Dei "Ficções", do Borges, para um amigo em seu aniversário. Nesta semana, ele me disse "A verdade? Não gostei. Pareceu arrogante". Respondi "A verdade? Eu sabia que não gostaria quando comprei o livro".
Este é o problema fundamental em dar presentes: saber se devemos dar o que a pessoa vai gostar ou se devemos abrir uma janelinha na vida dela, para que veja algo que não veria sozinha. É como tirar algo da invisibilidade e fazê-lo existir no mundo de outra pessoa. Prefiro sempre esta opção.
E-MAIL PARA O AMIGO
Achei uma entrevista do Cortázar em que ele fala sobre escrever bem e escrever de verdade. Claro que, para mim, Borges escreve inacreditavelmente das duas maneiras. Mas compreendo quando as pessoas não se sentem tocadas mesmo com tal nível de refinamento estético. A verdade dele não é a sua verdade. Eu sei como é isso. Segue o texto. Um beijão
“Es muy fácil advertir que cada vez escribo menos bien, y ésa es precisamente mi manera de buscar un estilo. Algunos críticos han hablado de regresión lamentable, porque naturalmente el proceso tradicional es ir del escribir mal al escribir bien. Pero a mí me parece que entre nosotros el estilo es también un problema ético, una cuestión de decencia. ¡Es tan fácil escribir bien! ¿No deberíamos los argentinos (y esto no vale solamente para la literatura) retroceder primero, bajar primero, tocar lo más amargo, lo más repugnante, lo más obsceno, todo lo que una historia de espaldas al país nos escamoteó tanto tiempo a cambio de la ilusión de nuestra grandeza y nuestra cultura, y así, después de haber tocado fondo, ganarnos el derecho a remontar hacia nosotros mismos, a ser de verdad lo que tenemos que ser?” (Cortázar)
17 August 2007
16 August 2007
A vingança do museu
(Publicado no Direto da Redação: www.diretodaredacao.com)
Quarenta anos depois de Hélio Oiticica ter levado a mostra Nova Objetividade Brasileira ao Museu de Arte Moderna do Rio, voltei à cena do crime para ver exposição recém-chegada do circuito Chicago-Londres-Berlim-Nova York. Quando a Tropicália surgiu, eu era menos que um espermatozóide, menos que uma idéia maliciosa na cabeça dos meus pais. Ao longo da adolescência, fui montando um mosaico dos meus preferidos nas artes, sem saber que Ferreira Gullar, Zé Celso, Glauber Rocha e Caetano Veloso tinham qualquer relação entre si. Vieram as muitas explicações para o movimento. Engajamento, não engajamento, exotismo, liberação, brasilidade, estrangeirismo. A funcionária do MAM que nos recebeu, porém, parecia certa do que se tratava a Tropicália: "Sejam bem-vindos. Aqui é proibido proibir!"
Apesar de certa desconfiança sobre aquelas palavras mágicas, meu amigo e eu estávamos decididos a viver uma tarde catártica no MAM. Lá estava a primeira instalação a ser sentida. Um minuto após ter dito "É proibido proibir", a mesma mulher, vestida de preto da cabeça aos pés, volta a se manifestar "É proibido pisar de tênis nas pedrinhas". Ok, eu tiro o tênis. Seguimos caminho dentro da instalação, andando por palha e espuma. Sentamos num chão de terra para conversar. "Nossa, que bonito, nunca vi o museu sentada em chão de terra. Tão diferente". Quisemos tirar uma foto deste ângulo de visão. A funcionária volta: "É proibido tirar fotos". Protestamos: "Mas não é proibido proibir?" Ela responde que quem nos oprime é o museu, não a exposição.
Nesta altura, sentimos a necessidade de nos rebelar, de tocar fogo no museu, de pirar esses visitantes burocráticos, de fazer com que todos os funcionários vestidos de preto corressem atrás de nós. Afinal, estamos aqui para viver a Tropicália e "vocês não estão entendendo naaaaada". Seguimos viagem rumo ao segundo andar. Com fome, tiro da bolsa uma tangerina. Foi questão de segundos até que um robozinho viesse me dizer que era proibido comer. Deixa eu ver se entendi: eles podem expor duas araras numa gaiola e achar que isso é brasilidade; eu não posso comer um fruto da minha própria terra.
Em volta, aquelas obras com dizeres "Lute" e "Pense" só podiam ser provocação. Deixa para lá. Chegamos aos objetos sensoriais da Lygia Clark. Colocamos as luvas e começamos a mexer nas bolas. Criamos uma brincadeira de jogar para o outro bolas de diferentes pesos. Não estávamos atirando nas janelas. Apenas passando com mais rapidez para sentir as diferenças de textura e volume. Surge o carinha de preto: "É proibido jogar com as bolas. Vocês só podem tocá-las". Arghhhhhhhh. O mesmo veio dizer, logo depois, que estávamos andando no sentido errado da exposição. Ignoramos. Apesar das seguidas opressões, continuamos nosso trajeto como Alice no País das Maravilhas. Prestes a entrar em outra instalação, uma visitante repreende nossa distração rispidamente: "Isso aqui é uma fila!", referindo-se a ela mesma e à amiga. Calma, calma, não estamos no banco, você não está no seu horário de almoço tentando pagar a conta de luz.
Saímos da instalação de cara para a Roda dos Prazeres, da outra Lygia, a Pape. Pela primeira vez, demos de ombros, feito crianças tolidas e educadinhas, e não nos atiramos. Já estávamos quase no fim da exposição quando vi uma peça do Pedro Escosteguy: uma caixa com as portas fechadas pelos canos cruzados de duas armas. Claramente, era preciso abrir os dois canos e ver o que havia dentro: uma urna com o aviso "Vote". Ainda estava lendo o "Vote" quando percebi na minha lateral um dedo em riste. Mais uma funcionária de preto me apontando a faixa branca no chão e dizendo que era proibido abrir as portas da caixa. Expliquei que as idéias externas e internas da obra a completavam, uma não existia sem a outra. A mulher repetiu que era proibido e encerrou minha visita com a célebre frase: "O artista não se discute".
Meu amigo suspeitou que fizéssemos parte, sem saber, de alguma excursão turística para a Tropicália, coisa antiga e admirável como catedral adornada em ouro. Voltamos à contemplação divina da Idade Média. Ou fui enganada pelos neoconcretos, ou eles sofreram a mais terrível vingança do museu.
Quarenta anos depois de Hélio Oiticica ter levado a mostra Nova Objetividade Brasileira ao Museu de Arte Moderna do Rio, voltei à cena do crime para ver exposição recém-chegada do circuito Chicago-Londres-Berlim-Nova York. Quando a Tropicália surgiu, eu era menos que um espermatozóide, menos que uma idéia maliciosa na cabeça dos meus pais. Ao longo da adolescência, fui montando um mosaico dos meus preferidos nas artes, sem saber que Ferreira Gullar, Zé Celso, Glauber Rocha e Caetano Veloso tinham qualquer relação entre si. Vieram as muitas explicações para o movimento. Engajamento, não engajamento, exotismo, liberação, brasilidade, estrangeirismo. A funcionária do MAM que nos recebeu, porém, parecia certa do que se tratava a Tropicália: "Sejam bem-vindos. Aqui é proibido proibir!"
