No dia em que conheci Gervásio, o caminhoneiro aposentado de 12 dedos, duas pessoas que não se conhecem me disseram, em contextos diferentes, a mesma frase: "A gente já nasce morrendo". Sexta-feira de acontecimentos bizarros. Pensei nisso no ponto de ônibus da Praça da Cruz Vermelha (que o Alvinho um dia definiu como "linda, pois é redonda"). Olhei o prédio do Inca, os muitos buracos do asfalto e a praça (um velhinho de mais de 80 anos foi preso uma vez ali, onde vendia cocaína. Ele era manco e carregava as drogas numa sacola). O ponto de ônibus fica abrigado debaixo de uma marquise improvisada com pedaços de madeira. Está prestes a cair há pelo menos um ano. Muitas crianças de chapéu esperam seu ônibus ali. Elas têm câncer.
* * * * * * * * * *
Faltam quatro dias para o fim do ano e não sinto que tenha tanto a dizer. Charles Chaplin, que morreu no Natal de 1977, fazia cinema-mudo porque as palavras pareciam "fúteis, imprecisas". Gostaria também de fazer jornalismo-mudo, dedicatórias-mudas em livros, declarações-mudas de amor, desejos-mudos de feliz ano novo.
Sem mais.
27 December 2007
22 December 2007
21 December 2007
Gervásio
Acordo poucas horas depois de dormir. A semana foi cruel. Melhor, o ano. Na noite anterior, havia recebido uma ligação urgente da redação e uma ordem ingrata: que chegasse às 6h30 no dia seguinte para tomar café-da-manhã com o governador num bandejão popular na Central do Brasil. Chovia. Tinha sono. Todas as roupas me pareciam armaduras de tão pesadas e incômodas. Maldisse o momento em que escolhi a profissão. Falei disso na breve caminhada que fiz com Rômulo, de sua casa ao ponto-de-ônibus. A partir dali, ficaríamos mais 10 dias sem nos ver. Ele estaria em Fortaleza. Quando vi sua imagem desaparecendo, percebi que burrice era tocar nesse assunto naquele momento. Estava com saudade.
Chego na redação. Vazia. Espero algum tempo até o fotógrafo aparecer. Desembarcamos do carro na Central: tudo em volta é abandono e miséria. Um homem que passa por nós fala sozinho: "Jesus Cristo nunca passou por aqui". Até os cachorros são mais deprimentes, arrastam-se e resmungam. Velhinhos raquíticos e doentes se acomodam por horas em cadeiras plásticas à espera do almoço. Chega o governador, secretários, deputados e a claque. O evento todo dura menos de 20 minutos. Todos se recusam a comer o lanche servido dentro de sacos plásticos. E saem porta afora.
Eu deveria ter entrado no trem que o governador viajaria até São Cristóvão. Perdi a saída quando me distraí com uns velhinhos que denunciavam que ele não havia tocado na comida. Tentaram lhe entregar a trouxinha, alertaram funcionários. Por fim, repartiram entre si mais uma ração alimentar. Em segundos, havia me integrado ao grupo. Já sabia que uma senhora de 78 anos, moradora de Irajá, acordava às 4h todos os dias, há sete anos, para almoçar por R$ 1 no bandejão. Com a freqüência, fez os amigos que não tinha na vida (o marido morreu há 18 anos e a deixou sem filhos). Havia até uma espécie de líder comunitário do restaurante popular, que pleiteava para si o dever de brigar por causas comuns, como a manutenção do bebedouro.
Um negro alto de 74 anos, com aparência de 50, filho de angolanos, nascido com 12 dedos (assim como os filhos), todos os dentes originais, viúvo, morador da Cidade de Deus, caminhoneiro aposentado, compositor de sambas, rei dos malandros. Gervásio é uma fábrica de frases de impacto.
- Meu antigo celular está com a desdentada.
- Que desdentada?
- Se não colocar um vulgo na nega, ela não atende. Branquinha assim como você fica toda-toda de ser chamada de crioula. Nem que seja por um verão.
Se tem algo que não aprecia na vida é mulher com pé rachado e cheiro de arroz queimado. Gervásio melhorou meu dia. E até me fez escrever de novo.
[Por curto tempo. Agora volto à matéria do governador.]
Chego na redação. Vazia. Espero algum tempo até o fotógrafo aparecer. Desembarcamos do carro na Central: tudo em volta é abandono e miséria. Um homem que passa por nós fala sozinho: "Jesus Cristo nunca passou por aqui". Até os cachorros são mais deprimentes, arrastam-se e resmungam. Velhinhos raquíticos e doentes se acomodam por horas em cadeiras plásticas à espera do almoço. Chega o governador, secretários, deputados e a claque. O evento todo dura menos de 20 minutos. Todos se recusam a comer o lanche servido dentro de sacos plásticos. E saem porta afora.
