terra para conversar. "Nossa, que bonito, nunca vi o museu sentada em chão de terra. Tão diferente". Quisemos tirar uma foto deste ângulo de visão. A funcionária volta: "É proibido tirar fotos". Protestamos: "Mas não é proibido proibir?" Ela responde que quem nos oprime é o museu, não a exposição.

Nesta altura, sentimos a necessidade de nos rebelar, de tocar fogo no museu, de pirar esses visitantes burocráticos, de fazer com que todos os funcionários vestidos de preto corressem atrás de nós. Afinal, estamos aqui para viver a Tropicália e "vocês não estão entendendo naaaaada". Seguimos viagem rumo ao segundo andar. Com fome, tiro da bolsa uma tangerina. Foi questão de segundos até que um robozinho viesse me dizer que era proibido comer. Deixa eu ver se entendi: eles podem expor duas araras numa gaiola e achar que isso é brasilidade; eu não posso comer um fruto da minha própria terra.

Em volta, aquelas obras com dizeres "Lute" e "Pense" só podiam ser provocação. Deixa para lá. Chegamos aos objetos sensoriais da Lygia Clark. Colocamos as luvas e começamos a mexer nas bolas. Criamos uma brincadeira de jogar para o outro bolas de diferentes pesos. Não estávamos atirando nas janelas. Apenas passando com mais rapidez para sentir as diferenças de textura e volume. Surge o carinha de preto: "É proibido jogar com as bolas. Vocês só podem tocá-las". Arghhhhhhhh. O mesmo veio dizer, logo depois, que estávamos andando no sentido errado da exposição. Ignoramos. Apesar das seguidas opressões, continuamos nosso trajeto como Alice no País das Maravilhas. Prestes a entrar em outra instalação, uma visitante repreende nossa distração rispidamente: "Isso aqui é uma fila!", referindo-se a ela mesma e à amiga. Calma, calma, não estamos no banco, você não está no seu horário de almoço tentando pagar a conta de luz.

Saímos da instalação de cara para a Roda dos Prazeres, da outra Lygia, a Pape. Pela primeira vez, demos de ombros, feito crianças tolidas e educadinhas, e não nos atiramos. Já estávamos quase no fim da exposição quando vi uma peça do Pedro Escosteguy: uma caixa com as portas fechadas pelos canos cruzados de duas armas. Claramente, era preciso abrir os dois canos e ver o que havia dentro: uma urna com o aviso "Vote". Ainda estava lendo o "Vote" quando percebi na minha lateral um dedo em riste. Mais uma funcionária de preto me apontando a faixa branca no chão e dizendo que era proibido abrir as portas da caixa. Expliquei que as idéias externas e internas da obra a completavam, uma não existia sem a outra. A mulher repetiu que era proibido e encerrou minha visita com a célebre frase: "O artista não se discute".

Meu amigo suspeitou que fizéssemos parte, sem saber, de alguma excursão turística para a Tropicália, coisa antiga e admirável como catedral adornada em ouro. Voltamos à contemplação divina da Idade Média. Ou fui enganada pelos neoconcretos, ou eles sofreram a mais terrível vingança do museu.

15 August 2007

Tropicália sim

Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?

Vocês tem coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música, que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado.

É a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem!

Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada!

Hoje não tem Fernando Pessoa!

Eu hoje vim dizer aqui que quem teve coragem de assumir a estrutura do festival, não com o medo que o Sr. Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir esta estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu, não foi ninguém.

Foi Gilberto Gil e fui eu!

Vocês estão por fora! Vocês não dão para entender!

Mas que juventude é essa? (gritos)

Vocês jamais conterão ninguém!

Vocês são iguais sabe a quem?

(Tem som no microfone?)

Vocês são iguais sabe a quem?

Àqueles que foram a Roda Viva e espancaram os atores... Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada! E por falar nisso:

VIVA CACILDA BEKER!
VIVA CACILDA BEKER!


Eu tinha me comprometido em dar esse VIVA aqui, não tem nada a ver com vocês!

O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira!

O Maranhão apresentou esse ano uma música, com arranjo de charleston, sabem o que foi?

Foi a "Gabriela" do ano passado que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar, por ser americana.

Mas eu e o Gil já abrimos o caminho, o que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso!

Eu quero dizer ao júri : me desclassifique! Eu não tenho nada a ver com isso! Nada a ver com isso!

Gilberto Gil! Gilberto Gil está comigo para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil!

Acabar com tudo isso de uma vez!

Nós entramos em festival pra isso! Não é Gil?

Não fingimos, não fingimos, aqui, que desconhecemos o que seja festival não!

Ninguém nunca me ouviu falar assim! Sabe como é?

Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas, e vocês?

E vocês?

Se vocês... Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos!


Me desclassifiquem junto com o Gil!

Junto com ele, tá entendendo?

E quanto a vocês... (incompreensível).

O júri é muito simpático mas é incompetente.

DEUS ESTÁ SOLTO!

(Caê, no III Festival da Canção)

11 August 2007

Na sombra

Acaso lo que digo no es verdadero; ojalá sea profético.


04 August 2007

Acumulação primitiva de riquezas

O mundo inteiro cabia no meu quarto. Muitas pessoas também. Passávamos dias inteiros ouvindo música alta, escrevendo idéias atiradas na lixeira, tirando coisas do lugar, largando copos semi-cheios pelos cantos, esperando a hora de sair chegar, chegando para não sair mais, não mexa na caixa de pensamentos!, você tem um quarto rosa?, não é rosa, agora é lilás, a cor acalma, a girafa de madeira, os retratos de queridos, a lista de livros furtados e de ladrões, o anúncio do professor de tango Daniel Raphael, o cartão do restaurante peruano, o duende da minha avó, o copinho de tequila, o Marvin e sua hélice amarela, uma meia listrada atrás do monitor, a limpeza nos aproxima da divindade, eu não sou divina, meu quarto não é templo, eu preciso de outros quartos, este entupiu, é a acumulação primitiva de riquezas.

O mundo também coube dentro de uma mochila. Eu despachei cinco quilos de mundo pelo correio, de Manaus para o Rio.

31 July 2007

À baiana

Já que citei o Wagner Moura no último post...

Folha - Na preparação da peça "A Máquina" [2000], você se mudou para o Recife para ensaiar e morou com o elenco e o diretor. Era uma disponibilidade total ao trabalho?

Moura - Total. Que época boa! Todo mundo amigo, todo mundo querendo fazer aquilo. Eu já estava num momento em que queria sair de Salvador, trabalhar com outras pessoas, ver como era o teatro em outros lugares. Outro dia estava me lembrando que, em 1996, eu e Vladimir [Brichta] fizemos uma peça com José Possi Neto, em Salvador. Eu estava quase desistindo de fazer teatro. Achava que ia ser jornalista mesmo, que o teatro não ia dar certo. Ele fez um teste para a peça e eu não quis fazer. Aí os atores da saíram, ele me chamou para ser testado. Fiz uma leitura. Ele gostou da leitura e disse: "Quero que você faça a minha peça". Eu saí correndo da escola de teatro até minha casa, na chuva. Outro dia fiquei com saudade dessa sensação que acho que perdi um pouco. A época d'A Máquina tinha um pouco isso. Tanto que, de vez em quando, vem essa idéia de voltar com "A Máquina". Eu sou sempre o cara que é contra, acho que nós não somos mais aqueles caras que fizeram aquela peça. A gente era aquele cara, queria conhecer o mundo, mostrar o mundo para a menina que amava. A peça hoje não ia ter mais sentido com esse elenco.

30 July 2007

O que você fez?

