Já que citei o Wagner Moura no último post...
Folha - Na preparação da peça "A Máquina" [2000], você se mudou para o Recife para ensaiar e morou com o elenco e o diretor. Era uma disponibilidade total ao trabalho?
Moura - Total. Que época boa! Todo mundo amigo, todo mundo querendo fazer aquilo. Eu já estava num momento em que queria sair de Salvador, trabalhar com outras pessoas, ver como era o teatro em outros lugares. Outro dia estava me lembrando que, em 1996, eu e Vladimir [Brichta] fizemos uma peça com José Possi Neto, em Salvador. Eu estava quase desistindo de fazer teatro. Achava que ia ser jornalista mesmo, que o teatro não ia dar certo. Ele fez um teste para a peça e eu não quis fazer. Aí os atores da saíram, ele me chamou para ser testado. Fiz uma leitura. Ele gostou da leitura e disse: "Quero que você faça a minha peça". Eu saí correndo da escola de teatro até minha casa, na chuva. Outro dia fiquei com saudade dessa sensação que acho que perdi um pouco. A época d'A Máquina tinha um pouco isso. Tanto que, de vez em quando, vem essa idéia de voltar com "A Máquina". Eu sou sempre o cara que é contra, acho que nós não somos mais aqueles caras que fizeram aquela peça. A gente era aquele cara, queria conhecer o mundo, mostrar o mundo para a menina que amava. A peça hoje não ia ter mais sentido com esse elenco.
31 July 2007
30 July 2007
O que você fez?
Vinte e quatro horas atrás, acordei pensando que estava com fome. Dormia no antigo quarto do meu irmão, que tem fama de assombrado, porque Carol estava no meu. Fui até a cozinha, minha mãe fazia frango. Confirmei a suspeita de que estava com fome pela estranha alegria em ver o frango.
Durante o almoço, lembro de ter pensado que ando comendo rápido demais. Costumo esperar imóvel todas as pessoas terminarem de mastigar. Fico inquieta pelo café. 'Posso pedir o café?': nunca pergunto, soaria grosseiro. Então, no domingo, foi assim também. E ao finalmente beber café, pensei como sempre que deveria diminuir as doses... Os dentes ficarão amarelos, o estômago esburacado, o sono agitado, a camisa manchada etc. Logo em seguida, entendi que o café é uma compensação para uma vida sem vícios. Eu poderia estar fumando, estar roendo rodapés, estar ouvindo Beyoncé. Só um golinho de café. Só.
Estranhamente, não tive vontade de ler o jornal. Quando isso acontece, passo a cantarolar internamente 'O sol nas bancas de revista, me enchem de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia? Eu vooooou'. Por um segundo, penso em minha vida se não fosse jornalista, se não estivesse fadada a ler notícias para sempre. Eu poderia então ser um pouco Cateano? Falar arrastado? Reparar no sol nas bancas de revista? Sim, eu poderia. No melhor dos sonhos.
Não tinha pressa. Se o mundo estivesse acabando, minha mãe avisaria. Pensei nisso e abri mão de ler a manchete. Nem a manchete, viu? Ela me ligou outro dia quando estava de plantão no hospital. Eram 11 da noite. Parecia uma chamada urgente. Contou, apressada, que um cara de 25 anos tinha morrido engasgado com um naco de carne. 'Mãe, o que você quer que eu faça?' Ela resmungou que era 'apenas um desabafo'.
Logo após o almoço, voltei a dormir. Muito frio. Dois cobertores e dois edredons. Eu tenho três pares de meia que revezo para jogar vôlei. Muito frio nos pés. Pensei que deveria comprar um daqueles pacotões de meia em uma loja popular. Apaguei em segundos.
Quando acordei, me perguntei automaticamente se já era noite. O céu estava nublado e não pude descobrir entre as frestas de persiana do antigo quarto assombrado do meu irmão. Ainda estava nele. Às vezes escolho dormir em outras partes da casa. Dá a sensação de viagem, porque você acorda sem saber direito onde está.
Fui até a cozinha, me preocupei em saber se o café na garrafa térmica era novo ou velho. Minha mãe gritou que era novo, mas ela sempre mente neste assunto. Eu bebi e não me pareceu de todo mal.
Chequei quinhentas vezes minhas diversas contas de e-mail e do orkut. Abri os sites dos jornais, mas fechei sem olhar. O sol quando bate nos sites dos jornais me enche de alegria e preguiça. Eu voooou. No MSN, surgiram uma e outra janelas com assuntos interessantes. Mas é chato escrever em um teclado emperrado e ter tudo mais emperrado na internet. Tipo as relações.
Foi quando minha mãe me chamou na sala para ver uma entrevista do Wagner Moura, constantemente interrompida por aquela bola que usa cinto apertado. O Faustão. Eu e minha mãe desejamos ao mesmo tempo e em voz alta que o Wagner Moura fizesse um monólogo, em close, naquele momento. Depois ela me ofereceu R$ 50 para gravar e editar a entrevista, excluindo todos os trechos em que o Faustão tecia comentários. Eu estava precisando dos R$ 50, mas preferi evitar a fadiga.
Depois de um tempo, resolvi catar tudo que estava fora do lugar no meu quarto. Descobri que a edição de junho da 'Revista de História' do Sergio estava entre meus papéis. Me senti feliz por ter furtado o exemplar sem intenção e, portanto, sem culpa. Agora sim poderei saber tudo sobre o 'desaparecimento do explorador inglês P.H. Fawcett no Xingu'. Sergio me convenceu de que isso era realmente importante e de que Fawcett era o Indiana Jones brasileiro. Ele gosta de traçar paralelos com ícones pops nas suas explicações.
Mas não li a revista. A esta altura, vocês sabem: me enche de alegria e preguiça. Li, despreocupadamente, alguns editais de mestrado e pensei em estudar... Estudar mesmo, estudar muito, estudar a base de café, estudar até saber. Minha mãe me chamou de novo. Ela me chama muito mesmo. 'Vem ver Carandiru'. Lembrei que li recentemente na Folha uma história sobre uma entusiasta do massacre que protestou contra a peça Salmo 91, em São Paulo.
Desde este dia, e especialmente quando reassisti ao filme, pensei em como alguém defenderia o massacre de 111 pessoas em um edifício fechado. Realmente... Sei lá. Ao longo da madrugada, sonhei que estava presa, que havia uma rebelião, que tentava identificar pessoas confiáveis no meio do tumulto. O presídio tinha janelas de vidro. Policiais gritavam comigo.
Na manhã seguinte, antes de sair, coloquei o jornal de domingo (intacto) em uma sacola plástica. 'Síndrome da informação', o Thiago me esclareceu quando cheguei na redação. Ele está juntando jornais há 25 dias. Em um quadro de desenvolvimento da doença, está pior do que eu.
Sergio passou o fim de semana em um festival de blues em Búzios e me perguntou o que eu havia feito no domingo. Respondi que 'nada', mal humorada, após ter enchido seus ouvidos com reclamações. Melhor teria sido dizer 'isso tudo'.
Durante o almoço, lembro de ter pensado que ando comendo rápido demais. Costumo esperar imóvel todas as pessoas terminarem de mastigar. Fico inquieta pelo café. 'Posso pedir o café?': nunca pergunto, soaria grosseiro. Então, no domingo, foi assim também. E ao finalmente beber café, pensei como sempre que deveria diminuir as doses... Os dentes ficarão amarelos, o estômago esburacado, o sono agitado, a camisa manchada etc. Logo em seguida, entendi que o café é uma compensação para uma vida sem vícios. Eu poderia estar fumando, estar roendo rodapés, estar ouvindo Beyoncé. Só um golinho de café. Só.
Estranhamente, não tive vontade de ler o jornal. Quando isso acontece, passo a cantarolar internamente 'O sol nas bancas de revista, me enchem de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia? Eu vooooou'. Por um segundo, penso em minha vida se não fosse jornalista, se não estivesse fadada a ler notícias para sempre. Eu poderia então ser um pouco Cateano? Falar arrastado? Reparar no sol nas bancas de revista? Sim, eu poderia. No melhor dos sonhos.
Não tinha pressa. Se o mundo estivesse acabando, minha mãe avisaria. Pensei nisso e abri mão de ler a manchete. Nem a manchete, viu? Ela me ligou outro dia quando estava de plantão no hospital. Eram 11 da noite. Parecia uma chamada urgente. Contou, apressada, que um cara de 25 anos tinha morrido engasgado com um naco de carne. 'Mãe, o que você quer que eu faça?' Ela resmungou que era 'apenas um desabafo'.
Logo após o almoço, voltei a dormir. Muito frio. Dois cobertores e dois edredons. Eu tenho três pares de meia que revezo para jogar vôlei. Muito frio nos pés. Pensei que deveria comprar um daqueles pacotões de meia em uma loja popular. Apaguei em segundos.