Eu deveria ter entrado no trem que o governador viajaria até São Cristóvão. Perdi a saída quando me distraí com uns velhinhos que denunciavam que ele não havia tocado na comida. Tentaram lhe entregar a trouxinha, alertaram funcionários. Por fim, repartiram entre si mais uma ração alimentar. Em segundos, havia me integrado ao grupo. Já sabia que uma senhora de 78 anos, moradora de Irajá, acordava às 4h todos os dias, há sete anos, para almoçar por R$ 1 no bandejão. Com a freqüência, fez os amigos que não tinha na vida (o marido morreu há 18 anos e a deixou sem filhos). Havia até uma espécie de líder comunitário do restaurante popular, que pleiteava para si o dever de brigar por causas comuns, como a manutenção do bebedouro.
Um negro alto de 74 anos, com aparência de 50, filho de angolanos, nascido com 12 dedos (assim como os filhos), todos os dentes originais, viúvo, morador da Cidade de Deus, caminhoneiro aposentado, compositor de sambas, rei dos malandros. Gervásio é uma fábrica de frases de impacto.
- Meu antigo celular está com a desdentada.
- Que desdentada?
- Se não colocar um vulgo na nega, ela não atende. Branquinha assim como você fica toda-toda de ser chamada de crioula. Nem que seja por um verão.
Se tem algo que não aprecia na vida é mulher com pé rachado e cheiro de arroz queimado. Gervásio melhorou meu dia. E até me fez escrever de novo.
[Por curto tempo. Agora volto à matéria do governador.]
17 December 2007
Caravana
10 December 2007
Melhor da semana
Não-poema pessoal e intransferível
1.
Nem todo mundo
dá num poema
meu
ou de qualquer outra pessoa.
2.
Ele - o poema -
salta, corre, dança
tentando te ser,
mas não alcança:
me foge.
Ele - não este -
pensa, fabula, conspira
e, tentando te ser,
irrompe em fala.
Mas fala pouco,
fala sem ênfase:
e não te serve.
3.
Aqui, a busca pára
e o poema não aparece.
Entrego: não tenho a técnica para fazê-lo.
Mas sei bem
que ele existe, mesmo
sem ser encontrado,
anti-estético, em mim.
4.
Então, este - o não-poema - se faz
no inconcluso.
Se faz pouco,
e tampouco te diz ou te digniza,
mas, teu,
é o que pude
com tempo estreito
e largo carinho,
Lia.
P.S. O poeta do meu tempo: Rodolfo Gomes.
Visitem em http://e-musicafalada.blogspot.com/
1.
Nem todo mundo
dá num poema
meu
ou de qualquer outra pessoa.
2.
Ele - o poema -
salta, corre, dança
tentando te ser,
mas não alcança:
me foge.
Ele - não este -
pensa, fabula, conspira
e, tentando te ser,
irrompe em fala.
Mas fala pouco,
fala sem ênfase:
e não te serve.
3.
Aqui, a busca pára
e o poema não aparece.
Entrego: não tenho a técnica para fazê-lo.
Mas sei bem
que ele existe, mesmo
sem ser encontrado,
anti-estético, em mim.
4.
Então, este - o não-poema - se faz
no inconcluso.
Se faz pouco,
e tampouco te diz ou te digniza,
mas, teu,
é o que pude
com tempo estreito
e largo carinho,
Lia.
P.S. O poeta do meu tempo: Rodolfo Gomes.
Visitem em http://e-musicafalada.blogspot.com/
02 November 2007
Torna-te quem tu és
A caretice me comove. Como me comovem o sol e a chuva na rua, e todas as pessoas que nela trabalham. E alternam capas plásticas, guarda-chuvas, galochas, mãos em forma de abano, mãos em forma de sombrero na testa. Comovem os mosquitos que perseguem e lastimam minhas pernas. Estas, como todo o corpo, resistem. No pasarán. Os olhos ignoram as picadas que formam pequeninos pontos de sangue coagulado. As mãos, quando não são abanos ou sombreros, tratam de coçá-las, às vezes discretamente, às vezes como quem tira diamente da pedra. Me comovem todos os reflexos de olheiras, de despenteios, de desarranjos visuais. E o corpo a se arrastar de bairro a bairro, de enchete a queimada, de linguajar callejero a lições de francês. Me comovem todas as contradições e ironias da rotina. A comoção anestesia e vicia, mas não entorpece. Por entre os fiapos da lucidez, lá vejo o mundo como é. Trágico e cômico como sempre foi. E eu, de comicidade insultante, de tempestades risíveis... Eu me comovo por ter escolhido estar aqui.
28 October 2007
Nomes de favela

O galo já não canta mais no Cantagalo
A água já não corre mais na Cachoeirinha
Menino não pega mais manga na Mangueira
E agora que cidade grande é a Rocinha!
Ninguém faz mais jura de amor no Juramento
Ninguém vai-se embora do Morro do Adeus
Prazer se acabou lá no Morro dos Prazeres
E a vida é um inferno na Cidade de Deus
Não sou do tempo das armas
Por isso ainda prefiro
Ouvir um verso de samba
Do que escutar som de tiro
Pela poesia dos nomes de favela
A vida por lá já foi mais bela
Já foi bem melhor de se morar
Mas hoje essa mesma poesia pede ajuda
Ou lá na favela a vida muda
Ou todos os nomes vão mudar
.