Apesar de certa desconfiança sobre aquelas palavras mágicas, meu amigo e eu estávamos decididos a viver uma tarde catártica no MAM. Lá estava a primeira instalação a ser sentida. Um minuto após ter dito "É proibido proibir", a mesma mulher, vestida de preto da cabeça aos pés, volta a se manifestar "É proibido pisar de tênis nas pedrinhas". Ok, eu tiro o tênis. Seguimos caminho dentro da instalação, andando por palha e espuma. Sentamos num chão de terra para conversar. "Nossa, que bonito, nunca vi o museu sentada em chão de terra. Tão diferente". Quisemos tirar uma foto deste ângulo de visão. A funcionária volta: "É proibido tirar fotos". Protestamos: "Mas não é proibido proibir?" Ela responde que quem nos oprime é o museu, não a exposição.
Nesta altura, sentimos a necessidade de nos rebelar, de tocar fogo no museu, de pirar esses visitantes burocráticos, de fazer com que todos os funcionários vestidos de preto corressem atrás de nós. Afinal, estamos aqui para viver a Tropicália e "vocês não estão entendendo naaaaada". Seguimos viagem rumo ao segundo andar. Com fome, tiro da bolsa uma tangerina. Foi questão de segundos até que um robozinho viesse me dizer que era proibido comer. Deixa eu ver se entendi: eles podem expor duas araras numa gaiola e achar que isso é brasilidade; eu não posso comer um fruto da minha própria terra.
Em volta, aquelas obras com dizeres "Lute" e "Pense" só podiam ser provocação. Deixa para lá. Chegamos aos objetos sensoriais da Lygia Clark. Colocamos as luvas e começamos a mexer nas bolas. Criamos uma brincadeira de jogar para o outro bolas de diferentes pesos. Não estávamos atirando nas janelas. Apenas passando com mais rapidez para sentir as diferenças de textura e volume. Surge o carinha de preto: "É proibido jogar com as bolas. Vocês só podem tocá-las". Arghhhhhhhh. O mesmo veio dizer, logo depois, que estávamos andando no sentido errado da exposição. Ignoramos. Apesar das seguidas opressões, continuamos nosso trajeto como Alice no País das Maravilhas. Prestes a entrar em outra instalação, uma visitante repreende nossa distração rispidamente: "Isso aqui é uma fila!", referindo-se a ela mesma e à amiga. Calma, calma, não estamos no banco, você não está no seu horário de almoço tentando pagar a conta de luz.
Saímos da instalação de cara para a Roda dos Prazeres, da outra Lygia, a Pape. Pela primeira vez, demos de ombros, feito crianças tolidas e educadinhas, e não nos atiramos. Já estávamos quase no fim da exposição quando vi uma peça do Pedro Escosteguy: uma caixa com as portas fechadas pelos canos cruzados de duas armas. Claramente, era preciso abrir os dois canos e ver o que havia dentro: uma urna com o aviso "Vote". Ainda estava lendo o "Vote" quando percebi na minha lateral um dedo em riste. Mais uma funcionária de preto me apontando a faixa branca no chão e dizendo que era proibido abrir as portas da caixa. Expliquei que as idéias externas e internas da obra a completavam, uma não existia sem a outra. A mulher repetiu que era proibido e encerrou minha visita com a célebre frase: "O artista não se discute".
Meu amigo suspeitou que fizéssemos parte, sem saber, de alguma excursão turística para a Tropicália, coisa antiga e admirável como catedral adornada em ouro. Voltamos à contemplação divina da Idade Média. Ou fui enganada pelos neoconcretos, ou eles sofreram a mais terrível vingança do museu.
15 August 2007
Tropicália sim
Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?
Vocês tem coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música, que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado.
É a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem!
Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada!
Hoje não tem Fernando Pessoa!
Eu hoje vim dizer aqui que quem teve coragem de assumir a estrutura do festival, não com o medo que o Sr. Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir esta estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu, não foi ninguém.
Foi Gilberto Gil e fui eu!
Vocês estão por fora! Vocês não dão para entender!
Mas que juventude é essa? (gritos)
Vocês jamais conterão ninguém!
Vocês são iguais sabe a quem?
(Tem som no microfone?)
Vocês são iguais sabe a quem?
Àqueles que foram a Roda Viva e espancaram os atores... Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada! E por falar nisso:
VIVA CACILDA BEKER!
VIVA CACILDA BEKER!
Eu tinha me comprometido em dar esse VIVA aqui, não tem nada a ver com vocês!
O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira!
O Maranhão apresentou esse ano uma música, com arranjo de charleston, sabem o que foi?
Foi a "Gabriela" do ano passado que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar, por ser americana.
Mas eu e o Gil já abrimos o caminho, o que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso!
Eu quero dizer ao júri : me desclassifique! Eu não tenho nada a ver com isso! Nada a ver com isso!
Gilberto Gil! Gilberto Gil está comigo para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil!
Acabar com tudo isso de uma vez!
Nós entramos em festival pra isso! Não é Gil?
Não fingimos, não fingimos, aqui, que desconhecemos o que seja festival não!
Ninguém nunca me ouviu falar assim! Sabe como é?
Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas, e vocês?
E vocês?
Se vocês... Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos!
Me desclassifiquem junto com o Gil!
Junto com ele, tá entendendo?
E quanto a vocês... (incompreensível).
O júri é muito simpático mas é incompetente.
DEUS ESTÁ SOLTO!
(Caê, no III Festival da Canção)
Vocês tem coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música, que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado.
É a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem!
Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada!
Hoje não tem Fernando Pessoa!
Eu hoje vim dizer aqui que quem teve coragem de assumir a estrutura do festival, não com o medo que o Sr. Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir esta estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu, não foi ninguém.
Foi Gilberto Gil e fui eu!
Vocês estão por fora! Vocês não dão para entender!
Mas que juventude é essa? (gritos)
Vocês jamais conterão ninguém!
Vocês são iguais sabe a quem?
(Tem som no microfone?)
Vocês são iguais sabe a quem?
Àqueles que foram a Roda Viva e espancaram os atores... Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada! E por falar nisso:
VIVA CACILDA BEKER!
VIVA CACILDA BEKER!
Eu tinha me comprometido em dar esse VIVA aqui, não tem nada a ver com vocês!
O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira!
O Maranhão apresentou esse ano uma música, com arranjo de charleston, sabem o que foi?
Foi a "Gabriela" do ano passado que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar, por ser americana.
Mas eu e o Gil já abrimos o caminho, o que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso!
Eu quero dizer ao júri : me desclassifique! Eu não tenho nada a ver com isso! Nada a ver com isso!
Gilberto Gil! Gilberto Gil está comigo para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil!
Acabar com tudo isso de uma vez!
Nós entramos em festival pra isso! Não é Gil?
Não fingimos, não fingimos, aqui, que desconhecemos o que seja festival não!
Ninguém nunca me ouviu falar assim! Sabe como é?
Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas, e vocês?
E vocês?
Se vocês... Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos!
Me desclassifiquem junto com o Gil!
Junto com ele, tá entendendo?
E quanto a vocês... (incompreensível).
O júri é muito simpático mas é incompetente.
DEUS ESTÁ SOLTO!
(Caê, no III Festival da Canção)
11 August 2007
04 August 2007
Acumulação primitiva de riquezas
O mundo inteiro cabia no meu quarto. Muitas pessoas também. Passávamos dias inteiros ouvindo música alta, escrevendo idéias atiradas na lixeira, tirando coisas do lugar, largando copos semi-cheios pelos cantos, esperando a hora de sair chegar, chegando para não sair mais, não mexa na caixa de pensamentos!, você tem um quarto rosa?, não é rosa, agora é lilás, a cor acalma, a girafa de madeira, os retratos de queridos, a lista de livros furtados e de ladrões, o anúncio do professor de tango Daniel Raphael, o cartão do restaurante peruano, o duende da minha avó, o copinho de tequila, o Marvin e sua hélice amarela, uma meia listrada atrás do monitor, a limpeza nos aproxima da divindade, eu não sou divina, meu quarto não é templo, eu preciso de outros quartos, este entupiu, é a acumulação primitiva de riquezas.