Quando acordei, me perguntei automaticamente se já era noite. O céu estava nublado e não pude descobrir entre as frestas de persiana do antigo quarto assombrado do meu irmão. Ainda estava nele. Às vezes escolho dormir em outras partes da casa. Dá a sensação de viagem, porque você acorda sem saber direito onde está.
Fui até a cozinha, me preocupei em saber se o café na garrafa térmica era novo ou velho. Minha mãe gritou que era novo, mas ela sempre mente neste assunto. Eu bebi e não me pareceu de todo mal.
Chequei quinhentas vezes minhas diversas contas de e-mail e do orkut. Abri os sites dos jornais, mas fechei sem olhar. O sol quando bate nos sites dos jornais me enche de alegria e preguiça. Eu voooou. No MSN, surgiram uma e outra janelas com assuntos interessantes. Mas é chato escrever em um teclado emperrado e ter tudo mais emperrado na internet. Tipo as relações.
Foi quando minha mãe me chamou na sala para ver uma entrevista do Wagner Moura, constantemente interrompida por aquela bola que usa cinto apertado. O Faustão. Eu e minha mãe desejamos ao mesmo tempo e em voz alta que o Wagner Moura fizesse um monólogo, em close, naquele momento. Depois ela me ofereceu R$ 50 para gravar e editar a entrevista, excluindo todos os trechos em que o Faustão tecia comentários. Eu estava precisando dos R$ 50, mas preferi evitar a fadiga.
Depois de um tempo, resolvi catar tudo que estava fora do lugar no meu quarto. Descobri que a edição de junho da 'Revista de História' do Sergio estava entre meus papéis. Me senti feliz por ter furtado o exemplar sem intenção e, portanto, sem culpa. Agora sim poderei saber tudo sobre o 'desaparecimento do explorador inglês P.H. Fawcett no Xingu'. Sergio me convenceu de que isso era realmente importante e de que Fawcett era o Indiana Jones brasileiro. Ele gosta de traçar paralelos com ícones pops nas suas explicações.
Mas não li a revista. A esta altura, vocês sabem: me enche de alegria e preguiça. Li, despreocupadamente, alguns editais de mestrado e pensei em estudar... Estudar mesmo, estudar muito, estudar a base de café, estudar até saber. Minha mãe me chamou de novo. Ela me chama muito mesmo. 'Vem ver Carandiru'. Lembrei que li recentemente na Folha uma história sobre uma entusiasta do massacre que protestou contra a peça Salmo 91, em São Paulo.
Desde este dia, e especialmente quando reassisti ao filme, pensei em como alguém defenderia o massacre de 111 pessoas em um edifício fechado. Realmente... Sei lá. Ao longo da madrugada, sonhei que estava presa, que havia uma rebelião, que tentava identificar pessoas confiáveis no meio do tumulto. O presídio tinha janelas de vidro. Policiais gritavam comigo.
Na manhã seguinte, antes de sair, coloquei o jornal de domingo (intacto) em uma sacola plástica. 'Síndrome da informação', o Thiago me esclareceu quando cheguei na redação. Ele está juntando jornais há 25 dias. Em um quadro de desenvolvimento da doença, está pior do que eu.
Sergio passou o fim de semana em um festival de blues em Búzios e me perguntou o que eu havia feito no domingo. Respondi que 'nada', mal humorada, após ter enchido seus ouvidos com reclamações. Melhor teria sido dizer 'isso tudo'.
22 July 2007
Preciso de um teclado novo
PRECISO DE UM TECLADO NOVO.
As letras 'A' e 'M' estão há seis meses emperradas.
Me parece muito difícil resolver coisas práticas que tomariam cinco minutos.
Como entrar na loja da esquina, que vejo pelo menos duas vezes ao dia, e comprar um teclado novo.
As letras 'A' e 'M' estão há seis meses emperradas.
Me parece muito difícil resolver coisas práticas que tomariam cinco minutos.
Como entrar na loja da esquina, que vejo pelo menos duas vezes ao dia, e comprar um teclado novo.
18 July 2007
Homem com mochila
(YEHUDA AMICHAI)
Homem com mochila no mercado, Irmão,
Como você, sou homem burro, homem camelo,
Homem anjo. Sou como você.
Nossos braços são livres como asas.
Comparados conosco, todos os que carregam cestas
São escravos de escravos, sujeitos e humilhados.
Nós trocamos moedas por verduras frescas,
E para o esquecimento de nossas vidas compramos
Frutas e suas memórias, memória de campo e jardim,
Memória de cheiro da terra e do zumbir de abelhas em dia de calor.
Nós vimos uma mulher num vestido leve de verão
Antes de um amor longo e intenso,
Que determinará a sua vida. Ela não sabe ainda.
Nós sabemos. Em nossas costas
Carregamos o fruto da árvore da sabedoria.
Homem com mochila, você vive onde?
Eu sou como você, vivemos nas distâncias
Entre o prêmio e a punição.
E como nós vivemos? E quando à noite nós dormimos,
Em que sonhamos? Os que você ama,
Ainda vivem nos mesmos lugares?
Nossas mochilas, como pára-quedas fechados
Em nossas costas, abrem de noite
pra podermos saltar, e pairar
Sobre a fragrância de lembrar e de esquecer.
Homem com mochila no mercado, Irmão,
Como você, sou homem burro, homem camelo,
Homem anjo. Sou como você.
Nossos braços são livres como asas.
Comparados conosco, todos os que carregam cestas
São escravos de escravos, sujeitos e humilhados.
Nós trocamos moedas por verduras frescas,
E para o esquecimento de nossas vidas compramos
Frutas e suas memórias, memória de campo e jardim,
Memória de cheiro da terra e do zumbir de abelhas em dia de calor.
Nós vimos uma mulher num vestido leve de verão
Antes de um amor longo e intenso,
Que determinará a sua vida. Ela não sabe ainda.
Nós sabemos. Em nossas costas
Carregamos o fruto da árvore da sabedoria.
Homem com mochila, você vive onde?
Eu sou como você, vivemos nas distâncias
Entre o prêmio e a punição.
E como nós vivemos? E quando à noite nós dormimos,
Em que sonhamos? Os que você ama,
Ainda vivem nos mesmos lugares?
Nossas mochilas, como pára-quedas fechados
Em nossas costas, abrem de noite
pra podermos saltar, e pairar
Sobre a fragrância de lembrar e de esquecer.
24 June 2007
Atropelamentos
- Ela é um carro desgovernado.
- Um carro desgovernado descendo uma ladeira.
- Sem freios.
- É um carro desgovernado sem freios descendo uma ladeira a 300 quilômetros por hora.
- Com pneus carecas.
- E...
- Chega. Mais um complemento e eu atropelo vocês.
- Um carro desgovernado descendo uma ladeira.
- Sem freios.
- É um carro desgovernado sem freios descendo uma ladeira a 300 quilômetros por hora.
- Com pneus carecas.
- E...
- Chega. Mais um complemento e eu atropelo vocês.
20 June 2007
Para leer
La revista colombiana Semana publicó una selección de las 100 mejores novelas en castellano de los últimos 25 años, basada en una encuesta que hizo entre 81 expertos. Aquí va el resultado. El orden surge de los votos:
El amor en los tiempos del cólera
Gabriel García Márquez
La fiesta del Chivo
Mario Vargas Llosa
Los detectives salvajes
Roberto Bolaño
2666
Roberto Bolaño
Noticias del imperio
Fernando del Paso
Corazón tan blanco
Javier Marías
Bartleby y Compañía
Enrique Vila-Matas
Santa Evita
Tomás Eloy Martínez
Mañana en la batalla piensa en mí
Javier Marías
El desbarrancadero
Fernando Vallejo
La virgen de los sicarios
Fernando Vallejo
El entenado
Juan José Saer
Soldados de Salamina
Javier Cercas
Estrella distante
Roberto Bolaño
Paisaje después de la batalla
Juan Goytisolo
La ciudad de los prodigios
Eduardo Mendoza
El jinete polaco
Antonio Muñoz Molina
El testigo
Juan Villoro
Salón de belleza
Mario Bellatín
Cuando ya no importe
Juan Carlos Onetti
La tejedora de coronas
Germán Espinosa
El paraíso en la otra esquina
Mario Vargas Llosa
Cae la noche tropical
Manuel Puig
Doctor Pasavento
Enrique Vila-Matas
Herrumbrosas lanzas
Juan Benet
Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero.
Álvaro Mutis
El invierno en Lisboa.
Antonio Muñoz Molina
Verdes valles, colinas rojas.
Ramiro Pinilla
Mal de amores.
Ángeles Mastretta
Donde las mujeres.
Álvaro Pombo
El pasado.
Alan Pauls
El rastro.
Jorge Gómez Jiménez
Santo oficio de la memoria.
Mempo Giardinelli
Los años con Laura Díaz.
Carlos Fuentes
Plenilunio.