Vinte e quatro horas atrás, acordei pensando que estava com fome. Dormia no antigo quarto do meu irmão, que tem fama de assombrado, porque Carol estava no meu. Fui até a cozinha, minha mãe fazia frango. Confirmei a suspeita de que estava com fome pela estranha alegria em ver o frango.

Durante o almoço, lembro de ter pensado que ando comendo rápido demais. Costumo esperar imóvel todas as pessoas terminarem de mastigar. Fico inquieta pelo café. 'Posso pedir o café?': nunca pergunto, soaria grosseiro. Então, no domingo, foi assim também. E ao finalmente beber café, pensei como sempre que deveria diminuir as doses... Os dentes ficarão amarelos, o estômago esburacado, o sono agitado, a camisa manchada etc. Logo em seguida, entendi que o café é uma compensação para uma vida sem vícios. Eu poderia estar fumando, estar roendo rodapés, estar ouvindo Beyoncé. Só um golinho de café. Só.

Estranhamente, não tive vontade de ler o jornal. Quando isso acontece, passo a cantarolar internamente 'O sol nas bancas de revista, me enchem de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia? Eu vooooou'. Por um segundo, penso em minha vida se não fosse jornalista, se não estivesse fadada a ler notícias para sempre. Eu poderia então ser um pouco Cateano? Falar arrastado? Reparar no sol nas bancas de revista? Sim, eu poderia. No melhor dos sonhos.

Não tinha pressa. Se o mundo estivesse acabando, minha mãe avisaria. Pensei nisso e abri mão de ler a manchete. Nem a manchete, viu? Ela me ligou outro dia quando estava de plantão no hospital. Eram 11 da noite. Parecia uma chamada urgente. Contou, apressada, que um cara de 25 anos tinha morrido engasgado com um naco de carne. 'Mãe, o que você quer que eu faça?' Ela resmungou que era 'apenas um desabafo'.

Logo após o almoço, voltei a dormir. Muito frio. Dois cobertores e dois edredons. Eu tenho três pares de meia que revezo para jogar vôlei. Muito frio nos pés. Pensei que deveria comprar um daqueles pacotões de meia em uma loja popular. Apaguei em segundos.

Quando acordei, me perguntei automaticamente se já era noite. O céu estava nublado e não pude descobrir entre as frestas de persiana do antigo quarto assombrado do meu irmão. Ainda estava nele. Às vezes escolho dormir em outras partes da casa. Dá a sensação de viagem, porque você acorda sem saber direito onde está.

Fui até a cozinha, me preocupei em saber se o café na garrafa térmica era novo ou velho. Minha mãe gritou que era novo, mas ela sempre mente neste assunto. Eu bebi e não me pareceu de todo mal.

Chequei quinhentas vezes minhas diversas contas de e-mail e do orkut. Abri os sites dos jornais, mas fechei sem olhar. O sol quando bate nos sites dos jornais me enche de alegria e preguiça. Eu voooou. No MSN, surgiram uma e outra janelas com assuntos interessantes. Mas é chato escrever em um teclado emperrado e ter tudo mais emperrado na internet. Tipo as relações.

Foi quando minha mãe me chamou na sala para ver uma entrevista do Wagner Moura, constantemente interrompida por aquela bola que usa cinto apertado. O Faustão. Eu e minha mãe desejamos ao mesmo tempo e em voz alta que o Wagner Moura fizesse um monólogo, em close, naquele momento. Depois ela me ofereceu R$ 50 para gravar e editar a entrevista, excluindo todos os trechos em que o Faustão tecia comentários. Eu estava precisando dos R$ 50, mas preferi evitar a fadiga.

Depois de um tempo, resolvi catar tudo que estava fora do lugar no meu quarto. Descobri que a edição de junho da 'Revista de História' do Sergio estava entre meus papéis. Me senti feliz por ter furtado o exemplar sem intenção e, portanto, sem culpa. Agora sim poderei saber tudo sobre o 'desaparecimento do explorador inglês P.H. Fawcett no Xingu'. Sergio me convenceu de que isso era realmente importante e de que Fawcett era o Indiana Jones brasileiro. Ele gosta de traçar paralelos com ícones pops nas suas explicações.

Mas não li a revista. A esta altura, vocês sabem: me enche de alegria e preguiça. Li, despreocupadamente, alguns editais de mestrado e pensei em estudar... Estudar mesmo, estudar muito, estudar a base de café, estudar até saber. Minha mãe me chamou de novo. Ela me chama muito mesmo. 'Vem ver Carandiru'. Lembrei que li recentemente na Folha uma história sobre uma entusiasta do massacre que protestou contra a peça Salmo 91, em São Paulo.

Desde este dia, e especialmente quando reassisti ao filme, pensei em como alguém defenderia o massacre de 111 pessoas em um edifício fechado. Realmente... Sei lá. Ao longo da madrugada, sonhei que estava presa, que havia uma rebelião, que tentava identificar pessoas confiáveis no meio do tumulto. O presídio tinha janelas de vidro. Policiais gritavam comigo.

Na manhã seguinte, antes de sair, coloquei o jornal de domingo (intacto) em uma sacola plástica. 'Síndrome da informação', o Thiago me esclareceu quando cheguei na redação. Ele está juntando jornais há 25 dias. Em um quadro de desenvolvimento da doença, está pior do que eu.

Sergio passou o fim de semana em um festival de blues em Búzios e me perguntou o que eu havia feito no domingo. Respondi que 'nada', mal humorada, após ter enchido seus ouvidos com reclamações. Melhor teria sido dizer 'isso tudo'.

22 July 2007

Preciso de um teclado novo

PRECISO DE UM TECLADO NOVO.

As letras 'A' e 'M' estão há seis meses emperradas.

Me parece muito difícil resolver coisas práticas que tomariam cinco minutos.

Como entrar na loja da esquina, que vejo pelo menos duas vezes ao dia, e comprar um teclado novo.

18 July 2007

Homem com mochila

(YEHUDA AMICHAI)

Homem com mochila no mercado, Irmão,
Como você, sou homem burro, homem camelo,
Homem anjo. Sou como você.
Nossos braços são livres como asas.
Comparados conosco, todos os que carregam cestas
São escravos de escravos, sujeitos e humilhados.

Nós trocamos moedas por verduras frescas,
E para o esquecimento de nossas vidas compramos
Frutas e suas memórias, memória de campo e jardim,
Memória de cheiro da terra e do zumbir de abelhas em dia de calor.

Nós vimos uma mulher num vestido leve de verão
Antes de um amor longo e intenso,
Que determinará a sua vida. Ela não sabe ainda.
Nós sabemos. Em nossas costas
Carregamos o fruto da árvore da sabedoria.

Homem com mochila, você vive onde?
Eu sou como você, vivemos nas distâncias
Entre o prêmio e a punição.
E como nós vivemos? E quando à noite nós dormimos,
Em que sonhamos? Os que você ama,
Ainda vivem nos mesmos lugares?

Nossas mochilas, como pára-quedas fechados
Em nossas costas, abrem de noite
pra podermos saltar, e pairar
Sobre a fragrância de lembrar e de esquecer.

24 June 2007

Atropelamentos

- Ela é um carro desgovernado.

- Um carro desgovernado descendo uma ladeira.

- Sem freios.

- É um carro desgovernado sem freios descendo uma ladeira a 300 quilômetros por hora.

- Com pneus carecas.

- E...

- Chega. Mais um complemento e eu atropelo vocês.