O mundo também coube dentro de uma mochila. Eu despachei cinco quilos de mundo pelo correio, de Manaus para o Rio.
O mundo também coube dentro de uma mochila. Eu despachei cinco quilos de mundo pelo correio, de Manaus para o Rio.
31 July 2007
À baiana
Já que citei o Wagner Moura no último post...
Folha - Na preparação da peça "A Máquina" [2000], você se mudou para o Recife para ensaiar e morou com o elenco e o diretor. Era uma disponibilidade total ao trabalho?
Moura - Total. Que época boa! Todo mundo amigo, todo mundo querendo fazer aquilo. Eu já estava num momento em que queria sair de Salvador, trabalhar com outras pessoas, ver como era o teatro em outros lugares. Outro dia estava me lembrando que, em 1996, eu e Vladimir [Brichta] fizemos uma peça com José Possi Neto, em Salvador. Eu estava quase desistindo de fazer teatro. Achava que ia ser jornalista mesmo, que o teatro não ia dar certo. Ele fez um teste para a peça e eu não quis fazer. Aí os atores da saíram, ele me chamou para ser testado. Fiz uma leitura. Ele gostou da leitura e disse: "Quero que você faça a minha peça". Eu saí correndo da escola de teatro até minha casa, na chuva. Outro dia fiquei com saudade dessa sensação que acho que perdi um pouco. A época d'A Máquina tinha um pouco isso. Tanto que, de vez em quando, vem essa idéia de voltar com "A Máquina". Eu sou sempre o cara que é contra, acho que nós não somos mais aqueles caras que fizeram aquela peça. A gente era aquele cara, queria conhecer o mundo, mostrar o mundo para a menina que amava. A peça hoje não ia ter mais sentido com esse elenco.
Folha - Na preparação da peça "A Máquina" [2000], você se mudou para o Recife para ensaiar e morou com o elenco e o diretor. Era uma disponibilidade total ao trabalho?
Moura - Total. Que época boa! Todo mundo amigo, todo mundo querendo fazer aquilo. Eu já estava num momento em que queria sair de Salvador, trabalhar com outras pessoas, ver como era o teatro em outros lugares. Outro dia estava me lembrando que, em 1996, eu e Vladimir [Brichta] fizemos uma peça com José Possi Neto, em Salvador. Eu estava quase desistindo de fazer teatro. Achava que ia ser jornalista mesmo, que o teatro não ia dar certo. Ele fez um teste para a peça e eu não quis fazer. Aí os atores da saíram, ele me chamou para ser testado. Fiz uma leitura. Ele gostou da leitura e disse: "Quero que você faça a minha peça". Eu saí correndo da escola de teatro até minha casa, na chuva. Outro dia fiquei com saudade dessa sensação que acho que perdi um pouco. A época d'A Máquina tinha um pouco isso. Tanto que, de vez em quando, vem essa idéia de voltar com "A Máquina". Eu sou sempre o cara que é contra, acho que nós não somos mais aqueles caras que fizeram aquela peça. A gente era aquele cara, queria conhecer o mundo, mostrar o mundo para a menina que amava. A peça hoje não ia ter mais sentido com esse elenco.
30 July 2007
O que você fez?
Vinte e quatro horas atrás, acordei pensando que estava com fome. Dormia no antigo quarto do meu irmão, que tem fama de assombrado, porque Carol estava no meu. Fui até a cozinha, minha mãe fazia frango. Confirmei a suspeita de que estava com fome pela estranha alegria em ver o frango.
Durante o almoço, lembro de ter pensado que ando comendo rápido demais. Costumo esperar imóvel todas as pessoas terminarem de mastigar. Fico inquieta pelo café. 'Posso pedir o café?': nunca pergunto, soaria grosseiro. Então, no domingo, foi assim também. E ao finalmente beber café, pensei como sempre que deveria diminuir as doses... Os dentes ficarão amarelos, o estômago esburacado, o sono agitado, a camisa manchada etc. Logo em seguida, entendi que o café é uma compensação para uma vida sem vícios. Eu poderia estar fumando, estar roendo rodapés, estar ouvindo Beyoncé. Só um golinho de café. Só.
Estranhamente, não tive vontade de ler o jornal. Quando isso acontece, passo a cantarolar internamente 'O sol nas bancas de revista, me enchem de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia? Eu vooooou'. Por um segundo, penso em minha vida se não fosse jornalista, se não estivesse fadada a ler notícias para sempre. Eu poderia então ser um pouco Cateano? Falar arrastado? Reparar no sol nas bancas de revista? Sim, eu poderia. No melhor dos sonhos.
Não tinha pressa. Se o mundo estivesse acabando, minha mãe avisaria. Pensei nisso e abri mão de ler a manchete. Nem a manchete, viu? Ela me ligou outro dia quando estava de plantão no hospital. Eram 11 da noite. Parecia uma chamada urgente. Contou, apressada, que um cara de 25 anos tinha morrido engasgado com um naco de carne. 'Mãe, o que você quer que eu faça?' Ela resmungou que era 'apenas um desabafo'.
Logo após o almoço, voltei a dormir. Muito frio. Dois cobertores e dois edredons. Eu tenho três pares de meia que revezo para jogar vôlei. Muito frio nos pés. Pensei que deveria comprar um daqueles pacotões de meia em uma loja popular. Apaguei em segundos.
Quando acordei, me perguntei automaticamente se já era noite. O céu estava nublado e não pude descobrir entre as frestas de persiana do antigo quarto assombrado do meu irmão. Ainda estava nele. Às vezes escolho dormir em outras partes da casa. Dá a sensação de viagem, porque você acorda sem saber direito onde está.
Fui até a cozinha, me preocupei em saber se o café na garrafa térmica era novo ou velho. Minha mãe gritou que era novo, mas ela sempre mente neste assunto. Eu bebi e não me pareceu de todo mal.
Chequei quinhentas vezes minhas diversas contas de e-mail e do orkut. Abri os sites dos jornais, mas fechei sem olhar. O sol quando bate nos sites dos jornais me enche de alegria e preguiça. Eu voooou. No MSN, surgiram uma e outra janelas com assuntos interessantes. Mas é chato escrever em um teclado emperrado e ter tudo mais emperrado na internet. Tipo as relações.
Foi quando minha mãe me chamou na sala para ver uma entrevista do Wagner Moura, constantemente interrompida por aquela bola que usa cinto apertado. O Faustão. Eu e minha mãe desejamos ao mesmo tempo e em voz alta que o Wagner Moura fizesse um monólogo, em close, naquele momento. Depois ela me ofereceu R$ 50 para gravar e editar a entrevista, excluindo todos os trechos em que o Faustão tecia comentários. Eu estava precisando dos R$ 50, mas preferi evitar a fadiga.
Depois de um tempo, resolvi catar tudo que estava fora do lugar no meu quarto. Descobri que a edição de junho da 'Revista de História' do Sergio estava entre meus papéis. Me senti feliz por ter furtado o exemplar sem intenção e, portanto, sem culpa. Agora sim poderei saber tudo sobre o 'desaparecimento do explorador inglês P.H. Fawcett no Xingu'. Sergio me convenceu de que isso era realmente importante e de que Fawcett era o Indiana Jones brasileiro. Ele gosta de traçar paralelos com ícones pops nas suas explicações.