Antonio Muñoz Molina
Todas las almas.
Javier Marías
Cartas cruzadas.
Darío Jaramillo Agudelo
La casa del padre.
Justo Navarro
La visita en el tiempo.
Arturo Uslar Pietri
La historia de Horacio.
Tomás González
La grande.
Juan José Saer
El arte de la fuga.
Sergio Pitol
La velocidad de la luz.
Javier Cercas
Olvidado rey Gudu.
Ana María Matute
La gesta del marrano.
Marco Aguinis
Un viejo que leía novelas de amor.
Luis Sepúlveda
Plata quemada.
Ricardo Piglia
El vuelo de la reina.
Tomás Eloy Martínez
Diablo guardián.
Xavier Velasco
Igur Neblí.
Miquel de Palol
La nieve del almirante.
Álvaro Mutis
Vigilia del almirante.
Augusto Roa Bastos
Un campeón desparejo.
Adolfo Bioy Casares
Los pichiciegos.
Fogwill
La burla del tiempo.
Mauricio Electorat
Una novela china.
César Aira
El inútil de la familia.
Jorge Edwards
Lumperica.
Diamela Eltit
La otra mano de Lepanto.
Carmen Boullosa
En estado de memoria.
Tununa Mercado
Veinte años y un día.
Jorge Semprún
Ladrón de lunas.
Isaac Montero
La cuadratura del círculo.
Álvaro Pombo
No me esperen en abril.
Alfredo Bryce Echenique
Luna Caliente.
Mempo Giardinelli
Una sombra ya pronto serás.
Osvaldo Soriano
El cuarto mundo.
Diamela Eltit
La silla del Águila.
Carlos Fuentes
Temblor.
Rosa Montero
Historia del silencio.
Pedro Zarraluki
Los fantasmas.
César Aira
Angosta.
Héctor Abad Faciolince
La muerte como efecto secundario.
Ana María Shua
La orilla oscura.
José María Merino
La vida exagerada de Martín Romaña.
Alfredo Bryce Echenique
Sin remedio.
Antonio Caballero
El tiempo de las mujeres.
Ignacio Martínez de Pisón
Al morir Don Quijote.
Andrés Trapiello
Glosa.
Juan José Saer
Crónica de un iniciado.
Abelardo Castillo
El traductor.
Salvador Benesdra
Cumpleaños.
César Aira
La sexta lámpara.
Pablo de Santis
El embrujo de Shangai.
Juan Marsé
El maestro de esgrima.
Arturo Pérez Reverte
Carreteras secundarias.
Ignacio Martínez de Pisón
Rosario Tijeras.
Jorge Franco
La sombra del viento.
Carlos Ruiz Safón
Camino a la perdición.
Luis Mateo Díez
A sus plantas rendido un león.
Osvaldo Soriano
Memorias de mis putas tristes.
Gabriel García Márquez
Autómata.
Adolfo García Ortega
Del amor y otros demonios.
Gabriel García Márquez
Ella cantaba boleros.
Guillermo Cabrera Infante
La novela luminosa.
Mario Levrero
La guerra de Galio.
Héctor Aguilar Camín
Arráncame la vida.
Ángeles Mastreta
Arturo, la estrella más brillante.
Reinaldo Arenas
La orilla africana.
Rodrigo Rey Rosa
Los vigilantes.
Diamela Eltit
El amor en los tiempos del cólera
Gabriel García Márquez
La fiesta del Chivo
Mario Vargas Llosa
Los detectives salvajes
Roberto Bolaño
2666
Roberto Bolaño
Noticias del imperio
Fernando del Paso
Corazón tan blanco
Javier Marías
Bartleby y Compañía
Enrique Vila-Matas
Santa Evita
Tomás Eloy Martínez
Mañana en la batalla piensa en mí
Javier Marías
El desbarrancadero
Fernando Vallejo
La virgen de los sicarios
Fernando Vallejo
El entenado
Juan José Saer
Soldados de Salamina
Javier Cercas
Estrella distante
Roberto Bolaño
Paisaje después de la batalla
Juan Goytisolo
La ciudad de los prodigios
Eduardo Mendoza
El jinete polaco
Antonio Muñoz Molina
El testigo
Juan Villoro
Salón de belleza
Mario Bellatín
Cuando ya no importe
Juan Carlos Onetti
La tejedora de coronas
Germán Espinosa
El paraíso en la otra esquina
Mario Vargas Llosa
Cae la noche tropical
Manuel Puig
Doctor Pasavento
Enrique Vila-Matas
Herrumbrosas lanzas
Juan Benet
Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero.
Álvaro Mutis
El invierno en Lisboa.
Antonio Muñoz Molina
Verdes valles, colinas rojas.
Ramiro Pinilla
Mal de amores.
Ángeles Mastretta
Donde las mujeres.
Álvaro Pombo
El pasado.
Alan Pauls
El rastro.
Jorge Gómez Jiménez
Santo oficio de la memoria.
Mempo Giardinelli
Los años con Laura Díaz.
Carlos Fuentes
Plenilunio.
Antonio Muñoz Molina
Todas las almas.
Javier Marías
Cartas cruzadas.
Darío Jaramillo Agudelo
La casa del padre.
Justo Navarro
La visita en el tiempo.
Arturo Uslar Pietri
La historia de Horacio.
Tomás González
La grande.
Juan José Saer
El arte de la fuga.
Sergio Pitol
La velocidad de la luz.
Javier Cercas
Olvidado rey Gudu.
Ana María Matute
La gesta del marrano.
Marco Aguinis
Un viejo que leía novelas de amor.
Luis Sepúlveda
Plata quemada.
Ricardo Piglia
El vuelo de la reina.
Tomás Eloy Martínez
Diablo guardián.
Xavier Velasco
Igur Neblí.
Miquel de Palol
La nieve del almirante.
Álvaro Mutis
Vigilia del almirante.
Augusto Roa Bastos
Un campeón desparejo.
Adolfo Bioy Casares
Los pichiciegos.
Fogwill
La burla del tiempo.
Mauricio Electorat
Una novela china.
César Aira
El inútil de la familia.
Jorge Edwards
Lumperica.
Diamela Eltit
La otra mano de Lepanto.
Carmen Boullosa
En estado de memoria.
Tununa Mercado
Veinte años y un día.
Jorge Semprún
Ladrón de lunas.
Isaac Montero
La cuadratura del círculo.
Álvaro Pombo
No me esperen en abril.
Alfredo Bryce Echenique
Luna Caliente.
Mempo Giardinelli
Una sombra ya pronto serás.
Osvaldo Soriano
El cuarto mundo.
Diamela Eltit
La silla del Águila.
Carlos Fuentes
Temblor.
Rosa Montero
Historia del silencio.
Pedro Zarraluki
Los fantasmas.
César Aira
Angosta.
Héctor Abad Faciolince
La muerte como efecto secundario.
Ana María Shua
La orilla oscura.
José María Merino
La vida exagerada de Martín Romaña.
Alfredo Bryce Echenique
Sin remedio.
Antonio Caballero
El tiempo de las mujeres.
Ignacio Martínez de Pisón
Al morir Don Quijote.
Andrés Trapiello
Glosa.
Juan José Saer
Crónica de un iniciado.
Abelardo Castillo
El traductor.
Salvador Benesdra
Cumpleaños.
César Aira
La sexta lámpara.
Pablo de Santis
El embrujo de Shangai.
Juan Marsé
El maestro de esgrima.
Arturo Pérez Reverte
Carreteras secundarias.
Ignacio Martínez de Pisón
Rosario Tijeras.
Jorge Franco
La sombra del viento.
Carlos Ruiz Safón
Camino a la perdición.
Luis Mateo Díez
A sus plantas rendido un león.
Osvaldo Soriano
Memorias de mis putas tristes.
Gabriel García Márquez
Autómata.
Adolfo García Ortega
Del amor y otros demonios.
Gabriel García Márquez
Ella cantaba boleros.
Guillermo Cabrera Infante
La novela luminosa.
Mario Levrero
La guerra de Galio.
Héctor Aguilar Camín
Arráncame la vida.
Ángeles Mastreta
Arturo, la estrella más brillante.
Reinaldo Arenas
La orilla africana.
Rodrigo Rey Rosa
Los vigilantes.
Diamela Eltit
14 June 2007
O galope do sonho
"Eu gosto de contar histórias, mas, como não me acontecem muitas coisas, eu tenho que mentir. O escritor é um sujeito que não se conforma com o mundo do jeito que é, e por isso inventa outro".
Ariano Suassuna, (quase) 80 anos.
Ariano Suassuna, (quase) 80 anos.
08 June 2007
É pouco para Clarice
A história está no livro de entrevistas feitas pela Clarice Lispector para as revistas 'Fatos e Fotos: Gente' e 'Manchete'. Clarice fazia essas entrevistas para se sustentar. Ou como contou Sérgio Rodrigues, 'defender uns trocados'. Não tenho o livro e fiquei sabendo do caso por uma coluna do jornalista.