20 June 2007

Para leer

La revista colombiana Semana publicó una selección de las 100 mejores novelas en castellano de los últimos 25 años, basada en una encuesta que hizo entre 81 expertos. Aquí va el resultado. El orden surge de los votos:

El amor en los tiempos del cólera
Gabriel García Márquez

La fiesta del Chivo
Mario Vargas Llosa

Los detectives salvajes
Roberto Bolaño

2666
Roberto Bolaño

Noticias del imperio
Fernando del Paso

Corazón tan blanco
Javier Marías

Bartleby y Compañía
Enrique Vila-Matas

Santa Evita
Tomás Eloy Martínez

Mañana en la batalla piensa en mí
Javier Marías

El desbarrancadero
Fernando Vallejo

La virgen de los sicarios
Fernando Vallejo

El entenado
Juan José Saer

Soldados de Salamina
Javier Cercas

Estrella distante
Roberto Bolaño

Paisaje después de la batalla
Juan Goytisolo

La ciudad de los prodigios
Eduardo Mendoza

El jinete polaco
Antonio Muñoz Molina

El testigo
Juan Villoro

Salón de belleza
Mario Bellatín

Cuando ya no importe
Juan Carlos Onetti

La tejedora de coronas
Germán Espinosa

El paraíso en la otra esquina
Mario Vargas Llosa

Cae la noche tropical
Manuel Puig

Doctor Pasavento
Enrique Vila-Matas

Herrumbrosas lanzas
Juan Benet

Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero.
Álvaro Mutis

El invierno en Lisboa.
Antonio Muñoz Molina

Verdes valles, colinas rojas.
Ramiro Pinilla

Mal de amores.
Ángeles Mastretta

Donde las mujeres.
Álvaro Pombo

El pasado.
Alan Pauls

El rastro.
Jorge Gómez Jiménez

Santo oficio de la memoria.
Mempo Giardinelli

Los años con Laura Díaz.
Carlos Fuentes

Plenilunio.
Antonio Muñoz Molina

Todas las almas.
Javier Marías

Cartas cruzadas.
Darío Jaramillo Agudelo

La casa del padre.
Justo Navarro

La visita en el tiempo.
Arturo Uslar Pietri

La historia de Horacio.
Tomás González

La grande.
Juan José Saer

El arte de la fuga.
Sergio Pitol

La velocidad de la luz.
Javier Cercas

Olvidado rey Gudu.
Ana María Matute

La gesta del marrano.
Marco Aguinis

Un viejo que leía novelas de amor.
Luis Sepúlveda

Plata quemada.
Ricardo Piglia

El vuelo de la reina.
Tomás Eloy Martínez

Diablo guardián.
Xavier Velasco

Igur Neblí.
Miquel de Palol

La nieve del almirante.
Álvaro Mutis

Vigilia del almirante.
Augusto Roa Bastos

Un campeón desparejo.
Adolfo Bioy Casares

Los pichiciegos.
Fogwill

La burla del tiempo.
Mauricio Electorat

Una novela china.
César Aira

El inútil de la familia.
Jorge Edwards

Lumperica.
Diamela Eltit

La otra mano de Lepanto.
Carmen Boullosa

En estado de memoria.
Tununa Mercado

Veinte años y un día.
Jorge Semprún

Ladrón de lunas.
Isaac Montero

La cuadratura del círculo.
Álvaro Pombo

No me esperen en abril.
Alfredo Bryce Echenique

Luna Caliente.
Mempo Giardinelli

Una sombra ya pronto serás.
Osvaldo Soriano

El cuarto mundo.
Diamela Eltit

La silla del Águila.
Carlos Fuentes

Temblor.
Rosa Montero

Historia del silencio.
Pedro Zarraluki

Los fantasmas.
César Aira

Angosta.
Héctor Abad Faciolince

La muerte como efecto secundario.
Ana María Shua

La orilla oscura.
José María Merino

La vida exagerada de Martín Romaña.
Alfredo Bryce Echenique

Sin remedio.
Antonio Caballero

El tiempo de las mujeres.
Ignacio Martínez de Pisón

Al morir Don Quijote.
Andrés Trapiello

Glosa.
Juan José Saer

Crónica de un iniciado.
Abelardo Castillo

El traductor.
Salvador Benesdra

Cumpleaños.
César Aira

La sexta lámpara.
Pablo de Santis

El embrujo de Shangai.
Juan Marsé

El maestro de esgrima.
Arturo Pérez Reverte

Carreteras secundarias.
Ignacio Martínez de Pisón

Rosario Tijeras.
Jorge Franco

La sombra del viento.
Carlos Ruiz Safón

Camino a la perdición.
Luis Mateo Díez

A sus plantas rendido un león.
Osvaldo Soriano

Memorias de mis putas tristes.
Gabriel García Márquez

Autómata.
Adolfo García Ortega

Del amor y otros demonios.
Gabriel García Márquez

Ella cantaba boleros.
Guillermo Cabrera Infante

La novela luminosa.
Mario Levrero

La guerra de Galio.
Héctor Aguilar Camín

Arráncame la vida.
Ángeles Mastreta

Arturo, la estrella más brillante.
Reinaldo Arenas

La orilla africana.
Rodrigo Rey Rosa

Los vigilantes.
Diamela Eltit

14 June 2007

O galope do sonho

"Eu gosto de contar histórias, mas, como não me acontecem muitas coisas, eu tenho que mentir. O escritor é um sujeito que não se conforma com o mundo do jeito que é, e por isso inventa outro".

Ariano Suassuna, (quase) 80 anos.

08 June 2007

É pouco para Clarice

A história está no livro de entrevistas feitas pela Clarice Lispector para as revistas 'Fatos e Fotos: Gente' e 'Manchete'. Clarice fazia essas entrevistas para se sustentar. Ou como contou Sérgio Rodrigues, 'defender uns trocados'. Não tenho o livro e fiquei sabendo do caso por uma coluna do jornalista.

Foi assim: Clarice estava no Antonio's entrevistando José Carlos Oliveira, então cronista do JB. No lendário reduto da boemia, o clima era de certa hostilidade. Carlos então disse que 'fazer sucesso é chegar ao mais baixo do fracasso, é sem querer cortar a vida em dois e ver o sangue escorrer'. Era uma mensagem direta a Clarice e suas entrevistas que ficaram famosas nas revistras ultra-comerciais (como se o JB também não fosse).

Carlos: Falamos linguagem diversa, é verdade. Eu prefiro ser feliz a cortar a vida em dois.

Clarice: E eu prefiro tudo, entendeu? Não quero perder nada, não quero sequer a escolha.

Carlos: Você prefere inclusive ser uma grande escritora. Mas eu renunciei há muito tempo essa vaidade. Quero comer, beber, fazer amor e morrer. Não me considero responsável pela literatura.

Clarice: Nem eu, meu caro. E estou vendo a hora em que começaremos, dentro de toda a amizade, a brigar. Também posso lhe dizer que se viver é beber no Antônio's, isso é pouco para mim. Quero mais porque minha sede é maior que a sua.

('Clarice Lispector - Entrevistas', editora Rocco, 232 páginas, só custa R$ 29,00.)

30 May 2007

Dúvida: Brecht é manézão?

QUEM DEVERIA ESTAR TRABALHANDO 1: Brecht não combina com você. Na verdade, gosto do que ele escreveu, embora não acredite em uma palavra. Dizia-se comunista, mas fez de tudo para não viver na Alemanha Ocidental, alegando que queria se manter 'indepentende'. Tentou asilo político na Suíça. Que grande revolucionário pediria pra viver na Suíça?! É conhecido como desertor e contador de vantagens em rodas regadas a uísque em Nova York.

Blergh. Manézão.

Gostava muito de 'Aos que vierem depois de nós'(conhece?). Mas me soa falso hoje em dia.

QUEM DEVERIA ESTAR TRABALHANDO 2: Vamos parar de condenar as pessoas. Marx tinha dinheiro e abusava de sua empregada doméstica. É manézão por isso? Não li, mas o vejo sendo citado de formas bacanas. Ele também gostava do lado bom americano, tipo cinema, gângsters, jazz, boxe, isso na época em que o país era mais charmoso e não infestado de gordos. Li isso no Lobo da Estepe.