Mas não li a revista. A esta altura, vocês sabem: me enche de alegria e preguiça. Li, despreocupadamente, alguns editais de mestrado e pensei em estudar... Estudar mesmo, estudar muito, estudar a base de café, estudar até saber. Minha mãe me chamou de novo. Ela me chama muito mesmo. 'Vem ver Carandiru'. Lembrei que li recentemente na Folha uma história sobre uma entusiasta do massacre que protestou contra a peça Salmo 91, em São Paulo.
Desde este dia, e especialmente quando reassisti ao filme, pensei em como alguém defenderia o massacre de 111 pessoas em um edifício fechado. Realmente... Sei lá. Ao longo da madrugada, sonhei que estava presa, que havia uma rebelião, que tentava identificar pessoas confiáveis no meio do tumulto. O presídio tinha janelas de vidro. Policiais gritavam comigo.
Na manhã seguinte, antes de sair, coloquei o jornal de domingo (intacto) em uma sacola plástica. 'Síndrome da informação', o Thiago me esclareceu quando cheguei na redação. Ele está juntando jornais há 25 dias. Em um quadro de desenvolvimento da doença, está pior do que eu.
Sergio passou o fim de semana em um festival de blues em Búzios e me perguntou o que eu havia feito no domingo. Respondi que 'nada', mal humorada, após ter enchido seus ouvidos com reclamações. Melhor teria sido dizer 'isso tudo'.
Durante o almoço, lembro de ter pensado que ando comendo rápido demais. Costumo esperar imóvel todas as pessoas terminarem de mastigar. Fico inquieta pelo café. 'Posso pedir o café?': nunca pergunto, soaria grosseiro. Então, no domingo, foi assim também. E ao finalmente beber café, pensei como sempre que deveria diminuir as doses... Os dentes ficarão amarelos, o estômago esburacado, o sono agitado, a camisa manchada etc. Logo em seguida, entendi que o café é uma compensação para uma vida sem vícios. Eu poderia estar fumando, estar roendo rodapés, estar ouvindo Beyoncé. Só um golinho de café. Só.
Estranhamente, não tive vontade de ler o jornal. Quando isso acontece, passo a cantarolar internamente 'O sol nas bancas de revista, me enchem de alegria e preguiça, quem lê tanta notícia? Eu vooooou'. Por um segundo, penso em minha vida se não fosse jornalista, se não estivesse fadada a ler notícias para sempre. Eu poderia então ser um pouco Cateano? Falar arrastado? Reparar no sol nas bancas de revista? Sim, eu poderia. No melhor dos sonhos.
Não tinha pressa. Se o mundo estivesse acabando, minha mãe avisaria. Pensei nisso e abri mão de ler a manchete. Nem a manchete, viu? Ela me ligou outro dia quando estava de plantão no hospital. Eram 11 da noite. Parecia uma chamada urgente. Contou, apressada, que um cara de 25 anos tinha morrido engasgado com um naco de carne. 'Mãe, o que você quer que eu faça?' Ela resmungou que era 'apenas um desabafo'.
Logo após o almoço, voltei a dormir. Muito frio. Dois cobertores e dois edredons. Eu tenho três pares de meia que revezo para jogar vôlei. Muito frio nos pés. Pensei que deveria comprar um daqueles pacotões de meia em uma loja popular. Apaguei em segundos.
Quando acordei, me perguntei automaticamente se já era noite. O céu estava nublado e não pude descobrir entre as frestas de persiana do antigo quarto assombrado do meu irmão. Ainda estava nele. Às vezes escolho dormir em outras partes da casa. Dá a sensação de viagem, porque você acorda sem saber direito onde está.
Fui até a cozinha, me preocupei em saber se o café na garrafa térmica era novo ou velho. Minha mãe gritou que era novo, mas ela sempre mente neste assunto. Eu bebi e não me pareceu de todo mal.
Chequei quinhentas vezes minhas diversas contas de e-mail e do orkut. Abri os sites dos jornais, mas fechei sem olhar. O sol quando bate nos sites dos jornais me enche de alegria e preguiça. Eu voooou. No MSN, surgiram uma e outra janelas com assuntos interessantes. Mas é chato escrever em um teclado emperrado e ter tudo mais emperrado na internet. Tipo as relações.
Foi quando minha mãe me chamou na sala para ver uma entrevista do Wagner Moura, constantemente interrompida por aquela bola que usa cinto apertado. O Faustão. Eu e minha mãe desejamos ao mesmo tempo e em voz alta que o Wagner Moura fizesse um monólogo, em close, naquele momento. Depois ela me ofereceu R$ 50 para gravar e editar a entrevista, excluindo todos os trechos em que o Faustão tecia comentários. Eu estava precisando dos R$ 50, mas preferi evitar a fadiga.
Depois de um tempo, resolvi catar tudo que estava fora do lugar no meu quarto. Descobri que a edição de junho da 'Revista de História' do Sergio estava entre meus papéis. Me senti feliz por ter furtado o exemplar sem intenção e, portanto, sem culpa. Agora sim poderei saber tudo sobre o 'desaparecimento do explorador inglês P.H. Fawcett no Xingu'. Sergio me convenceu de que isso era realmente importante e de que Fawcett era o Indiana Jones brasileiro. Ele gosta de traçar paralelos com ícones pops nas suas explicações.
Mas não li a revista. A esta altura, vocês sabem: me enche de alegria e preguiça. Li, despreocupadamente, alguns editais de mestrado e pensei em estudar... Estudar mesmo, estudar muito, estudar a base de café, estudar até saber. Minha mãe me chamou de novo. Ela me chama muito mesmo. 'Vem ver Carandiru'. Lembrei que li recentemente na Folha uma história sobre uma entusiasta do massacre que protestou contra a peça Salmo 91, em São Paulo.
Desde este dia, e especialmente quando reassisti ao filme, pensei em como alguém defenderia o massacre de 111 pessoas em um edifício fechado. Realmente... Sei lá. Ao longo da madrugada, sonhei que estava presa, que havia uma rebelião, que tentava identificar pessoas confiáveis no meio do tumulto. O presídio tinha janelas de vidro. Policiais gritavam comigo.
Na manhã seguinte, antes de sair, coloquei o jornal de domingo (intacto) em uma sacola plástica. 'Síndrome da informação', o Thiago me esclareceu quando cheguei na redação. Ele está juntando jornais há 25 dias. Em um quadro de desenvolvimento da doença, está pior do que eu.
Sergio passou o fim de semana em um festival de blues em Búzios e me perguntou o que eu havia feito no domingo. Respondi que 'nada', mal humorada, após ter enchido seus ouvidos com reclamações. Melhor teria sido dizer 'isso tudo'.
22 July 2007
Preciso de um teclado novo
PRECISO DE UM TECLADO NOVO.
As letras 'A' e 'M' estão há seis meses emperradas.
Me parece muito difícil resolver coisas práticas que tomariam cinco minutos.
Como entrar na loja da esquina, que vejo pelo menos duas vezes ao dia, e comprar um teclado novo.
As letras 'A' e 'M' estão há seis meses emperradas.
Me parece muito difícil resolver coisas práticas que tomariam cinco minutos.
Como entrar na loja da esquina, que vejo pelo menos duas vezes ao dia, e comprar um teclado novo.