Foi assim: Clarice estava no Antonio's entrevistando José Carlos Oliveira, então cronista do JB. No lendário reduto da boemia, o clima era de certa hostilidade. Carlos então disse que 'fazer sucesso é chegar ao mais baixo do fracasso, é sem querer cortar a vida em dois e ver o sangue escorrer'. Era uma mensagem direta a Clarice e suas entrevistas que ficaram famosas nas revistras ultra-comerciais (como se o JB também não fosse).
Carlos: Falamos linguagem diversa, é verdade. Eu prefiro ser feliz a cortar a vida em dois.
Clarice: E eu prefiro tudo, entendeu? Não quero perder nada, não quero sequer a escolha.
Carlos: Você prefere inclusive ser uma grande escritora. Mas eu renunciei há muito tempo essa vaidade. Quero comer, beber, fazer amor e morrer. Não me considero responsável pela literatura.
Clarice: Nem eu, meu caro. E estou vendo a hora em que começaremos, dentro de toda a amizade, a brigar. Também posso lhe dizer que se viver é beber no Antônio's, isso é pouco para mim. Quero mais porque minha sede é maior que a sua.
('Clarice Lispector - Entrevistas', editora Rocco, 232 páginas, só custa R$ 29,00.)
Foi assim: Clarice estava no Antonio's entrevistando José Carlos Oliveira, então cronista do JB. No lendário reduto da boemia, o clima era de certa hostilidade. Carlos então disse que 'fazer sucesso é chegar ao mais baixo do fracasso, é sem querer cortar a vida em dois e ver o sangue escorrer'. Era uma mensagem direta a Clarice e suas entrevistas que ficaram famosas nas revistras ultra-comerciais (como se o JB também não fosse).
Carlos: Falamos linguagem diversa, é verdade. Eu prefiro ser feliz a cortar a vida em dois.
Clarice: E eu prefiro tudo, entendeu? Não quero perder nada, não quero sequer a escolha.
Carlos: Você prefere inclusive ser uma grande escritora. Mas eu renunciei há muito tempo essa vaidade. Quero comer, beber, fazer amor e morrer. Não me considero responsável pela literatura.
Clarice: Nem eu, meu caro. E estou vendo a hora em que começaremos, dentro de toda a amizade, a brigar. Também posso lhe dizer que se viver é beber no Antônio's, isso é pouco para mim. Quero mais porque minha sede é maior que a sua.
('Clarice Lispector - Entrevistas', editora Rocco, 232 páginas, só custa R$ 29,00.)
01 June 2007
30 May 2007
Dúvida: Brecht é manézão?
QUEM DEVERIA ESTAR TRABALHANDO 1: Brecht não combina com você. Na verdade, gosto do que ele escreveu, embora não acredite em uma palavra. Dizia-se comunista, mas fez de tudo para não viver na Alemanha Ocidental, alegando que queria se manter 'indepentende'. Tentou asilo político na Suíça. Que grande revolucionário pediria pra viver na Suíça?! É conhecido como desertor e contador de vantagens em rodas regadas a uísque em Nova York.
Blergh. Manézão.
Gostava muito de 'Aos que vierem depois de nós'(conhece?). Mas me soa falso hoje em dia.
QUEM DEVERIA ESTAR TRABALHANDO 2: Vamos parar de condenar as pessoas. Marx tinha dinheiro e abusava de sua empregada doméstica. É manézão por isso? Não li, mas o vejo sendo citado de formas bacanas. Ele também gostava do lado bom americano, tipo cinema, gângsters, jazz, boxe, isso na época em que o país era mais charmoso e não infestado de gordos. Li isso no Lobo da Estepe.
Blergh. Manézão.
Gostava muito de 'Aos que vierem depois de nós'(conhece?). Mas me soa falso hoje em dia.
QUEM DEVERIA ESTAR TRABALHANDO 2: Vamos parar de condenar as pessoas. Marx tinha dinheiro e abusava de sua empregada doméstica. É manézão por isso? Não li, mas o vejo sendo citado de formas bacanas. Ele também gostava do lado bom americano, tipo cinema, gângsters, jazz, boxe, isso na época em que o país era mais charmoso e não infestado de gordos. Li isso no Lobo da Estepe.
29 May 2007
O que sobrou?
A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida à acção, a acção, a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa, minha leitura intermitente.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa, minha leitura intermitente.
13 May 2007
Jogar búzios para a reportagem
No Itaim, idosa colecionava lixo em casa
Espanhola de 80 anos diz ter recolhido todo tipo de entulho durante 18 anos e guardado; ela e o filho foram detidos
Após 16h de trabalhos, prefeitura retirou mais de 20 caminhões de resíduos; por falta de espaço, dona dormia num Fiat 147
PAULO SAMPAIO
DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA
Um gari equipado com máscara antigases sai da casa da espanhola Maria Violeta Rodriguez, 80, dizendo que é impossível ficar muito tempo lá dentro. Violeta ficou 18 anos. Esse é o tempo que ela teria gasto para acumular mais de 20 caminhões de lixo: os garis só conseguiram chegar à sala-de-estar depois de cerca de oito horas de limpeza, segundo a Vigilância Sanitária.
"A princípio, tínhamos uma fresta de apenas 20 cm de largura para entrar na casa", explica Maria Alice Ferreira, chefe da unidade de varrição pública. Segundo a vizinhança, Violeta costumava sair de casa à noite, sempre por volta das 22h, para explorar as latas de lixo do bairro, o Itaim Bibi, na Zona Oeste. Voltava com restos de comida, garrafas vazias, quadros sem molduras, panos velhos e até pólvora; o produto da coleta era entulhado pelos cômodos da casa.
Por falta de espaço, Violeta dormia em um Fiat 147 verde-metálico, ano 1980, de propriedade do filho. Os vizinhos já haviam reclamado do forte odor para a Vigilância Sanitária, mas, dizem, nunca se tomou nenhuma providência. "Cansamos de denunciar, mas ninguém fazia nada. Há uns 15 anos convivemos com esse mau cheiro", afirma a doceira Iolanda Machado Leite, que mora ao lado.
No domingo, depois de cinco dias sem ver Violeta e temendo que ela estivesse morta, uma moradora deu queixa à polícia. "Eu não delatei ninguém", nega a taróloga Celene Wali, propondo jogar búzios para a reportagem. "Foi ela sim!", afirmam alguns vizinhos.
A delegada Maria Aparecida Resende Corsato, do 15º DP, diz que a invasão da casa é legítima, já que o odor no local punha em risco a saúde da comunidade. "O interesse privado não pode estar acima do público", afirma Aparecida, que recomendou aos repórteres jogar os sapatos fora, para evitar contaminação, e declarou que iria às lojas Marisa comprar "um moletom baratinho para vestir".
Quando a polícia entrou no local, Violeta estava na casa do filho, no Guarujá. Ela soube da invasão por uma neta que ouviu a notícia no rádio. Como a senhora se sentiu?
"Não estou entendendo nada, imagina. Isso é crime, vou processar", repete, indignada, Violeta, que foi detida junto com o filho, o mecânico Juan Maurício Salgado, 40, dono das cinco carcaças de motos encontradas no local.
"Eu ia fazer uma arrumação esta semana e jogar fora o que não prestasse", garante Violeta. Muito nervoso, caminhando de um lado para o outro, Salgado se descontrola tentando justificar o entulho. "Mamãe é assim, não tem o que dizer. O que vocês querem que eu faça?" Violeta, que guardava em casa ainda as escrituras de 16 imóveis, afirma que vasculhava o lixo porque às vezes não tinha dinheiro para comer.
"O IPTU está caríssimo", queixa-se ela, que guardava também cerca de 25 mil pesetas, moeda espanhola fora de circulação.
Segundo a delegada, Violeta e o filho já têm passagem pela polícia por pequenos furtos. Eles serão indiciados por crime contra a saúde pública, exposição da vida alheia a perigo iminente e posse de artefato explosivo."Pensando bem, a senhora vai ser presa!", resolve a delegada, depois de folhear o código penal e descobrir que guardar explosivos em casa dá cadeia. Violeta examina Aparecida com expressão de pouco caso e bufa. "Mierda!"
"Mamãe nem sabe o que é isso [pólvora]. Ela catava qualquer coisa", diz Salgado. A delegada acaba voltando atrás. A senhora não tinha medo de dormir com ratos (que, de acordo com a varrição, tinham tamanho de gatos)?
"Não tenho medo de nada". E de ser presa?
"O quê!?"
***
É uma matéria de meados do ano passado. Lembrei por acaso durante este plantão de domingo. E isso me animou! Jogar búzios para a reportagem seria ótemo agora.