29 May 2007

O que sobrou?

A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida à acção, a acção, a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve.

Livro do Desassossego, Fernando Pessoa, minha leitura intermitente.

13 May 2007

Jogar búzios para a reportagem

No Itaim, idosa colecionava lixo em casa

Espanhola de 80 anos diz ter recolhido todo tipo de entulho durante 18 anos e guardado; ela e o filho foram detidos

Após 16h de trabalhos, prefeitura retirou mais de 20 caminhões de resíduos; por falta de espaço, dona dormia num Fiat 147

PAULO SAMPAIO
DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA

Um gari equipado com máscara antigases sai da casa da espanhola Maria Violeta Rodriguez, 80, dizendo que é impossível ficar muito tempo lá dentro. Violeta ficou 18 anos. Esse é o tempo que ela teria gasto para acumular mais de 20 caminhões de lixo: os garis só conseguiram chegar à sala-de-estar depois de cerca de oito horas de limpeza, segundo a Vigilância Sanitária.

"A princípio, tínhamos uma fresta de apenas 20 cm de largura para entrar na casa", explica Maria Alice Ferreira, chefe da unidade de varrição pública. Segundo a vizinhança, Violeta costumava sair de casa à noite, sempre por volta das 22h, para explorar as latas de lixo do bairro, o Itaim Bibi, na Zona Oeste. Voltava com restos de comida, garrafas vazias, quadros sem molduras, panos velhos e até pólvora; o produto da coleta era entulhado pelos cômodos da casa.

Por falta de espaço, Violeta dormia em um Fiat 147 verde-metálico, ano 1980, de propriedade do filho. Os vizinhos já haviam reclamado do forte odor para a Vigilância Sanitária, mas, dizem, nunca se tomou nenhuma providência. "Cansamos de denunciar, mas ninguém fazia nada. Há uns 15 anos convivemos com esse mau cheiro", afirma a doceira Iolanda Machado Leite, que mora ao lado.

No domingo, depois de cinco dias sem ver Violeta e temendo que ela estivesse morta, uma moradora deu queixa à polícia. "Eu não delatei ninguém", nega a taróloga Celene Wali, propondo jogar búzios para a reportagem. "Foi ela sim!", afirmam alguns vizinhos.

A delegada Maria Aparecida Resende Corsato, do 15º DP, diz que a invasão da casa é legítima, já que o odor no local punha em risco a saúde da comunidade. "O interesse privado não pode estar acima do público", afirma Aparecida, que recomendou aos repórteres jogar os sapatos fora, para evitar contaminação, e declarou que iria às lojas Marisa comprar "um moletom baratinho para vestir".

Quando a polícia entrou no local, Violeta estava na casa do filho, no Guarujá. Ela soube da invasão por uma neta que ouviu a notícia no rádio. Como a senhora se sentiu?
"Não estou entendendo nada, imagina. Isso é crime, vou processar", repete, indignada, Violeta, que foi detida junto com o filho, o mecânico Juan Maurício Salgado, 40, dono das cinco carcaças de motos encontradas no local.

"Eu ia fazer uma arrumação esta semana e jogar fora o que não prestasse", garante Violeta. Muito nervoso, caminhando de um lado para o outro, Salgado se descontrola tentando justificar o entulho. "Mamãe é assim, não tem o que dizer. O que vocês querem que eu faça?" Violeta, que guardava em casa ainda as escrituras de 16 imóveis, afirma que vasculhava o lixo porque às vezes não tinha dinheiro para comer.
"O IPTU está caríssimo", queixa-se ela, que guardava também cerca de 25 mil pesetas, moeda espanhola fora de circulação.

Segundo a delegada, Violeta e o filho já têm passagem pela polícia por pequenos furtos. Eles serão indiciados por crime contra a saúde pública, exposição da vida alheia a perigo iminente e posse de artefato explosivo."Pensando bem, a senhora vai ser presa!", resolve a delegada, depois de folhear o código penal e descobrir que guardar explosivos em casa dá cadeia. Violeta examina Aparecida com expressão de pouco caso e bufa. "Mierda!"

"Mamãe nem sabe o que é isso [pólvora]. Ela catava qualquer coisa", diz Salgado. A delegada acaba voltando atrás. A senhora não tinha medo de dormir com ratos (que, de acordo com a varrição, tinham tamanho de gatos)?

"Não tenho medo de nada". E de ser presa?

"O quê!?"

***

É uma matéria de meados do ano passado. Lembrei por acaso durante este plantão de domingo. E isso me animou! Jogar búzios para a reportagem seria ótemo agora.

Coisas não-jornalísticas

Fim de fase. Números numa agenda de telefone experiente com medo do futuro, caráter dos compadres, mesas de bar distintas, culpados descrevendo guerras, o cativeiro e a janela estilhaçada, mais conhecidos, mais conhecidos, mais conhecidos, sempre soube que nublava quando alguém bom morria lá, maré, ito, negativos que magoam, a preocupação com uma, chaves para aqueles papéis, secretários, loucos, hipócritas, os que não fazem parte disso, cobrança dos inseguros, sono, baleados na bunda, boca pequena, nomes, o pulmão ardendo acima do mar de biles, medo de errar com tantos, falhas e ambições dos ordiários, realização, incompetência, coquetéis, chamadas mesquinhas, exageros, novo covil ou um castelo, quanto mais eu conheço as pessoas, mais eu gosto do meu cachorro.


Do meu companheiro Cigarro, quando eu sou o Café. Plantão de domingo dá um sooooooono... Sorte que Duran escreve coisas não-jornalísticas.

05 May 2007

A Idade da Razão

"Ando. Vou-me embora, passeio, erro, erro à vontade: férias de universitário, por onde ando levo a concha comigo, fico em casa, no meu quarto, entre meus livros, não me aproximo um centímetro sequer de Marrakech ou de Tombuctu. Mesmo se eu tomasse o trem e chegasse de repente em Marrakech ainda estaria no meu quarto, ainda estaria em casa. Se fosse passear nas praças, se abraçasse um árabe para através dele tocar em Marrakech, ele estaria em Marrakech, eu não. Eu estaria sempre sentado no meu quarto, tranqüilo e pensativo como escolhi ser, a três mil quilômetros do marroquino e de seu turbante. Em meu quarto. Para sempre."

(A Idade da Razão, Pg. 227, Jean-Paul Sartre)

P.S. Vanguarda é escrever em 1945 realidades e devaneios que são de 2007.

27 April 2007

O cansaço quando vem

O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões - a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
Bernardo Soares/ Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego.

19 April 2007

Rose Marie (2)

Ela toca gaita, os seus cabelos e os ombros do motorista de ônibus:

“Ei, não ouviu o sinal? Puxei a cordinha, era ponto. Não vai parar?”

Desceu do ônibus com uma caixa de papelão cinza debaixo do braço. Dentro dela, a parte afrodisíaca do almoço improvisado: vinte ovos de codorna.

“Meu senhor, como me explica esses ovos de periquito disfarçados de codorna? Eu sei bem o que é um ovo de codorna: tem manchas escuras e é maior. Não comerei embrião de periquito. Está decidido”.

Saiu da quitanda com um carregamento de frutas. Ao chegar em casa, devolveu ao ninho os quatro ovos de seu casal preferido: Jean e Simone.

Ferveu na chaleira os ovos de codorna. Ouviu o apito justamente no momento em que Vicente raspava a sola do sapato no tapetinho da porta.

Abriu a porta com as mãos sujas de manga. Esfregou o melado no rosto do amante, antes de beijá-lo na boca. Ele estava surpreso, e sujo, mas riu e entrou.