18 July 2007
Homem com mochila
(YEHUDA AMICHAI)
Homem com mochila no mercado, Irmão,
Como você, sou homem burro, homem camelo,
Homem anjo. Sou como você.
Nossos braços são livres como asas.
Comparados conosco, todos os que carregam cestas
São escravos de escravos, sujeitos e humilhados.
Nós trocamos moedas por verduras frescas,
E para o esquecimento de nossas vidas compramos
Frutas e suas memórias, memória de campo e jardim,
Memória de cheiro da terra e do zumbir de abelhas em dia de calor.
Nós vimos uma mulher num vestido leve de verão
Antes de um amor longo e intenso,
Que determinará a sua vida. Ela não sabe ainda.
Nós sabemos. Em nossas costas
Carregamos o fruto da árvore da sabedoria.
Homem com mochila, você vive onde?
Eu sou como você, vivemos nas distâncias
Entre o prêmio e a punição.
E como nós vivemos? E quando à noite nós dormimos,
Em que sonhamos? Os que você ama,
Ainda vivem nos mesmos lugares?
Nossas mochilas, como pára-quedas fechados
Em nossas costas, abrem de noite
pra podermos saltar, e pairar
Sobre a fragrância de lembrar e de esquecer.
Homem com mochila no mercado, Irmão,
Como você, sou homem burro, homem camelo,
Homem anjo. Sou como você.
Nossos braços são livres como asas.
Comparados conosco, todos os que carregam cestas
São escravos de escravos, sujeitos e humilhados.
Nós trocamos moedas por verduras frescas,
E para o esquecimento de nossas vidas compramos
Frutas e suas memórias, memória de campo e jardim,
Memória de cheiro da terra e do zumbir de abelhas em dia de calor.
Nós vimos uma mulher num vestido leve de verão
Antes de um amor longo e intenso,
Que determinará a sua vida. Ela não sabe ainda.
Nós sabemos. Em nossas costas
Carregamos o fruto da árvore da sabedoria.
Homem com mochila, você vive onde?
Eu sou como você, vivemos nas distâncias
Entre o prêmio e a punição.
E como nós vivemos? E quando à noite nós dormimos,
Em que sonhamos? Os que você ama,
Ainda vivem nos mesmos lugares?
Nossas mochilas, como pára-quedas fechados
Em nossas costas, abrem de noite
pra podermos saltar, e pairar
Sobre a fragrância de lembrar e de esquecer.
24 June 2007
Atropelamentos
- Ela é um carro desgovernado.
- Um carro desgovernado descendo uma ladeira.
- Sem freios.
- É um carro desgovernado sem freios descendo uma ladeira a 300 quilômetros por hora.
- Com pneus carecas.
- E...
- Chega. Mais um complemento e eu atropelo vocês.
- Um carro desgovernado descendo uma ladeira.
- Sem freios.
- É um carro desgovernado sem freios descendo uma ladeira a 300 quilômetros por hora.
- Com pneus carecas.
- E...
- Chega. Mais um complemento e eu atropelo vocês.
20 June 2007
Para leer
La revista colombiana Semana publicó una selección de las 100 mejores novelas en castellano de los últimos 25 años, basada en una encuesta que hizo entre 81 expertos. Aquí va el resultado. El orden surge de los votos:
El amor en los tiempos del cólera
Gabriel García Márquez
La fiesta del Chivo
Mario Vargas Llosa
Los detectives salvajes
Roberto Bolaño
2666
Roberto Bolaño
Noticias del imperio
Fernando del Paso
Corazón tan blanco
Javier Marías
Bartleby y Compañía
Enrique Vila-Matas
Santa Evita
Tomás Eloy Martínez
Mañana en la batalla piensa en mí
Javier Marías
El desbarrancadero
Fernando Vallejo
La virgen de los sicarios
Fernando Vallejo
El entenado
Juan José Saer
Soldados de Salamina
Javier Cercas
Estrella distante
Roberto Bolaño
Paisaje después de la batalla
Juan Goytisolo
La ciudad de los prodigios
Eduardo Mendoza
El jinete polaco
Antonio Muñoz Molina
El testigo
Juan Villoro
Salón de belleza
Mario Bellatín
Cuando ya no importe
Juan Carlos Onetti
La tejedora de coronas
Germán Espinosa
El paraíso en la otra esquina
Mario Vargas Llosa
Cae la noche tropical
Manuel Puig
Doctor Pasavento
Enrique Vila-Matas
Herrumbrosas lanzas
Juan Benet
Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero.
Álvaro Mutis
El invierno en Lisboa.
Antonio Muñoz Molina
Verdes valles, colinas rojas.
Ramiro Pinilla
Mal de amores.
Ángeles Mastretta
Donde las mujeres.
Álvaro Pombo
El pasado.
Alan Pauls
El rastro.
Jorge Gómez Jiménez
Santo oficio de la memoria.
Mempo Giardinelli
Los años con Laura Díaz.
Carlos Fuentes
Plenilunio.
Antonio Muñoz Molina
Todas las almas.
Javier Marías
Cartas cruzadas.
Darío Jaramillo Agudelo
La casa del padre.
Justo Navarro
La visita en el tiempo.
Arturo Uslar Pietri
La historia de Horacio.
Tomás González
La grande.
Juan José Saer
El arte de la fuga.
Sergio Pitol
La velocidad de la luz.
Javier Cercas
Olvidado rey Gudu.
Ana María Matute
La gesta del marrano.
Marco Aguinis
Un viejo que leía novelas de amor.
Luis Sepúlveda
Plata quemada.
Ricardo Piglia
El vuelo de la reina.
Tomás Eloy Martínez
Diablo guardián.
Xavier Velasco
Igur Neblí.
Miquel de Palol
La nieve del almirante.
Álvaro Mutis
Vigilia del almirante.
Augusto Roa Bastos
Un campeón desparejo.
Adolfo Bioy Casares
Los pichiciegos.
Fogwill
La burla del tiempo.
Mauricio Electorat
Una novela china.
César Aira
El inútil de la familia.
Jorge Edwards
Lumperica.
Diamela Eltit
La otra mano de Lepanto.
Carmen Boullosa
En estado de memoria.
Tununa Mercado
Veinte años y un día.
Jorge Semprún
Ladrón de lunas.
Isaac Montero
La cuadratura del círculo.
Álvaro Pombo
No me esperen en abril.
Alfredo Bryce Echenique
Luna Caliente.
Mempo Giardinelli
Una sombra ya pronto serás.
Osvaldo Soriano
El cuarto mundo.
Diamela Eltit
La silla del Águila.
Carlos Fuentes
Temblor.
Rosa Montero
Historia del silencio.
Pedro Zarraluki
Los fantasmas.
César Aira
Angosta.
Héctor Abad Faciolince
La muerte como efecto secundario.
Ana María Shua
La orilla oscura.
José María Merino
La vida exagerada de Martín Romaña.
Alfredo Bryce Echenique
Sin remedio.
Antonio Caballero
El tiempo de las mujeres.
Ignacio Martínez de Pisón
Al morir Don Quijote.
Andrés Trapiello
Glosa.
Juan José Saer
Crónica de un iniciado.
Abelardo Castillo
El traductor.
Salvador Benesdra
Cumpleaños.
César Aira
La sexta lámpara.
Pablo de Santis
El embrujo de Shangai.
Juan Marsé
El maestro de esgrima.
Arturo Pérez Reverte
Carreteras secundarias.