Espanhola de 80 anos diz ter recolhido todo tipo de entulho durante 18 anos e guardado; ela e o filho foram detidos
Após 16h de trabalhos, prefeitura retirou mais de 20 caminhões de resíduos; por falta de espaço, dona dormia num Fiat 147
PAULO SAMPAIO
DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA
Um gari equipado com máscara antigases sai da casa da espanhola Maria Violeta Rodriguez, 80, dizendo que é impossível ficar muito tempo lá dentro. Violeta ficou 18 anos. Esse é o tempo que ela teria gasto para acumular mais de 20 caminhões de lixo: os garis só conseguiram chegar à sala-de-estar depois de cerca de oito horas de limpeza, segundo a Vigilância Sanitária.
"A princípio, tínhamos uma fresta de apenas 20 cm de largura para entrar na casa", explica Maria Alice Ferreira, chefe da unidade de varrição pública. Segundo a vizinhança, Violeta costumava sair de casa à noite, sempre por volta das 22h, para explorar as latas de lixo do bairro, o Itaim Bibi, na Zona Oeste. Voltava com restos de comida, garrafas vazias, quadros sem molduras, panos velhos e até pólvora; o produto da coleta era entulhado pelos cômodos da casa.
Por falta de espaço, Violeta dormia em um Fiat 147 verde-metálico, ano 1980, de propriedade do filho. Os vizinhos já haviam reclamado do forte odor para a Vigilância Sanitária, mas, dizem, nunca se tomou nenhuma providência. "Cansamos de denunciar, mas ninguém fazia nada. Há uns 15 anos convivemos com esse mau cheiro", afirma a doceira Iolanda Machado Leite, que mora ao lado.
No domingo, depois de cinco dias sem ver Violeta e temendo que ela estivesse morta, uma moradora deu queixa à polícia. "Eu não delatei ninguém", nega a taróloga Celene Wali, propondo jogar búzios para a reportagem. "Foi ela sim!", afirmam alguns vizinhos.
A delegada Maria Aparecida Resende Corsato, do 15º DP, diz que a invasão da casa é legítima, já que o odor no local punha em risco a saúde da comunidade. "O interesse privado não pode estar acima do público", afirma Aparecida, que recomendou aos repórteres jogar os sapatos fora, para evitar contaminação, e declarou que iria às lojas Marisa comprar "um moletom baratinho para vestir".
Quando a polícia entrou no local, Violeta estava na casa do filho, no Guarujá. Ela soube da invasão por uma neta que ouviu a notícia no rádio. Como a senhora se sentiu?
"Não estou entendendo nada, imagina. Isso é crime, vou processar", repete, indignada, Violeta, que foi detida junto com o filho, o mecânico Juan Maurício Salgado, 40, dono das cinco carcaças de motos encontradas no local.
"Eu ia fazer uma arrumação esta semana e jogar fora o que não prestasse", garante Violeta. Muito nervoso, caminhando de um lado para o outro, Salgado se descontrola tentando justificar o entulho. "Mamãe é assim, não tem o que dizer. O que vocês querem que eu faça?" Violeta, que guardava em casa ainda as escrituras de 16 imóveis, afirma que vasculhava o lixo porque às vezes não tinha dinheiro para comer.
"O IPTU está caríssimo", queixa-se ela, que guardava também cerca de 25 mil pesetas, moeda espanhola fora de circulação.
Segundo a delegada, Violeta e o filho já têm passagem pela polícia por pequenos furtos. Eles serão indiciados por crime contra a saúde pública, exposição da vida alheia a perigo iminente e posse de artefato explosivo."Pensando bem, a senhora vai ser presa!", resolve a delegada, depois de folhear o código penal e descobrir que guardar explosivos em casa dá cadeia. Violeta examina Aparecida com expressão de pouco caso e bufa. "Mierda!"
"Mamãe nem sabe o que é isso [pólvora]. Ela catava qualquer coisa", diz Salgado. A delegada acaba voltando atrás. A senhora não tinha medo de dormir com ratos (que, de acordo com a varrição, tinham tamanho de gatos)?
"Não tenho medo de nada". E de ser presa?
"O quê!?"
***
É uma matéria de meados do ano passado. Lembrei por acaso durante este plantão de domingo. E isso me animou! Jogar búzios para a reportagem seria ótemo agora.
Coisas não-jornalísticas
Fim de fase. Números numa agenda de telefone experiente com medo do futuro, caráter dos compadres, mesas de bar distintas, culpados descrevendo guerras, o cativeiro e a janela estilhaçada, mais conhecidos, mais conhecidos, mais conhecidos, sempre soube que nublava quando alguém bom morria lá, maré, ito, negativos que magoam, a preocupação com uma, chaves para aqueles papéis, secretários, loucos, hipócritas, os que não fazem parte disso, cobrança dos inseguros, sono, baleados na bunda, boca pequena, nomes, o pulmão ardendo acima do mar de biles, medo de errar com tantos, falhas e ambições dos ordiários, realização, incompetência, coquetéis, chamadas mesquinhas, exageros, novo covil ou um castelo, quanto mais eu conheço as pessoas, mais eu gosto do meu cachorro.
Do meu companheiro Cigarro, quando eu sou o Café. Plantão de domingo dá um sooooooono... Sorte que Duran escreve coisas não-jornalísticas.
Do meu companheiro Cigarro, quando eu sou o Café. Plantão de domingo dá um sooooooono... Sorte que Duran escreve coisas não-jornalísticas.
05 May 2007
A Idade da Razão
"Ando. Vou-me embora, passeio, erro, erro à vontade: férias de universitário, por onde ando levo a concha comigo, fico em casa, no meu quarto, entre meus livros, não me aproximo um centímetro sequer de Marrakech ou de Tombuctu. Mesmo se eu tomasse o trem e chegasse de repente em Marrakech ainda estaria no meu quarto, ainda estaria em casa. Se fosse passear nas praças, se abraçasse um árabe para através dele tocar em Marrakech, ele estaria em Marrakech, eu não. Eu estaria sempre sentado no meu quarto, tranqüilo e pensativo como escolhi ser, a três mil quilômetros do marroquino e de seu turbante. Em meu quarto. Para sempre."
(A Idade da Razão, Pg. 227, Jean-Paul Sartre)
P.S. Vanguarda é escrever em 1945 realidades e devaneios que são de 2007.
(A Idade da Razão, Pg. 227, Jean-Paul Sartre)
P.S. Vanguarda é escrever em 1945 realidades e devaneios que são de 2007.
27 April 2007
O cansaço quando vem
O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões - a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
Bernardo Soares/ Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego.
19 April 2007
Rose Marie (2)
Ela toca gaita, os seus cabelos e os ombros do motorista de ônibus:
“Ei, não ouviu o sinal? Puxei a cordinha, era ponto. Não vai parar?”
Desceu do ônibus com uma caixa de papelão cinza debaixo do braço. Dentro dela, a parte afrodisíaca do almoço improvisado: vinte ovos de codorna.
“Meu senhor, como me explica esses ovos de periquito disfarçados de codorna? Eu sei bem o que é um ovo de codorna: tem manchas escuras e é maior. Não comerei embrião de periquito. Está decidido”.
Saiu da quitanda com um carregamento de frutas. Ao chegar em casa, devolveu ao ninho os quatro ovos de seu casal preferido: Jean e Simone.
Ferveu na chaleira os ovos de codorna. Ouviu o apito justamente no momento em que Vicente raspava a sola do sapato no tapetinho da porta.
Abriu a porta com as mãos sujas de manga. Esfregou o melado no rosto do amante, antes de beijá-lo na boca. Ele estava surpreso, e sujo, mas riu e entrou.
“Rose Marie! Volte aqui!”
“Vá sentando-se na mesa. Tenho surpresa”.
Arrumava em câmera lenta uma salada com ovos, folhas e frutas, quando ele marchou até a cozinha.
“O que é isso? Tem sangue!” (mostrando um papel)
“Não é meu. O sangue, digo”.
“Ah, sim, ótimo. E me dou por satisfeito? Você feriu... Matou alguém?”
Ela gargalhou ruidosamente.
“É um bilhete suicida. Roubei de um morto”.
Vicente passou de uma pergunta à outra, e logo à seguinte, numa sucessão irritante. Rose Marie controlou os nervos. Contou-lhe então a história que passaria batida se não fosse aquele pequeno escândalo conjugal.
Estava ela voltando da quitanda a pé. Sentia-se especialmente feliz pelo golpe inocente que aplicara no quitandeiro. Era domingo, as ruas estavam desertas, mas iluminadas pelo sol da manhã. Uma mulher gorda pôs fim ao momento irrompendo na calçada feito louca. Gritava qualquer coisa que não se podia entender e segurava a testa com as duas mãos.
“O que passa, senhora?”
“Um homem roxo! Roxo! No banheiro!”
Rose Marie olhou a placa do Hotel Lips (lábios em inglês), cruzou o saguão escuro e subiu as escadas de madeira. Entrou na porta escancarada e viu o tal homem roxo. Tinha enroscado no pescoço um cinto que o prendia feito cachorro à maçaneta da porta do banheiro. Prendeu o pescoço e derrapou de propósito no piso molhado. Fim.