“Rose Marie! Volte aqui!”

“Vá sentando-se na mesa. Tenho surpresa”.

Arrumava em câmera lenta uma salada com ovos, folhas e frutas, quando ele marchou até a cozinha.

“O que é isso? Tem sangue!” (mostrando um papel)

“Não é meu. O sangue, digo”.

“Ah, sim, ótimo. E me dou por satisfeito? Você feriu... Matou alguém?”

Ela gargalhou ruidosamente.

“É um bilhete suicida. Roubei de um morto”.

Vicente passou de uma pergunta à outra, e logo à seguinte, numa sucessão irritante. Rose Marie controlou os nervos. Contou-lhe então a história que passaria batida se não fosse aquele pequeno escândalo conjugal.

Estava ela voltando da quitanda a pé. Sentia-se especialmente feliz pelo golpe inocente que aplicara no quitandeiro. Era domingo, as ruas estavam desertas, mas iluminadas pelo sol da manhã. Uma mulher gorda pôs fim ao momento irrompendo na calçada feito louca. Gritava qualquer coisa que não se podia entender e segurava a testa com as duas mãos.

“O que passa, senhora?”

“Um homem roxo! Roxo! No banheiro!”

Rose Marie olhou a placa do Hotel Lips (lábios em inglês), cruzou o saguão escuro e subiu as escadas de madeira. Entrou na porta escancarada e viu o tal homem roxo. Tinha enroscado no pescoço um cinto que o prendia feito cachorro à maçaneta da porta do banheiro. Prendeu o pescoço e derrapou de propósito no piso molhado. Fim.

Ela fez questão de deixar suas digitais por toda parte. Mexeu no roupão marrom desbotado, nos lençóis, na pequena maleta ao lado da cama, nas cortinas. E achou rapidamente o que queria. “Não agüento mais isso”, as quatro únicas palavras do bilhete suicida.

Guardou o papel em sua bolsa de feira e pôs-se a pensar em outra solução. Acabou por escrever “Apenas decidi a minha morte. Decida você também a sua”.

“Senhora, fique calma, ele está bem”, disse à gorda.

“Ai, graças a Deus! Pensei que estava morto!”

“Está. Mas parece ótimo, além de tudo”.

Rose Marie fez gesto para Vicente de que isso era tudo.

“Vicente, meu bem, agora toma esse bilhetinho e lê o que está escrito. Souvenir do dia que não te agüentei mais. Você pergunta muito..."

07 February 2007

História sem continuação (1)

Ela toca gaita, os cabelos e os ombros do motorista de ônibus:

“Ei, não ouviu o sinal? Puxei a cordinha, era ponto. Não vai parar?”

23 January 2007

Volta ao mundo em sete dias

Kafka me espera na mesa de cabeceira. E sabe-se lá porque me meti com este cara tão metódico, tão bem pensado. Logo eu. Logo agora. Gostava tanto da história de acordar uma barata, sem dar muitas explicações ou pedir para que alguém acreditasse. O sujeito virava barata e ponto. Agora, neste outro livro, um outro sujeito é acordado com a notícia de que responde a um processo, mas ninguém também explica o porquê (Até a página 127).

Toca jazz no meu quarto pequeno e lilás. Um CD que ganhei ontem, quando minha volta ao mundo (meu) completou sete dias. A música do imprevisível, das partes que se encontram quase por acaso. Larguei Kafka de lado, e os jornais de ontem.

Terça-feira passada, estava descalça no show do Nelson Sargento. Me disseram que, no tempo do Cartola, ele era o segundo homem da Mangueira. Hoje mora em Copacabana. Gosto de Cartola, da Mangueira e de Copacabana. Acho que gosto de Nelson também, minha primeira parada na volta ao mundo. No dia seguinte, bebi cerveja de garrafa, debaixo de chuva, num bar perto do Rival BR. Na quinta, escrevi minha segunda coluna para o DR. Na sexta, resolvi burocracias e fui à Feira dos Nordestinos. Cachaça com cravo e canela. Cheiro de cravo e canela, cenário de Céu de Suely, ainda danço forró terrivelmente mal.

Sábado: sete horas na Praia de Ipanema, seis mergulhos, um milho cozido, vinte e sete páginas de jornal cheias de areia. Sábado ainda: sorriso do Chico Buarque de Holanda no palco do Canecão, “mil perdões”. Lembrei da Carla (as duas). “No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido”. Aniversário do Mitchellângelo num porão-estúdio, com rocks legais que nunca vou saber a letra. Mas balanço a cabeça e Sergio me ensina a dar uns pulinhos hypes. Como e durmo e acordo e durmo no domingo. Porque na segunda, “enquanto corria a barca”, eu chego a um lugar que nunca quis deixar. E vejo o Rio, de Niterói; me vejo, então, Nele.

Acordei na terça-feira, não era barata nem estava sendo processada por crime grave que desconhecia. Tampouco partia mais para Nova York. Que Woody Allen então me aguarde. Ou venha até aqui.

15 January 2007

Vai um pedaço de Pessoa aí?

215. Livro do Desassossego, Fernando Pessoa:

"Tenho as opiniões mais desencontradas, as crenças mais diversas. É que nunca penso, nem falo, nem ajo... Pensa, fala, age por mim sempre um sonho qualquer meu, em que me encarno de momento. Vou a falar e falo eu-outro. De meu, só sinto uma incapacidade enorme, um vácuo imenso, uma incompetência ante tudo quanto é vida. Não sei os gestos a acto nenhum real. Nunca aprendi a existir. Tudo que quero, consigo; logo que seja dentro de mim. O que antes era moral, é estético hoje para nós... O que era social, é hoje individual. Para quê olhar os crepúsculos se tenho em mim milhares de crepúsculos diversos - alguns do quais que não o são - e se, além de os olhar dentro de mim, eu própio os sou, por dentro?"

25 December 2006

A última cena

MANHÃ, 6:20h

Já não há amor, nem dor, nem nada. O sinal de trânsito pisca o verde e indica apenas que a vida segue. Algumas pessoas, curiosas, formam grupos em lados opostos da rua. As calçadas separam corpos que, paralelos no infinito, contrariam as certezas matemáticas e jamais se encontrarão em um ponto invisível aos olhos presentes. À direita, um pai de família exala o cheiro da cachaça barata e da morte ordinária. Entre o boteco e a loja de fast-food, um funcionário com uniforme e olheiras varre a calçada, sem varrê-lo dali. Escorrega a vassoura por entre um e outro que cercam o homem estirado no chão. Não notou se era só mais um dos tipos rotos, que soluçam e tropeçam, num transe maldito, até caírem desmaiados. O rosto pressionado contra o concreto sujo, deformado pela posição, revelava algo de inexpressivo, como a feição dos velhos que caem no sono depois de três minutos de leitura. Num sono tão banal quanto precioso. À direita, do outro lado da rua, de bruços, a silhueta rechonchuda de uma mulher nos seus 30 anos forma na calçada um desenho igual ao do sujeito morto. Vistos de cima, dançam imóveis uma marcha fúnebre na manhã nascente.

MANHÃ, 6:04h

Quem estava por perto não deu conta das intenções da mendiga, antiga no bairro tanto quanto aquelas esquinas. Gargalhando de forma frouxa e descontrolada, se aproximou, pé ante pé, da gordinha que acabara de atravessar a rua com livros debaixo do braço. Em segundos, as mãozinhas inchadas tentavam tatear no ar o que havia agarrado em seu pescoço. O entregador na bicicleta riu. Todos riram. Mas os livros caíram. E a mendiga continuava gargalhando e puxando a fio de náilon para trás. A vítima engasgou mais rápido do que alguém pudesse avaliar o fim daquele episódio. As pessoas ficaram com os sorrisos suspensos e congelados num momento anterior de graça que ainda não passara. Até o chaveiro do quiosque próximo correr na direção da mulher que tombava na calçada. A mendiga coçava freneticamente a cabeça, como aqueles macaquinhos que catam piolhos na televisão. E corria em círculos ao redor da morta, do chaveiro e, agora, de uns passantes que pararam para ver o que acontecia. Logo, uma senhora com bolsa de feira perguntaria da vela, aquela que ilumina o caminho do defunto. Mas já não se usam mais essas coisas.