Ignacio Martínez de Pisón
Rosario Tijeras.
Jorge Franco
La sombra del viento.
Carlos Ruiz Safón
Camino a la perdición.
Luis Mateo Díez
A sus plantas rendido un león.
Osvaldo Soriano
Memorias de mis putas tristes.
Gabriel García Márquez
Autómata.
Adolfo García Ortega
Del amor y otros demonios.
Gabriel García Márquez
Ella cantaba boleros.
Guillermo Cabrera Infante
La novela luminosa.
Mario Levrero
La guerra de Galio.
Héctor Aguilar Camín
Arráncame la vida.
Ángeles Mastreta
Arturo, la estrella más brillante.
Reinaldo Arenas
La orilla africana.
Rodrigo Rey Rosa
Los vigilantes.
Diamela Eltit
El amor en los tiempos del cólera
Gabriel García Márquez
La fiesta del Chivo
Mario Vargas Llosa
Los detectives salvajes
Roberto Bolaño
2666
Roberto Bolaño
Noticias del imperio
Fernando del Paso
Corazón tan blanco
Javier Marías
Bartleby y Compañía
Enrique Vila-Matas
Santa Evita
Tomás Eloy Martínez
Mañana en la batalla piensa en mí
Javier Marías
El desbarrancadero
Fernando Vallejo
La virgen de los sicarios
Fernando Vallejo
El entenado
Juan José Saer
Soldados de Salamina
Javier Cercas
Estrella distante
Roberto Bolaño
Paisaje después de la batalla
Juan Goytisolo
La ciudad de los prodigios
Eduardo Mendoza
El jinete polaco
Antonio Muñoz Molina
El testigo
Juan Villoro
Salón de belleza
Mario Bellatín
Cuando ya no importe
Juan Carlos Onetti
La tejedora de coronas
Germán Espinosa
El paraíso en la otra esquina
Mario Vargas Llosa
Cae la noche tropical
Manuel Puig
Doctor Pasavento
Enrique Vila-Matas
Herrumbrosas lanzas
Juan Benet
Empresas y tribulaciones de Maqroll el Gaviero.
Álvaro Mutis
El invierno en Lisboa.
Antonio Muñoz Molina
Verdes valles, colinas rojas.
Ramiro Pinilla
Mal de amores.
Ángeles Mastretta
Donde las mujeres.
Álvaro Pombo
El pasado.
Alan Pauls
El rastro.
Jorge Gómez Jiménez
Santo oficio de la memoria.
Mempo Giardinelli
Los años con Laura Díaz.
Carlos Fuentes
Plenilunio.
Antonio Muñoz Molina
Todas las almas.
Javier Marías
Cartas cruzadas.
Darío Jaramillo Agudelo
La casa del padre.
Justo Navarro
La visita en el tiempo.
Arturo Uslar Pietri
La historia de Horacio.
Tomás González
La grande.
Juan José Saer
El arte de la fuga.
Sergio Pitol
La velocidad de la luz.
Javier Cercas
Olvidado rey Gudu.
Ana María Matute
La gesta del marrano.
Marco Aguinis
Un viejo que leía novelas de amor.
Luis Sepúlveda
Plata quemada.
Ricardo Piglia
El vuelo de la reina.
Tomás Eloy Martínez
Diablo guardián.
Xavier Velasco
Igur Neblí.
Miquel de Palol
La nieve del almirante.
Álvaro Mutis
Vigilia del almirante.
Augusto Roa Bastos
Un campeón desparejo.
Adolfo Bioy Casares
Los pichiciegos.
Fogwill
La burla del tiempo.
Mauricio Electorat
Una novela china.
César Aira
El inútil de la familia.
Jorge Edwards
Lumperica.
Diamela Eltit
La otra mano de Lepanto.
Carmen Boullosa
En estado de memoria.
Tununa Mercado
Veinte años y un día.
Jorge Semprún
Ladrón de lunas.
Isaac Montero
La cuadratura del círculo.
Álvaro Pombo
No me esperen en abril.
Alfredo Bryce Echenique
Luna Caliente.
Mempo Giardinelli
Una sombra ya pronto serás.
Osvaldo Soriano
El cuarto mundo.
Diamela Eltit
La silla del Águila.
Carlos Fuentes
Temblor.
Rosa Montero
Historia del silencio.
Pedro Zarraluki
Los fantasmas.
César Aira
Angosta.
Héctor Abad Faciolince
La muerte como efecto secundario.
Ana María Shua
La orilla oscura.
José María Merino
La vida exagerada de Martín Romaña.
Alfredo Bryce Echenique
Sin remedio.
Antonio Caballero
El tiempo de las mujeres.
Ignacio Martínez de Pisón
Al morir Don Quijote.
Andrés Trapiello
Glosa.
Juan José Saer
Crónica de un iniciado.
Abelardo Castillo
El traductor.
Salvador Benesdra
Cumpleaños.
César Aira
La sexta lámpara.
Pablo de Santis
El embrujo de Shangai.
Juan Marsé
El maestro de esgrima.
Arturo Pérez Reverte
Carreteras secundarias.
Ignacio Martínez de Pisón
Rosario Tijeras.
Jorge Franco
La sombra del viento.
Carlos Ruiz Safón
Camino a la perdición.
Luis Mateo Díez
A sus plantas rendido un león.
Osvaldo Soriano
Memorias de mis putas tristes.
Gabriel García Márquez
Autómata.
Adolfo García Ortega
Del amor y otros demonios.
Gabriel García Márquez
Ella cantaba boleros.
Guillermo Cabrera Infante
La novela luminosa.
Mario Levrero
La guerra de Galio.
Héctor Aguilar Camín
Arráncame la vida.
Ángeles Mastreta
Arturo, la estrella más brillante.
Reinaldo Arenas
La orilla africana.
Rodrigo Rey Rosa
Los vigilantes.
Diamela Eltit
14 June 2007
O galope do sonho
"Eu gosto de contar histórias, mas, como não me acontecem muitas coisas, eu tenho que mentir. O escritor é um sujeito que não se conforma com o mundo do jeito que é, e por isso inventa outro".
Ariano Suassuna, (quase) 80 anos.
Ariano Suassuna, (quase) 80 anos.
08 June 2007
É pouco para Clarice
A história está no livro de entrevistas feitas pela Clarice Lispector para as revistas 'Fatos e Fotos: Gente' e 'Manchete'. Clarice fazia essas entrevistas para se sustentar. Ou como contou Sérgio Rodrigues, 'defender uns trocados'. Não tenho o livro e fiquei sabendo do caso por uma coluna do jornalista.
Foi assim: Clarice estava no Antonio's entrevistando José Carlos Oliveira, então cronista do JB. No lendário reduto da boemia, o clima era de certa hostilidade. Carlos então disse que 'fazer sucesso é chegar ao mais baixo do fracasso, é sem querer cortar a vida em dois e ver o sangue escorrer'. Era uma mensagem direta a Clarice e suas entrevistas que ficaram famosas nas revistras ultra-comerciais (como se o JB também não fosse).
Carlos: Falamos linguagem diversa, é verdade. Eu prefiro ser feliz a cortar a vida em dois.
Clarice: E eu prefiro tudo, entendeu? Não quero perder nada, não quero sequer a escolha.
Carlos: Você prefere inclusive ser uma grande escritora. Mas eu renunciei há muito tempo essa vaidade. Quero comer, beber, fazer amor e morrer. Não me considero responsável pela literatura.