Ela fez questão de deixar suas digitais por toda parte. Mexeu no roupão marrom desbotado, nos lençóis, na pequena maleta ao lado da cama, nas cortinas. E achou rapidamente o que queria. “Não agüento mais isso”, as quatro únicas palavras do bilhete suicida.
Guardou o papel em sua bolsa de feira e pôs-se a pensar em outra solução. Acabou por escrever “Apenas decidi a minha morte. Decida você também a sua”.
“Senhora, fique calma, ele está bem”, disse à gorda.
“Ai, graças a Deus! Pensei que estava morto!”
“Está. Mas parece ótimo, além de tudo”.
Rose Marie fez gesto para Vicente de que isso era tudo.
“Vicente, meu bem, agora toma esse bilhetinho e lê o que está escrito. Souvenir do dia que não te agüentei mais. Você pergunta muito..."
“Ei, não ouviu o sinal? Puxei a cordinha, era ponto. Não vai parar?”
Desceu do ônibus com uma caixa de papelão cinza debaixo do braço. Dentro dela, a parte afrodisíaca do almoço improvisado: vinte ovos de codorna.
“Meu senhor, como me explica esses ovos de periquito disfarçados de codorna? Eu sei bem o que é um ovo de codorna: tem manchas escuras e é maior. Não comerei embrião de periquito. Está decidido”.
Saiu da quitanda com um carregamento de frutas. Ao chegar em casa, devolveu ao ninho os quatro ovos de seu casal preferido: Jean e Simone.
Ferveu na chaleira os ovos de codorna. Ouviu o apito justamente no momento em que Vicente raspava a sola do sapato no tapetinho da porta.
Abriu a porta com as mãos sujas de manga. Esfregou o melado no rosto do amante, antes de beijá-lo na boca. Ele estava surpreso, e sujo, mas riu e entrou.
“Rose Marie! Volte aqui!”
“Vá sentando-se na mesa. Tenho surpresa”.
Arrumava em câmera lenta uma salada com ovos, folhas e frutas, quando ele marchou até a cozinha.
“O que é isso? Tem sangue!” (mostrando um papel)
“Não é meu. O sangue, digo”.
“Ah, sim, ótimo. E me dou por satisfeito? Você feriu... Matou alguém?”
Ela gargalhou ruidosamente.
“É um bilhete suicida. Roubei de um morto”.
Vicente passou de uma pergunta à outra, e logo à seguinte, numa sucessão irritante. Rose Marie controlou os nervos. Contou-lhe então a história que passaria batida se não fosse aquele pequeno escândalo conjugal.
Estava ela voltando da quitanda a pé. Sentia-se especialmente feliz pelo golpe inocente que aplicara no quitandeiro. Era domingo, as ruas estavam desertas, mas iluminadas pelo sol da manhã. Uma mulher gorda pôs fim ao momento irrompendo na calçada feito louca. Gritava qualquer coisa que não se podia entender e segurava a testa com as duas mãos.
“O que passa, senhora?”
“Um homem roxo! Roxo! No banheiro!”
Rose Marie olhou a placa do Hotel Lips (lábios em inglês), cruzou o saguão escuro e subiu as escadas de madeira. Entrou na porta escancarada e viu o tal homem roxo. Tinha enroscado no pescoço um cinto que o prendia feito cachorro à maçaneta da porta do banheiro. Prendeu o pescoço e derrapou de propósito no piso molhado. Fim.
Ela fez questão de deixar suas digitais por toda parte. Mexeu no roupão marrom desbotado, nos lençóis, na pequena maleta ao lado da cama, nas cortinas. E achou rapidamente o que queria. “Não agüento mais isso”, as quatro únicas palavras do bilhete suicida.
Guardou o papel em sua bolsa de feira e pôs-se a pensar em outra solução. Acabou por escrever “Apenas decidi a minha morte. Decida você também a sua”.
“Senhora, fique calma, ele está bem”, disse à gorda.
“Ai, graças a Deus! Pensei que estava morto!”
“Está. Mas parece ótimo, além de tudo”.
Rose Marie fez gesto para Vicente de que isso era tudo.
“Vicente, meu bem, agora toma esse bilhetinho e lê o que está escrito. Souvenir do dia que não te agüentei mais. Você pergunta muito..."
07 February 2007
História sem continuação (1)
Ela toca gaita, os cabelos e os ombros do motorista de ônibus:
“Ei, não ouviu o sinal? Puxei a cordinha, era ponto. Não vai parar?”
“Ei, não ouviu o sinal? Puxei a cordinha, era ponto. Não vai parar?”
23 January 2007
Volta ao mundo em sete dias
Kafka me espera na mesa de cabeceira. E sabe-se lá porque me meti com este cara tão metódico, tão bem pensado. Logo eu. Logo agora. Gostava tanto da história de acordar uma barata, sem dar muitas explicações ou pedir para que alguém acreditasse. O sujeito virava barata e ponto. Agora, neste outro livro, um outro sujeito é acordado com a notícia de que responde a um processo, mas ninguém também explica o porquê (Até a página 127).
Toca jazz no meu quarto pequeno e lilás. Um CD que ganhei ontem, quando minha volta ao mundo (meu) completou sete dias. A música do imprevisível, das partes que se encontram quase por acaso. Larguei Kafka de lado, e os jornais de ontem.
Terça-feira passada, estava descalça no show do Nelson Sargento. Me disseram que, no tempo do Cartola, ele era o segundo homem da Mangueira. Hoje mora em Copacabana. Gosto de Cartola, da Mangueira e de Copacabana. Acho que gosto de Nelson também, minha primeira parada na volta ao mundo. No dia seguinte, bebi cerveja de garrafa, debaixo de chuva, num bar perto do Rival BR. Na quinta, escrevi minha segunda coluna para o DR. Na sexta, resolvi burocracias e fui à Feira dos Nordestinos. Cachaça com cravo e canela. Cheiro de cravo e canela, cenário de Céu de Suely, ainda danço forró terrivelmente mal.
Sábado: sete horas na Praia de Ipanema, seis mergulhos, um milho cozido, vinte e sete páginas de jornal cheias de areia. Sábado ainda: sorriso do Chico Buarque de Holanda no palco do Canecão, “mil perdões”. Lembrei da Carla (as duas). “No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido”. Aniversário do Mitchellângelo num porão-estúdio, com rocks legais que nunca vou saber a letra. Mas balanço a cabeça e Sergio me ensina a dar uns pulinhos hypes. Como e durmo e acordo e durmo no domingo. Porque na segunda, “enquanto corria a barca”, eu chego a um lugar que nunca quis deixar. E vejo o Rio, de Niterói; me vejo, então, Nele.
Acordei na terça-feira, não era barata nem estava sendo processada por crime grave que desconhecia. Tampouco partia mais para Nova York. Que Woody Allen então me aguarde. Ou venha até aqui.
Toca jazz no meu quarto pequeno e lilás. Um CD que ganhei ontem, quando minha volta ao mundo (meu) completou sete dias. A música do imprevisível, das partes que se encontram quase por acaso. Larguei Kafka de lado, e os jornais de ontem.
Terça-feira passada, estava descalça no show do Nelson Sargento. Me disseram que, no tempo do Cartola, ele era o segundo homem da Mangueira. Hoje mora em Copacabana. Gosto de Cartola, da Mangueira e de Copacabana. Acho que gosto de Nelson também, minha primeira parada na volta ao mundo. No dia seguinte, bebi cerveja de garrafa, debaixo de chuva, num bar perto do Rival BR. Na quinta, escrevi minha segunda coluna para o DR. Na sexta, resolvi burocracias e fui à Feira dos Nordestinos. Cachaça com cravo e canela. Cheiro de cravo e canela, cenário de Céu de Suely, ainda danço forró terrivelmente mal.
Sábado: sete horas na Praia de Ipanema, seis mergulhos, um milho cozido, vinte e sete páginas de jornal cheias de areia. Sábado ainda: sorriso do Chico Buarque de Holanda no palco do Canecão, “mil perdões”. Lembrei da Carla (as duas). “No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido”. Aniversário do Mitchellângelo num porão-estúdio, com rocks legais que nunca vou saber a letra. Mas balanço a cabeça e Sergio me ensina a dar uns pulinhos hypes. Como e durmo e acordo e durmo no domingo. Porque na segunda, “enquanto corria a barca”, eu chego a um lugar que nunca quis deixar. E vejo o Rio, de Niterói; me vejo, então, Nele.
Acordei na terça-feira, não era barata nem estava sendo processada por crime grave que desconhecia. Tampouco partia mais para Nova York. Que Woody Allen então me aguarde. Ou venha até aqui.
15 January 2007
Vai um pedaço de Pessoa aí?