MANHÃ, 5:55h

Às cinco para as seis da manhã, na troca de turno dos funcionários do fast-food, o segurança à paisana subiu ao segundo andar. Tinha uma barriga saliente e as chaves, penduradas no cinto, faziam barulho quando ele avançava pelos degraus da escada. Para ela, servia como despertador. Hora de ir. Em segundos, a figura monstruosa, mas gentil, lhe diria as palavras de sempre, mostraria o relógio e convenceria-a de ir para casa. Adiantou-se, recolheu uns papéis, enfiou-os dentro dos livros e foi ao banheiro. O salão estava vazio quando ele entrou. Viu os livros na mesinha de plástico colorido. Por um instinto qualquer, virou os olhos bruscamente para as janelas. Fechadas. Ela surgiu com andar desengonçado e, ainda de longe, foi lhe falando “Já sei, já sei. Estou indo”. Pegou suas coisas, mas esqueceu o guarda-chuva verde musgo. Ele quase foi atrás para devolvê-lo, mas já não chovia e, no mais, ela voltaria na noite seguinte.

NOITE, 00:00h

Chegavam juntos todos os dias, por volta de meia-noite, quando a lanchonete ainda estava cheia. Ela se sentava perto da parede, num lugar central, de onde podia ver todos que entravam e saíam, embora raramente desgrudasse os olhos do que lia ou escrevia. Os freqüentadores também se repetiam, mesmo que não fossem os mesmos. Havia sempre um grupo desocupado jogando cartas de madrugada. Em média, dois ou três casais se amassando no fundo do salão. Por volta das três, as bonequinhas de luxo, inábeis para as imoralidades da noite, subiam as escadas quase rastejando. Vômito para todos os lados. Algumas pessoas até compravam comida e, ao chegarem no segundo piso, ficavam deslocadas com as bandejas na mão, procurando um lugar para sentar, apesar de tanta disponibilidade de cadeiras. Ela se sentia parte da fauna mista dos fast-foods da madrugada, próxima de uma espécie bacana de inspetores de colégios, daqueles que não delatam, que fingem não verem nada. Volta e meia, alguém perguntava que raio de música cafona e sussurrante era aquela dos alto-falantes. Um freqüentador mais assíduo respondia: “É ela ali que pede. Não vê que fica movendo os lábios em silêncio?”
Ninguém sabia o que tanto estudava, o que fazia durante o dia para passar a noite toda acordada. Às cinco para meia-noite, saía do prédio onde morava, atravessava a rua e ia à lanchonete. Nem sempre cruzava com o pai. Mas, naquela noite, chegaram a se ver por um instante. “Já vai?”. E ela já havia ido. Quando ouviu o barulho da porta batendo, o velho de bigode sentiu, de uma vez só, todo o cansaço guardado.

NOITE, 23:40h

Minutos antes, travava uma discussão no saguão do prédio com um sujeito que deveria ter a idade de sua filha. Sentia-se cansado. Um cara cheio de bons modos tinha aparecido na portaria perguntando, em tom de voz sereno, sobre o número de um apartamento. Ele abaixou o volume do radinho de pilhas e fez esforço para escutá-lo. “O senhor sabe me informar o número do apartamento da Marina, uma moreninha de um metro e meio mais ou menos? O pai dela é juiz, o senhor deve conhecer”. Ele explicou que Marina morava no Bloco A do condomínio, a entrada era pela outra rua. Cinco minutos mais tarde, o rapaz voltou. “O senhor sabe me informar o número do apartamento da Marina, uma moreninha de um metro e meio mais ou menos? O pai dela é juiz, o senhor deve conhecer”. As pernas paradas na mesma posição, o tom de voz inconfundível, o olhar meio distante mais uma vez e aquelas boas maneiras de cinco minutos atrás. “Meu camarada, você deve estar de brincadeira! Eu não te respondi isso agora há pouco?”. O sujeito sacudiu a cabeça, voltando a si, fitou o porteiro e ficou vermelho de tanto constrangimento. Desdobrou-se em desculpas e explicações. O porteiro deu de ombros e ajeitou o volume do radinho. “Olha, meu amigo, deixa para lá, meu tempo aqui está acabando e minha filha me espera”.

NOITE, 23:55h
Pouco antes do habitual, ele deixou a cabine dos porteiros. Ainda no andar térreo, abriu a porta da plaqueta “zelador” e viu a luz do banheiro acesa. Em pé na pequena sala, esperava o momento perfeito de conversar com a filha. Mas ouviu a porta rangendo, virou metade do corpo e um rosto de mulher, do lado de fora do apartamento, sumia em câmera lenta. Largou-se no sofá por frações de segundos, pôs-se novamente de pé e saiu decidido a parar no primeiro boteco. Na esquina, ao lado do seu edifício, bebeu muito e rápido e mais. Até perder os sentidos, a memória, a dor e um pouco do amor. Não percebeu sequer a ventania e o frio. Quando os primeiros raios solares aqueceram a manhã, dois garçons começaram a virar baldes de água no chão do bar. Um ritual de lava-pés dos miseráveis que se repetia em todo amanhecer. Como de costume, ele saiu com pés e tornozelos molhados, talvez limpo de seus pecados, anestesiado de seus pavores. Errou a direção e atravessou a rua. Mais uma vez, por um instante, cruzou com a filha, que não reconheceu. Havia à sua frente apenas uma imagem borrada de pedestres, mas nenhum som vinha deles. Ninguém que lhe mostrasse o caminho de volta ao lar que talvez não fosse seu. Reconhecer. Conhecer de novo. Quem o conhecia para querer vê-lo pela segunda vez? Desabou no chão e morreu, no exato momento em que fenecia também um outro fiapo de vida pouca – a única tristemente ligada à sua.

17 December 2006

Até amanhã

Tentei assaltos à realidade
Sem esperar o dia seguinte
Para apenas escrever em telas brancas
Os devaneios das noites mais escuras

Distorço o que não me cabe
Nem comove ou transforma
O fantástico mundo dos olhos meus
Tudo para viver nos velhos tempos
Em que não vivi.

02 December 2006

Pílula concepcional

"As coisas. Que tristes são as coisas consideradas sem ênfase", escreveu o poeta Carlos Drummond de Andrade. Ficam tristes as coisas e a espécie humana, eu acrescento. Com a licença dos ateus eu queria dizer ainda que na ênfase está a alma.

Tive a minha juventude tão impregnada pelo som colonizador que considero um milagre me ver insubmissa nesta altura, tentando desde sempre - ai de mim! - forjar uma vontade com a resistência do ferro.

Lygia Fagundes Telles, "Dia de dizer Não".

20 November 2006

Mitchellângelo em ação

"Grilos" (Roberto Carlos - Erasmo Carlos)

Se você passar daquela porta
Você vai ver
Como é que são as coisas
Como é que estão as coisas
Sei que o mundo pesa muitos quilos
Não leve a mal se eu lhe pedir

Para cortar os grilos
Pra cortar os grilos
Pra cortar os grilos
Pra cortar os grilos

Aí, então, você vai se convencer
Que se o mundo pesa
Não vai ser de reza
Que você vai viver
Descanse um pouco
E amanheça aqui comigo
Sou seu amigo, você vai ver
Sou seu amigo, você vai ver


Desenho do Mitchell (link ao lado) e música escolhida por ele também. A única pessoa que conheço capaz de aderir à expressão "grilos".