Clarice: Nem eu, meu caro. E estou vendo a hora em que começaremos, dentro de toda a amizade, a brigar. Também posso lhe dizer que se viver é beber no Antônio's, isso é pouco para mim. Quero mais porque minha sede é maior que a sua.
('Clarice Lispector - Entrevistas', editora Rocco, 232 páginas, só custa R$ 29,00.)
Foi assim: Clarice estava no Antonio's entrevistando José Carlos Oliveira, então cronista do JB. No lendário reduto da boemia, o clima era de certa hostilidade. Carlos então disse que 'fazer sucesso é chegar ao mais baixo do fracasso, é sem querer cortar a vida em dois e ver o sangue escorrer'. Era uma mensagem direta a Clarice e suas entrevistas que ficaram famosas nas revistras ultra-comerciais (como se o JB também não fosse).
Carlos: Falamos linguagem diversa, é verdade. Eu prefiro ser feliz a cortar a vida em dois.
Clarice: E eu prefiro tudo, entendeu? Não quero perder nada, não quero sequer a escolha.
Carlos: Você prefere inclusive ser uma grande escritora. Mas eu renunciei há muito tempo essa vaidade. Quero comer, beber, fazer amor e morrer. Não me considero responsável pela literatura.
Clarice: Nem eu, meu caro. E estou vendo a hora em que começaremos, dentro de toda a amizade, a brigar. Também posso lhe dizer que se viver é beber no Antônio's, isso é pouco para mim. Quero mais porque minha sede é maior que a sua.
('Clarice Lispector - Entrevistas', editora Rocco, 232 páginas, só custa R$ 29,00.)
01 June 2007
30 May 2007
Dúvida: Brecht é manézão?
QUEM DEVERIA ESTAR TRABALHANDO 1: Brecht não combina com você. Na verdade, gosto do que ele escreveu, embora não acredite em uma palavra. Dizia-se comunista, mas fez de tudo para não viver na Alemanha Ocidental, alegando que queria se manter 'indepentende'. Tentou asilo político na Suíça. Que grande revolucionário pediria pra viver na Suíça?! É conhecido como desertor e contador de vantagens em rodas regadas a uísque em Nova York.
Blergh. Manézão.
Gostava muito de 'Aos que vierem depois de nós'(conhece?). Mas me soa falso hoje em dia.
QUEM DEVERIA ESTAR TRABALHANDO 2: Vamos parar de condenar as pessoas. Marx tinha dinheiro e abusava de sua empregada doméstica. É manézão por isso? Não li, mas o vejo sendo citado de formas bacanas. Ele também gostava do lado bom americano, tipo cinema, gângsters, jazz, boxe, isso na época em que o país era mais charmoso e não infestado de gordos. Li isso no Lobo da Estepe.
Blergh. Manézão.
Gostava muito de 'Aos que vierem depois de nós'(conhece?). Mas me soa falso hoje em dia.
QUEM DEVERIA ESTAR TRABALHANDO 2: Vamos parar de condenar as pessoas. Marx tinha dinheiro e abusava de sua empregada doméstica. É manézão por isso? Não li, mas o vejo sendo citado de formas bacanas. Ele também gostava do lado bom americano, tipo cinema, gângsters, jazz, boxe, isso na época em que o país era mais charmoso e não infestado de gordos. Li isso no Lobo da Estepe.
29 May 2007
O que sobrou?
A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção. O que não temos, ou não ousamos, ou não conseguimos, podemos possuí-lo em sonho, e é com esse sonho que fazemos arte. Outras vezes a emoção é a tal ponto forte que, embora reduzida à acção, a acção, a que se reduziu, não a satisfaz; com a emoção que sobra, que ficou inexpressa na vida, se forma a obra de arte. Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa, minha leitura intermitente.
Livro do Desassossego, Fernando Pessoa, minha leitura intermitente.
13 May 2007
Jogar búzios para a reportagem
No Itaim, idosa colecionava lixo em casa
Espanhola de 80 anos diz ter recolhido todo tipo de entulho durante 18 anos e guardado; ela e o filho foram detidos
Após 16h de trabalhos, prefeitura retirou mais de 20 caminhões de resíduos; por falta de espaço, dona dormia num Fiat 147
PAULO SAMPAIO
DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA
Um gari equipado com máscara antigases sai da casa da espanhola Maria Violeta Rodriguez, 80, dizendo que é impossível ficar muito tempo lá dentro. Violeta ficou 18 anos. Esse é o tempo que ela teria gasto para acumular mais de 20 caminhões de lixo: os garis só conseguiram chegar à sala-de-estar depois de cerca de oito horas de limpeza, segundo a Vigilância Sanitária.
"A princípio, tínhamos uma fresta de apenas 20 cm de largura para entrar na casa", explica Maria Alice Ferreira, chefe da unidade de varrição pública. Segundo a vizinhança, Violeta costumava sair de casa à noite, sempre por volta das 22h, para explorar as latas de lixo do bairro, o Itaim Bibi, na Zona Oeste. Voltava com restos de comida, garrafas vazias, quadros sem molduras, panos velhos e até pólvora; o produto da coleta era entulhado pelos cômodos da casa.
Por falta de espaço, Violeta dormia em um Fiat 147 verde-metálico, ano 1980, de propriedade do filho. Os vizinhos já haviam reclamado do forte odor para a Vigilância Sanitária, mas, dizem, nunca se tomou nenhuma providência. "Cansamos de denunciar, mas ninguém fazia nada. Há uns 15 anos convivemos com esse mau cheiro", afirma a doceira Iolanda Machado Leite, que mora ao lado.
No domingo, depois de cinco dias sem ver Violeta e temendo que ela estivesse morta, uma moradora deu queixa à polícia. "Eu não delatei ninguém", nega a taróloga Celene Wali, propondo jogar búzios para a reportagem. "Foi ela sim!", afirmam alguns vizinhos.
A delegada Maria Aparecida Resende Corsato, do 15º DP, diz que a invasão da casa é legítima, já que o odor no local punha em risco a saúde da comunidade. "O interesse privado não pode estar acima do público", afirma Aparecida, que recomendou aos repórteres jogar os sapatos fora, para evitar contaminação, e declarou que iria às lojas Marisa comprar "um moletom baratinho para vestir".
Quando a polícia entrou no local, Violeta estava na casa do filho, no Guarujá. Ela soube da invasão por uma neta que ouviu a notícia no rádio. Como a senhora se sentiu?
"Não estou entendendo nada, imagina. Isso é crime, vou processar", repete, indignada, Violeta, que foi detida junto com o filho, o mecânico Juan Maurício Salgado, 40, dono das cinco carcaças de motos encontradas no local.
"Eu ia fazer uma arrumação esta semana e jogar fora o que não prestasse", garante Violeta. Muito nervoso, caminhando de um lado para o outro, Salgado se descontrola tentando justificar o entulho. "Mamãe é assim, não tem o que dizer. O que vocês querem que eu faça?" Violeta, que guardava em casa ainda as escrituras de 16 imóveis, afirma que vasculhava o lixo porque às vezes não tinha dinheiro para comer.
"O IPTU está caríssimo", queixa-se ela, que guardava também cerca de 25 mil pesetas, moeda espanhola fora de circulação.
Segundo a delegada, Violeta e o filho já têm passagem pela polícia por pequenos furtos. Eles serão indiciados por crime contra a saúde pública, exposição da vida alheia a perigo iminente e posse de artefato explosivo."Pensando bem, a senhora vai ser presa!", resolve a delegada, depois de folhear o código penal e descobrir que guardar explosivos em casa dá cadeia. Violeta examina Aparecida com expressão de pouco caso e bufa. "Mierda!"