215. Livro do Desassossego, Fernando Pessoa:
"Tenho as opiniões mais desencontradas, as crenças mais diversas. É que nunca penso, nem falo, nem ajo... Pensa, fala, age por mim sempre um sonho qualquer meu, em que me encarno de momento. Vou a falar e falo eu-outro. De meu, só sinto uma incapacidade enorme, um vácuo imenso, uma incompetência ante tudo quanto é vida. Não sei os gestos a acto nenhum real. Nunca aprendi a existir. Tudo que quero, consigo; logo que seja dentro de mim. O que antes era moral, é estético hoje para nós... O que era social, é hoje individual. Para quê olhar os crepúsculos se tenho em mim milhares de crepúsculos diversos - alguns do quais que não o são - e se, além de os olhar dentro de mim, eu própio os sou, por dentro?"
"Tenho as opiniões mais desencontradas, as crenças mais diversas. É que nunca penso, nem falo, nem ajo... Pensa, fala, age por mim sempre um sonho qualquer meu, em que me encarno de momento. Vou a falar e falo eu-outro. De meu, só sinto uma incapacidade enorme, um vácuo imenso, uma incompetência ante tudo quanto é vida. Não sei os gestos a acto nenhum real. Nunca aprendi a existir. Tudo que quero, consigo; logo que seja dentro de mim. O que antes era moral, é estético hoje para nós... O que era social, é hoje individual. Para quê olhar os crepúsculos se tenho em mim milhares de crepúsculos diversos - alguns do quais que não o são - e se, além de os olhar dentro de mim, eu própio os sou, por dentro?"
25 December 2006
A última cena
MANHÃ, 6:20h
Já não há amor, nem dor, nem nada. O sinal de trânsito pisca o verde e indica apenas que a vida segue. Algumas pessoas, curiosas, formam grupos em lados opostos da rua. As calçadas separam corpos que, paralelos no infinito, contrariam as certezas matemáticas e jamais se encontrarão em um ponto invisível aos olhos presentes. À direita, um pai de família exala o cheiro da cachaça barata e da morte ordinária. Entre o boteco e a loja de fast-food, um funcionário com uniforme e olheiras varre a calçada, sem varrê-lo dali. Escorrega a vassoura por entre um e outro que cercam o homem estirado no chão. Não notou se era só mais um dos tipos rotos, que soluçam e tropeçam, num transe maldito, até caírem desmaiados. O rosto pressionado contra o concreto sujo, deformado pela posição, revelava algo de inexpressivo, como a feição dos velhos que caem no sono depois de três minutos de leitura. Num sono tão banal quanto precioso. À direita, do outro lado da rua, de bruços, a silhueta rechonchuda de uma mulher nos seus 30 anos forma na calçada um desenho igual ao do sujeito morto. Vistos de cima, dançam imóveis uma marcha fúnebre na manhã nascente.
MANHÃ, 6:04h
Quem estava por perto não deu conta das intenções da mendiga, antiga no bairro tanto quanto aquelas esquinas. Gargalhando de forma frouxa e descontrolada, se aproximou, pé ante pé, da gordinha que acabara de atravessar a rua com livros debaixo do braço. Em segundos, as mãozinhas inchadas tentavam tatear no ar o que havia agarrado em seu pescoço. O entregador na bicicleta riu. Todos riram. Mas os livros caíram. E a mendiga continuava gargalhando e puxando a fio de náilon para trás. A vítima engasgou mais rápido do que alguém pudesse avaliar o fim daquele episódio. As pessoas ficaram com os sorrisos suspensos e congelados num momento anterior de graça que ainda não passara. Até o chaveiro do quiosque próximo correr na direção da mulher que tombava na calçada. A mendiga coçava freneticamente a cabeça, como aqueles macaquinhos que catam piolhos na televisão. E corria em círculos ao redor da morta, do chaveiro e, agora, de uns passantes que pararam para ver o que acontecia. Logo, uma senhora com bolsa de feira perguntaria da vela, aquela que ilumina o caminho do defunto. Mas já não se usam mais essas coisas.
MANHÃ, 5:55h
Às cinco para as seis da manhã, na troca de turno dos funcionários do fast-food, o segurança à paisana subiu ao segundo andar. Tinha uma barriga saliente e as chaves, penduradas no cinto, faziam barulho quando ele avançava pelos degraus da escada. Para ela, servia como despertador. Hora de ir. Em segundos, a figura monstruosa, mas gentil, lhe diria as palavras de sempre, mostraria o relógio e convenceria-a de ir para casa. Adiantou-se, recolheu uns papéis, enfiou-os dentro dos livros e foi ao banheiro. O salão estava vazio quando ele entrou. Viu os livros na mesinha de plástico colorido. Por um instinto qualquer, virou os olhos bruscamente para as janelas. Fechadas. Ela surgiu com andar desengonçado e, ainda de longe, foi lhe falando “Já sei, já sei. Estou indo”. Pegou suas coisas, mas esqueceu o guarda-chuva verde musgo. Ele quase foi atrás para devolvê-lo, mas já não chovia e, no mais, ela voltaria na noite seguinte.
NOITE, 00:00h
Chegavam juntos todos os dias, por volta de meia-noite, quando a lanchonete ainda estava cheia. Ela se sentava perto da parede, num lugar central, de onde podia ver todos que entravam e saíam, embora raramente desgrudasse os olhos do que lia ou escrevia. Os freqüentadores também se repetiam, mesmo que não fossem os mesmos. Havia sempre um grupo desocupado jogando cartas de madrugada. Em média, dois ou três casais se amassando no fundo do salão. Por volta das três, as bonequinhas de luxo, inábeis para as imoralidades da noite, subiam as escadas quase rastejando. Vômito para todos os lados. Algumas pessoas até compravam comida e, ao chegarem no segundo piso, ficavam deslocadas com as bandejas na mão, procurando um lugar para sentar, apesar de tanta disponibilidade de cadeiras. Ela se sentia parte da fauna mista dos fast-foods da madrugada, próxima de uma espécie bacana de inspetores de colégios, daqueles que não delatam, que fingem não verem nada. Volta e meia, alguém perguntava que raio de música cafona e sussurrante era aquela dos alto-falantes. Um freqüentador mais assíduo respondia: “É ela ali que pede. Não vê que fica movendo os lábios em silêncio?”
Ninguém sabia o que tanto estudava, o que fazia durante o dia para passar a noite toda acordada. Às cinco para meia-noite, saía do prédio onde morava, atravessava a rua e ia à lanchonete. Nem sempre cruzava com o pai. Mas, naquela noite, chegaram a se ver por um instante. “Já vai?”. E ela já havia ido. Quando ouviu o barulho da porta batendo, o velho de bigode sentiu, de uma vez só, todo o cansaço guardado.
NOITE, 23:40h
Minutos antes, travava uma discussão no saguão do prédio com um sujeito que deveria ter a idade de sua filha. Sentia-se cansado. Um cara cheio de bons modos tinha aparecido na portaria perguntando, em tom de voz sereno, sobre o número de um apartamento. Ele abaixou o volume do radinho de pilhas e fez esforço para escutá-lo. “O senhor sabe me informar o número do apartamento da Marina, uma moreninha de um metro e meio mais ou menos? O pai dela é juiz, o senhor deve conhecer”. Ele explicou que Marina morava no Bloco A do condomínio, a entrada era pela outra rua. Cinco minutos mais tarde, o rapaz voltou. “O senhor sabe me informar o número do apartamento da Marina, uma moreninha de um metro e meio mais ou menos? O pai dela é juiz, o senhor deve conhecer”. As pernas paradas na mesma posição, o tom de voz inconfundível, o olhar meio distante mais uma vez e aquelas boas maneiras de cinco minutos atrás. “Meu camarada, você deve estar de brincadeira! Eu não te respondi isso agora há pouco?”. O sujeito sacudiu a cabeça, voltando a si, fitou o porteiro e ficou vermelho de tanto constrangimento. Desdobrou-se em desculpas e explicações. O porteiro deu de ombros e ajeitou o volume do radinho. “Olha, meu amigo, deixa para lá, meu tempo aqui está acabando e minha filha me espera”.