15 November 2006

Miguel não esquece um rosto

Jamais esquecia um rosto. Talvez o único traço que o lembrasse um mafioso, no restaurante de piso e paredes de madeira em que tomava uma sopa fumegante. Um homem com dentes escurecidos rompia o silêncio do ambiente com sapatos que faziam barulho. Miguel fez qualquer expressão de desdém, mantendo o tronco e o rosto tombados na direção da tigela. Pedaços de pão boiavam à sua frente, ele arrastava a colher rente às bordas, deixando que o líquido envolvesse e sugasse para o fundo a parte sólida do seu almoço. Era tímido ou entediado, ainda não havia decidido. Além disso, chovia lá fora, o que sempre respingava em seu humor. O velho insistia em estalar o assoalho com seus sapatos gastos-porém-engraxados. Aliás, a superfície faiscava e refletia as finas listras brancas do paletó negro. A gravata era vermelha e ele usava chapéu, que tirou ao chegar no balcão e pedir uma garrafa de vinho. Barato. Segurou pelo gargalo sua botella de vidro grosso e verde. As mãos frouxas deixavam a sensação de que tudo estava prestes a cair. Sentou e bebeu até que copo e garrafa começassem a ser estalar no encontro furtivo das doses idas e vindas. Estava numa mesa encostada à parede e, chapéu caído na testa, parecia fazer a sesta.

Miguel desistiu do trabalho, às vezes era contra o conceito, e inventou uma consulta dentária emergencial. A sopa tinha acabado e não restava dinheiro para outra coisa. Passou a tarde palitando os dentes e admirando a simetria dos seus dois pés acomodados em dois all-stars espantosamente idênticos. No fundo, sentia-se incomodado pela ausência de uma mulher corpulenta, decote indiscreto, batom vermelho e cabelos negros presos em um rodete quase como o de Evita. Ela deveria estar na mesa encostada na parede, onde agora se acomodava o velho. Seu nome talvez fosse Glória. Mas não estava ali para que pudesse perguntar e nem mesmo para reconhecer o seu rosto. Em outra ocasião, Glória estava sentada com uma postura cheia de orgulho, costas eretas, queixo levantado. Não tocava no copo de vinho. Mantinha os olhos muito negros espremidos e atentos numa direção fixa. A nuca do velho dos sapatos barulhentos. Ele vestia a mesma roupa, naquela vez. E estava de costas para a mulher. O chapéu fazia sombra no seu rosto. Dividida em quatro partes, a face só era iluminada no quadradinho inferior à esquerda pela claridade que vinha da janela.

Miguel não se lembra de nada que pudesse ter alterado esta cena. Os dois ficaram assim por muitos minutos. Quando o rapaz voltou, pouco tempo depois, homem e mulher ainda tinham as mesmas expressões, ocupavam o mesmo lugar no restaurante. O garoto estava inebriado pelo casal, dois amantes gastos como sapatos, cheios de tapas na cara e vociferações silenciosas. Pensou que, em algum momento, ela teria tramado trancá-lo em um quarto escuro para sempre e fazer visitas íntimas de vez em quando. Ele sabia disso e adorava a idéia, enquanto não se concretizasse, claro. Ficava exaustivamente animado com as pretensões ensandecidas da mulher. Queria colocá-la louca e rodopiar com ela num concurso de tango sem regras. Glória teria morrido? De droga, de raiva, de susto?

Miguel estava desapontado. Há cerca de um ano, conhecera os dois num retrato em preto-e-branco de um fotógrafo de rua na Feira de San Telmo. Segurou nas mãos, olhou bem, contou os trocados do bolso, só dariam para uma sopa. Sopa ou fotografia? Fazia frio naquela manhã e já era quase horário do almoço. Deu uma volta na praça e voltou à banca em que o casal permanecia imóvel. Passou os olhos pela última vez e foi atrás da sopa. Cedo ou tarde, reconheceria-os por aí.

05 November 2006

Assunto censurado

- Sobre o que é o roteiro?
- Um casal que está numa estrada...
- Um casal?! (Um tom mais alto)
- É... (Pausa) Eles têm um conflito ao longo da viagem. A mulher acha que ele deseja que ela seja outra coisa, começa a agir de forma diferente. No início, ele curte, entra no clima. Mas depois fica encanado, pensando que ela havia sido até ali uma falsa. Os dois...
- Por favor! Não agüento mais histórias sobre relacionamentos.

Entre um chope e outro, garçons para lá e para cá, alguém comenta do trabalho, outro do tempo que virou, um terceiro sobre um disparate do vizinho milico, volta ao primeiro que lembra de uma história curta envolvendo os presentes, eles riem, a graça passa, ninguém está bêbado ainda, parece que não ficarão nesta noite, aí alguém, meio sem jeito, toca num assunto maior que qualquer clichê sobre trabalho, tempo e nostalgia juvenil. Relacionamentos. Minutos iniciais reservados à negação, relacionamentos aniquilam bons momentos da vida, não se pode pensar em paz, beber com os amigos, sair sem avisar, mudar de idéia sem ser questionado “Você não era assim antes...”. Quantos anos perdidos e pessoas e festas e sacadas geniais sobre a vida – tudo isso trocado pela necessidade sub-humana (sim, porque a humanidade pode mais!) de fazer alguém caber no ‘seu’ sonho até descobrir que “calma aí, de quem é esta merda de sonho?”

Mas alguém desliza melancolicamente o dedo indicador na borda do copo, olha para a espuma do chope, faz cara de quem se incomoda com alguma coisa escondida. De repente, todos se incomodam, querem falar, mastigam o passado, esperam que o futuro venha de alguma forma bem previsível para preencher determinadas expectativas. “Alguém para emprestar a escova de dente”, “Mas isso não é anti-higiênico?”, “Fazer e levar crianças para ouvir histórias na pracinha da Flip”, “Quem sabe passar o fim de semana em casa, ouvi dizer que isso é divertido a dois”, “Que pobreza imaginativa...” etc. Fase de maturação.

Há ainda quem cultue a negativa. Em rodas de amigos, são os sujeitos rapidamente catalogados como os adultos que não cresceram – típicos das séries americanas de televisão. Mas nem sempre o fundo disso tudo são risadinhas artificiais de um auditório invisível. Inábeis à intimidade humana ou inadaptados ao cativeiro de emoções fáceis? Alguns, talvez, sejam o que restou da raça de ultra-românticos. Uma horda de radicais do sentimento puro, capazes de negar simulacros made in China por aí. Apaixonar-se deveria ser, para eles, idéia tão obscura como a poeira cósmica que vaga pelo espaço. Se um dia esbarrar com ela, “Óhhhhhhh, poeira cósmica!”, o chão tremerá abaixo dos seus pés – isto é, se houver chão. Mas não se sabe, não se viu e nenhum registro dos sobreviventes é real o suficiente para se fiar. Os xiitas dos relacionamentos odeiam o déjà vu, a mínima possibilidade de reviver o que já foi vivido – por ele próprio ou por seus antecessores. Eles só querem mesmo saber até onde iriam com alguém – não importa se de Palio Weekend tamanho família ou carona na boléia de um caminhão.

02 November 2006

Mania de edição

Fosse o que fosse
Peste
Estresse
Foice
Estariam juntos
Durante solos de guitarra
Imaginária
Imaginando que (um dia)
Estaria ela odiando
O gerundismo
E a mania de edição
De ele dizer ‘Não!’

Emburrado
Feito burro
Amarrado
Balança a cabeça
Repetindo ‘Não!’