"Mamãe nem sabe o que é isso [pólvora]. Ela catava qualquer coisa", diz Salgado. A delegada acaba voltando atrás. A senhora não tinha medo de dormir com ratos (que, de acordo com a varrição, tinham tamanho de gatos)?
"Não tenho medo de nada". E de ser presa?
"O quê!?"
***
É uma matéria de meados do ano passado. Lembrei por acaso durante este plantão de domingo. E isso me animou! Jogar búzios para a reportagem seria ótemo agora.
Espanhola de 80 anos diz ter recolhido todo tipo de entulho durante 18 anos e guardado; ela e o filho foram detidos
Após 16h de trabalhos, prefeitura retirou mais de 20 caminhões de resíduos; por falta de espaço, dona dormia num Fiat 147
PAULO SAMPAIO
DA REPORTAGEM LOCAL - FOLHA
Um gari equipado com máscara antigases sai da casa da espanhola Maria Violeta Rodriguez, 80, dizendo que é impossível ficar muito tempo lá dentro. Violeta ficou 18 anos. Esse é o tempo que ela teria gasto para acumular mais de 20 caminhões de lixo: os garis só conseguiram chegar à sala-de-estar depois de cerca de oito horas de limpeza, segundo a Vigilância Sanitária.
"A princípio, tínhamos uma fresta de apenas 20 cm de largura para entrar na casa", explica Maria Alice Ferreira, chefe da unidade de varrição pública. Segundo a vizinhança, Violeta costumava sair de casa à noite, sempre por volta das 22h, para explorar as latas de lixo do bairro, o Itaim Bibi, na Zona Oeste. Voltava com restos de comida, garrafas vazias, quadros sem molduras, panos velhos e até pólvora; o produto da coleta era entulhado pelos cômodos da casa.
Por falta de espaço, Violeta dormia em um Fiat 147 verde-metálico, ano 1980, de propriedade do filho. Os vizinhos já haviam reclamado do forte odor para a Vigilância Sanitária, mas, dizem, nunca se tomou nenhuma providência. "Cansamos de denunciar, mas ninguém fazia nada. Há uns 15 anos convivemos com esse mau cheiro", afirma a doceira Iolanda Machado Leite, que mora ao lado.
No domingo, depois de cinco dias sem ver Violeta e temendo que ela estivesse morta, uma moradora deu queixa à polícia. "Eu não delatei ninguém", nega a taróloga Celene Wali, propondo jogar búzios para a reportagem. "Foi ela sim!", afirmam alguns vizinhos.
A delegada Maria Aparecida Resende Corsato, do 15º DP, diz que a invasão da casa é legítima, já que o odor no local punha em risco a saúde da comunidade. "O interesse privado não pode estar acima do público", afirma Aparecida, que recomendou aos repórteres jogar os sapatos fora, para evitar contaminação, e declarou que iria às lojas Marisa comprar "um moletom baratinho para vestir".
Quando a polícia entrou no local, Violeta estava na casa do filho, no Guarujá. Ela soube da invasão por uma neta que ouviu a notícia no rádio. Como a senhora se sentiu?
"Não estou entendendo nada, imagina. Isso é crime, vou processar", repete, indignada, Violeta, que foi detida junto com o filho, o mecânico Juan Maurício Salgado, 40, dono das cinco carcaças de motos encontradas no local.
"Eu ia fazer uma arrumação esta semana e jogar fora o que não prestasse", garante Violeta. Muito nervoso, caminhando de um lado para o outro, Salgado se descontrola tentando justificar o entulho. "Mamãe é assim, não tem o que dizer. O que vocês querem que eu faça?" Violeta, que guardava em casa ainda as escrituras de 16 imóveis, afirma que vasculhava o lixo porque às vezes não tinha dinheiro para comer.
"O IPTU está caríssimo", queixa-se ela, que guardava também cerca de 25 mil pesetas, moeda espanhola fora de circulação.
Segundo a delegada, Violeta e o filho já têm passagem pela polícia por pequenos furtos. Eles serão indiciados por crime contra a saúde pública, exposição da vida alheia a perigo iminente e posse de artefato explosivo."Pensando bem, a senhora vai ser presa!", resolve a delegada, depois de folhear o código penal e descobrir que guardar explosivos em casa dá cadeia. Violeta examina Aparecida com expressão de pouco caso e bufa. "Mierda!"
"Mamãe nem sabe o que é isso [pólvora]. Ela catava qualquer coisa", diz Salgado. A delegada acaba voltando atrás. A senhora não tinha medo de dormir com ratos (que, de acordo com a varrição, tinham tamanho de gatos)?
"Não tenho medo de nada". E de ser presa?
"O quê!?"
***
É uma matéria de meados do ano passado. Lembrei por acaso durante este plantão de domingo. E isso me animou! Jogar búzios para a reportagem seria ótemo agora.
Coisas não-jornalísticas
Fim de fase. Números numa agenda de telefone experiente com medo do futuro, caráter dos compadres, mesas de bar distintas, culpados descrevendo guerras, o cativeiro e a janela estilhaçada, mais conhecidos, mais conhecidos, mais conhecidos, sempre soube que nublava quando alguém bom morria lá, maré, ito, negativos que magoam, a preocupação com uma, chaves para aqueles papéis, secretários, loucos, hipócritas, os que não fazem parte disso, cobrança dos inseguros, sono, baleados na bunda, boca pequena, nomes, o pulmão ardendo acima do mar de biles, medo de errar com tantos, falhas e ambições dos ordiários, realização, incompetência, coquetéis, chamadas mesquinhas, exageros, novo covil ou um castelo, quanto mais eu conheço as pessoas, mais eu gosto do meu cachorro.
Do meu companheiro Cigarro, quando eu sou o Café. Plantão de domingo dá um sooooooono... Sorte que Duran escreve coisas não-jornalísticas.
Do meu companheiro Cigarro, quando eu sou o Café. Plantão de domingo dá um sooooooono... Sorte que Duran escreve coisas não-jornalísticas.
05 May 2007
A Idade da Razão
"Ando. Vou-me embora, passeio, erro, erro à vontade: férias de universitário, por onde ando levo a concha comigo, fico em casa, no meu quarto, entre meus livros, não me aproximo um centímetro sequer de Marrakech ou de Tombuctu. Mesmo se eu tomasse o trem e chegasse de repente em Marrakech ainda estaria no meu quarto, ainda estaria em casa. Se fosse passear nas praças, se abraçasse um árabe para através dele tocar em Marrakech, ele estaria em Marrakech, eu não. Eu estaria sempre sentado no meu quarto, tranqüilo e pensativo como escolhi ser, a três mil quilômetros do marroquino e de seu turbante. Em meu quarto. Para sempre."
(A Idade da Razão, Pg. 227, Jean-Paul Sartre)
P.S. Vanguarda é escrever em 1945 realidades e devaneios que são de 2007.
(A Idade da Razão, Pg. 227, Jean-Paul Sartre)
P.S. Vanguarda é escrever em 1945 realidades e devaneios que são de 2007.
27 April 2007
O cansaço quando vem
O cansaço de todas as ilusões e de tudo que há nas ilusões - a perda delas, a inutilidade de as ter, o antecansaço de ter que as ter para perdê-las, a mágoa de as ter tido, a vergonha intelectual de as ter tido sabendo que teriam tal fim.
Bernardo Soares/ Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego.
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