NOITE, 23:55h
Pouco antes do habitual, ele deixou a cabine dos porteiros. Ainda no andar térreo, abriu a porta da plaqueta “zelador” e viu a luz do banheiro acesa. Em pé na pequena sala, esperava o momento perfeito de conversar com a filha. Mas ouviu a porta rangendo, virou metade do corpo e um rosto de mulher, do lado de fora do apartamento, sumia em câmera lenta. Largou-se no sofá por frações de segundos, pôs-se novamente de pé e saiu decidido a parar no primeiro boteco. Na esquina, ao lado do seu edifício, bebeu muito e rápido e mais. Até perder os sentidos, a memória, a dor e um pouco do amor. Não percebeu sequer a ventania e o frio. Quando os primeiros raios solares aqueceram a manhã, dois garçons começaram a virar baldes de água no chão do bar. Um ritual de lava-pés dos miseráveis que se repetia em todo amanhecer. Como de costume, ele saiu com pés e tornozelos molhados, talvez limpo de seus pecados, anestesiado de seus pavores. Errou a direção e atravessou a rua. Mais uma vez, por um instante, cruzou com a filha, que não reconheceu. Havia à sua frente apenas uma imagem borrada de pedestres, mas nenhum som vinha deles. Ninguém que lhe mostrasse o caminho de volta ao lar que talvez não fosse seu. Reconhecer. Conhecer de novo. Quem o conhecia para querer vê-lo pela segunda vez? Desabou no chão e morreu, no exato momento em que fenecia também um outro fiapo de vida pouca – a única tristemente ligada à sua.
Já não há amor, nem dor, nem nada. O sinal de trânsito pisca o verde e indica apenas que a vida segue. Algumas pessoas, curiosas, formam grupos em lados opostos da rua. As calçadas separam corpos que, paralelos no infinito, contrariam as certezas matemáticas e jamais se encontrarão em um ponto invisível aos olhos presentes. À direita, um pai de família exala o cheiro da cachaça barata e da morte ordinária. Entre o boteco e a loja de fast-food, um funcionário com uniforme e olheiras varre a calçada, sem varrê-lo dali. Escorrega a vassoura por entre um e outro que cercam o homem estirado no chão. Não notou se era só mais um dos tipos rotos, que soluçam e tropeçam, num transe maldito, até caírem desmaiados. O rosto pressionado contra o concreto sujo, deformado pela posição, revelava algo de inexpressivo, como a feição dos velhos que caem no sono depois de três minutos de leitura. Num sono tão banal quanto precioso. À direita, do outro lado da rua, de bruços, a silhueta rechonchuda de uma mulher nos seus 30 anos forma na calçada um desenho igual ao do sujeito morto. Vistos de cima, dançam imóveis uma marcha fúnebre na manhã nascente.
MANHÃ, 6:04h
Quem estava por perto não deu conta das intenções da mendiga, antiga no bairro tanto quanto aquelas esquinas. Gargalhando de forma frouxa e descontrolada, se aproximou, pé ante pé, da gordinha que acabara de atravessar a rua com livros debaixo do braço. Em segundos, as mãozinhas inchadas tentavam tatear no ar o que havia agarrado em seu pescoço. O entregador na bicicleta riu. Todos riram. Mas os livros caíram. E a mendiga continuava gargalhando e puxando a fio de náilon para trás. A vítima engasgou mais rápido do que alguém pudesse avaliar o fim daquele episódio. As pessoas ficaram com os sorrisos suspensos e congelados num momento anterior de graça que ainda não passara. Até o chaveiro do quiosque próximo correr na direção da mulher que tombava na calçada. A mendiga coçava freneticamente a cabeça, como aqueles macaquinhos que catam piolhos na televisão. E corria em círculos ao redor da morta, do chaveiro e, agora, de uns passantes que pararam para ver o que acontecia. Logo, uma senhora com bolsa de feira perguntaria da vela, aquela que ilumina o caminho do defunto. Mas já não se usam mais essas coisas.
MANHÃ, 5:55h
Às cinco para as seis da manhã, na troca de turno dos funcionários do fast-food, o segurança à paisana subiu ao segundo andar. Tinha uma barriga saliente e as chaves, penduradas no cinto, faziam barulho quando ele avançava pelos degraus da escada. Para ela, servia como despertador. Hora de ir. Em segundos, a figura monstruosa, mas gentil, lhe diria as palavras de sempre, mostraria o relógio e convenceria-a de ir para casa. Adiantou-se, recolheu uns papéis, enfiou-os dentro dos livros e foi ao banheiro. O salão estava vazio quando ele entrou. Viu os livros na mesinha de plástico colorido. Por um instinto qualquer, virou os olhos bruscamente para as janelas. Fechadas. Ela surgiu com andar desengonçado e, ainda de longe, foi lhe falando “Já sei, já sei. Estou indo”. Pegou suas coisas, mas esqueceu o guarda-chuva verde musgo. Ele quase foi atrás para devolvê-lo, mas já não chovia e, no mais, ela voltaria na noite seguinte.
NOITE, 00:00h
Chegavam juntos todos os dias, por volta de meia-noite, quando a lanchonete ainda estava cheia. Ela se sentava perto da parede, num lugar central, de onde podia ver todos que entravam e saíam, embora raramente desgrudasse os olhos do que lia ou escrevia. Os freqüentadores também se repetiam, mesmo que não fossem os mesmos. Havia sempre um grupo desocupado jogando cartas de madrugada. Em média, dois ou três casais se amassando no fundo do salão. Por volta das três, as bonequinhas de luxo, inábeis para as imoralidades da noite, subiam as escadas quase rastejando. Vômito para todos os lados. Algumas pessoas até compravam comida e, ao chegarem no segundo piso, ficavam deslocadas com as bandejas na mão, procurando um lugar para sentar, apesar de tanta disponibilidade de cadeiras. Ela se sentia parte da fauna mista dos fast-foods da madrugada, próxima de uma espécie bacana de inspetores de colégios, daqueles que não delatam, que fingem não verem nada. Volta e meia, alguém perguntava que raio de música cafona e sussurrante era aquela dos alto-falantes. Um freqüentador mais assíduo respondia: “É ela ali que pede. Não vê que fica movendo os lábios em silêncio?”
Ninguém sabia o que tanto estudava, o que fazia durante o dia para passar a noite toda acordada. Às cinco para meia-noite, saía do prédio onde morava, atravessava a rua e ia à lanchonete. Nem sempre cruzava com o pai. Mas, naquela noite, chegaram a se ver por um instante. “Já vai?”. E ela já havia ido. Quando ouviu o barulho da porta batendo, o velho de bigode sentiu, de uma vez só, todo o cansaço guardado.
NOITE, 23:40h
Minutos antes, travava uma discussão no saguão do prédio com um sujeito que deveria ter a idade de sua filha. Sentia-se cansado. Um cara cheio de bons modos tinha aparecido na portaria perguntando, em tom de voz sereno, sobre o número de um apartamento. Ele abaixou o volume do radinho de pilhas e fez esforço para escutá-lo. “O senhor sabe me informar o número do apartamento da Marina, uma moreninha de um metro e meio mais ou menos? O pai dela é juiz, o senhor deve conhecer”. Ele explicou que Marina morava no Bloco A do condomínio, a entrada era pela outra rua. Cinco minutos mais tarde, o rapaz voltou. “O senhor sabe me informar o número do apartamento da Marina, uma moreninha de um metro e meio mais ou menos? O pai dela é juiz, o senhor deve conhecer”. As pernas paradas na mesma posição, o tom de voz inconfundível, o olhar meio distante mais uma vez e aquelas boas maneiras de cinco minutos atrás. “Meu camarada, você deve estar de brincadeira! Eu não te respondi isso agora há pouco?”. O sujeito sacudiu a cabeça, voltando a si, fitou o porteiro e ficou vermelho de tanto constrangimento. Desdobrou-se em desculpas e explicações. O porteiro deu de ombros e ajeitou o volume do radinho. “Olha, meu amigo, deixa para lá, meu tempo aqui está acabando e minha filha me espera”.
NOITE, 23:55h
Pouco antes do habitual, ele deixou a cabine dos porteiros. Ainda no andar térreo, abriu a porta da plaqueta “zelador” e viu a luz do banheiro acesa. Em pé na pequena sala, esperava o momento perfeito de conversar com a filha. Mas ouviu a porta rangendo, virou metade do corpo e um rosto de mulher, do lado de fora do apartamento, sumia em câmera lenta. Largou-se no sofá por frações de segundos, pôs-se novamente de pé e saiu decidido a parar no primeiro boteco. Na esquina, ao lado do seu edifício, bebeu muito e rápido e mais. Até perder os sentidos, a memória, a dor e um pouco do amor. Não percebeu sequer a ventania e o frio. Quando os primeiros raios solares aqueceram a manhã, dois garçons começaram a virar baldes de água no chão do bar. Um ritual de lava-pés dos miseráveis que se repetia em todo amanhecer. Como de costume, ele saiu com pés e tornozelos molhados, talvez limpo de seus pecados, anestesiado de seus pavores. Errou a direção e atravessou a rua. Mais uma vez, por um instante, cruzou com a filha, que não reconheceu. Havia à sua frente apenas uma imagem borrada de pedestres, mas nenhum som vinha deles. Ninguém que lhe mostrasse o caminho de volta ao lar que talvez não fosse seu. Reconhecer. Conhecer de novo. Quem o conhecia para querer vê-lo pela segunda vez? Desabou no chão e morreu, no exato momento em que fenecia também um outro fiapo de vida pouca – a única tristemente ligada à sua.
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