Negativa seca
Mastigada na boca
Misturada às mãos
Que queriam escrever
Mais

Começa de novo
Rasga o papel
Vamos fazer
E acontecer
No barulho
Dos solos de guitarra
Imaginária


P.S. Poema-protesto ao amigo (e editor-júnior) mais implicante impossível.

01 November 2006

Volver a sentir profundo

Todos os meus pensamentos últimos não preenchem uma tela branca. Recordo as lições da prosa despretensiosa e da poesia neoconcreta que falava do armazém, da tia que tosse, da renda na mesa, das ‘pastilhas de aniversário domingos de futebol corso comícios roleta bilhar baralho’... E nada me vem. A praça deserta, a cerveja entornada, o cachorro de rua, a mais bela sinfonia assobiada por um passageiro de ônibus. Já não sinto, embolada que vivo em outras dimensões do pensamento. Há sensações que não se produzem ou reproduzem. Os moleques mergulhando no chafariz de água imunda da Praça Saens Peña, hoje ao meio-dia, eram uma possível notícia de jornal. E uma beleza a menos, já que a alegria alheia, vista, não era sentida. Com as mãos espalmadas feito remos, espirravam aquele lodo líquido um em cima do outro.

Uma pequena epifania de um dia qualquer, talvez. A possibilidade miúda de um sorriso esboçado gratuitamente. Como na tarde monótona em que ouvi “Volver a los 17”, na voz da peruana Violeta Parra. Tentei passar o milagre adiante como uma promessa de felicidade que se transmite em corrente. Confesso também que a primeira vez que recebi a letra não cheguei a ‘sentir profundo como un niño frente a Diós’. Desta vez, teria sido, quem sabe, a viola ao fundo, o sussurro quase em segredo, a crença compartilhada de que “solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes”. Toda a poesia que me faz viva neste instante (e naquele), reafirmada exclusivamente para mim através de um fone de ouvido, num ambiente tão distante da minha alma quanto perto do meu corpo. Era minha confissão mais verdadeira, em público sem ser pública, que me faria em um estalo mágico estar onde gostaria, da velha maneira como me conheço. Sem me mover da cadeira ou desligar o computador em que trabalhava.

‘Volver’, não à toa, me parece mais difícil do que seguir. Pedaços ficam pelo caminho, como aquele sorriso contido para os moleques do chafariz. Ou a confiança de que as pessoas são confiáveis. Algumas vezes me decepcionei com desconhecidos. Um trocador de ônibus se recusou a me dar o troco da nota de R$ 20 que tinha usado para pagar a passagem. A discussão se estendeu, expliquei que só tinha aquele dinheiro, que ele não poderia fingir que não havia recebido. No ponto final em Copacabana, longe do meu destino, sentei na calçada e chorei feito criança. Não podia conceber que alguém faria comigo o que eu não seria capaz contra os outros.

Desde sempre, acreditei que no dia em que não pudesse acreditar nas pessoas - fosse o trocador, o traficante, o frentista, o chefe no trabalho, o amigo mais fofoqueiro -, eu mesma estaria fracassada como projeto de gente. Sigo no mesmo ritual de chorar quando sou sacaneada, por mais irrelevante que seja o veneno destilado, a fofoca contada por descuido, a dívida não paga, o empurrão na confusão da entrada do metrô. Cada insignificância age como uma bomba contra minha fortaleza de ilusões sobre mim mesma – uma coletânea de genes, traços, idéias, vontades do resto da humanidade.

10 October 2006

Momentos de banquete


Sr. Candidato à Presidência e Dona Lu Alckmin inauguram a Daslu*

Trecho escrito num sábado, 6 de agosto de 2005
(Título original: A sociedade em tempos de crise)

A cidade de Ouro Preto, no século 18, estava entre as mais ricas do mundo e, contraditoriamente, sua elite chegou a comer cachorros e ratos para sobreviver durante as crises de abastecimento. Enquanto alguns poucos fantasiavam outra realidade com o falso luxo patrocinado pelo ciclo do ouro - a dos chapéus franceses, tapetes persas e rendas holandesas -, toda a sociedade padecia de uma fome crônica e perfeitamente evitável. Hoje, a perseguição cega pelo controle da inflação e por indicadores econômicos que se encerram neles mesmos é uma face da mesma negligência. O caso Daslu, sua roupagem social. Ambos os exemplos representam os antigos e insistentes erros da elite que se alimenta de momentos de riqueza, sem visão da sociedade em que se insere e sem perspectivas para longo prazo.

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* Curiosamente, coloquei as palavras "Daslu" e "Alckmin" no Google e apareceram apenas três fotografias: uma da Caros Amigos (esta que publiquei), uma do Vermelho.org e a última da Mídia Independente. Embora o então governador de São Paulo tenha sido figurinha badalada na inauguração do complexo de luxo, mais tarde enquadrado pela PF como sonegador fiscal do país.

03 October 2006

Um textículo de presente

Começo da noite, temperatura baixa, chovia até dentro do metrô. Num ato reflexo (que se repete com certa freqüência), fiz sinal para a composição parar. Pensava o óbvio ululante do potencial cenográfico da comprida Estação da Cinelândia, lugar ótimo para correrias asmáticas, divagações sentimentais, cenas de despedida nas janelas e de encontros com mulheres pedestálticas.

Mentira. Estava com fome e pensava em comer um pastel chinês no Largo do Machado. A história está dentro do vagão. A ficção, assim como a introdução do texto, é mentira, porque a realidade é composta de inconvenientes entediantes. Vagão vazio, com algumas poucas cadeiras disponíveis. Prefiro recostar em pé, ao lado da porta. Por coincidência, em cima de uma pintura no chão, destinando o espaço para deficientes. Não demora o fechar das portas para um senhor me repreender por ocupar o espaço. Respondo que o vagão está vazio. Ele pergunta se eu sou deficiente. "Tenho três testículos" (me imaginei dizendo com um ar blasé). Não disse isso. Só fui sentar longe dali.

No metrô do Rio só te importunam. No de São Paulo, já ouvi histórias de um cara que, na ida para o trabalho, tem o costume de escovar os dentes no vagão. Cospe nos intervalos, quando as portas abrem. Já vi não apenas um cara praticando air guitar, como toda sua banda surda, sem constrangimentos. Um verdadeiro mercado negro funciona em cima dos trilhos. No de lá, fizeram até filme. Nunca vi uma nórdica com casaco de esquimó como aquela sentada em nosso banco bege, na vinheta do Festival do Rio. O metrô daqui é chato pra caralho.

* Como o título já diz, o textículo me foi dado de presente. O autor é Sergio Duran.

Animal de confissão

O homem ocidental, escreve Foucault, tornou-se um animal de confissão. A compulsão por mergulhar em si mesmo e falar, especialmente sobre a própria sexualidade, num conjunto de localizações sociais cada vez mais amplo (originalmente a religião, mas, depois, os relacionamentos amorosos, as relações familiares, a medicina, a educação, e assim por diante) aparenta ser uma resistência libertadora para a objetificação do biopoder*. Foucault, no entando, acredita que isso é uma ilusão. A confissão expõe mais a pessoa ao domínio do poder.
(Norman Fairclough)

* O Foucault fala da objetificação do homem em microesferas do poder (como em exames educacionais ou médicos, nas relações de trabalho, etc). Isso se daria pela tentativa de "documentação" do homem como um dado caracterizado por n variáveis. Quando subvertemos as variáveis esperadas, nos confessando pessoas mais complexas e imprevisíveis do que as microesferas podem suportar, achamos, de alguma forma, que estamos subjetivando nossa existência. É neste momento que alguns dizem "Ih, vai dar merda". Será que Foucault tem razão?