.
Nomes de favela, Paulo César Pinheiro.
Foto do Severino Silva, mestre dos mestres, companheiro de trabalho.
29 September 2007
Surrealismo é...
"... a surpresa mágica de encontrar um leão num guarda-roupas, onde tínhamos a certeza que encontraríamos camisas".
Frida Kahlo (Quem é vivo sempre aparece. Em lembranças)
Frida Kahlo (Quem é vivo sempre aparece. Em lembranças)
15 September 2007
Meus personagens não têm certezas
Pós-modernismo (verbete): experiências e imagens chãs, unidimensionais, desconexas e fragmentadas, porém entremeadas por momentos de intensidade eufórica.
.
.
'A juventude está perdida e, como fica claro, tem uma vida completamente desfragmentada e desconexa, passando de uma atividade à outra em meio a mediações em grande parte casuais. Ninguém parece ter planos ou projetos de longo prazo, e todos dão a impressão de só viverem o momento, vagando pela vida como num sonho sem sonhador.
No entanto, as personagens vão passando pela cena, e, à medida que algumas delas saem e outra entram, temos a percepção de uma espécie de comunidade slacker cujos integrantes estão interligados, ainda que de maneira efêmera e mínima. Contudo, a comunidade é constituída por vagabundos nômades, vínculos acidentais, vaivéns não estruturados e por uma visão segundo a qual a vida é constituída por momentos desconexos de intensidade eufórica, intercalados por períodos de banalidade e falta de sentido'.
.
.
'A juventude está perdida e, como fica claro, tem uma vida completamente desfragmentada e desconexa, passando de uma atividade à outra em meio a mediações em grande parte casuais. Ninguém parece ter planos ou projetos de longo prazo, e todos dão a impressão de só viverem o momento, vagando pela vida como num sonho sem sonhador.
No entanto, as personagens vão passando pela cena, e, à medida que algumas delas saem e outra entram, temos a percepção de uma espécie de comunidade slacker cujos integrantes estão interligados, ainda que de maneira efêmera e mínima. Contudo, a comunidade é constituída por vagabundos nômades, vínculos acidentais, vaivéns não estruturados e por uma visão segundo a qual a vida é constituída por momentos desconexos de intensidade eufórica, intercalados por períodos de banalidade e falta de sentido'.
13 September 2007
O físico mais legal do universo
Amor
pode ser apenas uma palavra, e foi
mas por incerteza semântica
e medo de força desconhecida
foi menos que palavra
foi palavra nem dita
mas agora de repente se faz, e é
pela certeza do des-significado
e por ser força infinita
é mais que uma palavra
é uma poesia
(Diogo Fransozi)
Como eu ia dizendo, o físico mais legal do universo é meu amigo. E escreve boas poesias. Feliz aniversário!
pode ser apenas uma palavra, e foi
mas por incerteza semântica
e medo de força desconhecida
foi menos que palavra
foi palavra nem dita
mas agora de repente se faz, e é
pela certeza do des-significado
e por ser força infinita
é mais que uma palavra
é uma poesia
(Diogo Fransozi)
Como eu ia dizendo, o físico mais legal do universo é meu amigo. E escreve boas poesias. Feliz aniversário!
10 September 2007
À minha mãe
Você é mais bonita que uma bola prateada
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana
Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana
(Do Ferreira Gullar)
de papel de cigarro
Você é mais bonita que uma poça dágua
límpida
num lugar escondido
Você é mais bonita que uma zebra
que um filhote de onça
que um Boeing 707 em pleno ar
Você é mais bonita que um jardim florido
em frente ao mar em Ipanema
Você é mais bonita que uma refinaria da Petrobrás
de noite
mais bonita que Ursula Andress
que o Palácio da Alvorada
mais bonita que a alvorada
que o mar azul-safira
da República Dominicana
Olha,
você é tão bonita quanto o Rio de Janeiro
em maio
e quase tão bonita
quanto a Revolução Cubana
(Do Ferreira Gullar)
09 September 2007
A vida bate (na cara)
AS FLORES TÊM O PERFUME QUE A TERRA LHES DÁ SEM SER PERFUMADA. ASSIM, TAMBÉM NÓS DEVEMOS DAR A NOSSOS ATOS AQUILO QUE NÃO TRAZEMOS EM NÓS, MAS DE QUE SOMOS REALMENTE CAPAZES, E QUE NÃO MORRERÁ COM NOSSA MORTE.
CAMPOS DE CARVALHO
.
.
Achei na minha caixa de pensamentos.
.
.
OUVINDO: Tempos idos, Cartola.
CAMPOS DE CARVALHO
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Achei na minha caixa de pensamentos.
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OUVINDO: Tempos idos, Cartola.
08 September 2007
Voar
Eu sou a quietude do que voa.
Embora faça tanto barulho ao bater asas.
Eu e eu mesma nos encontramos, nos redimimos, nos perdoamos - quando voamos.
Embora faça tanto barulho ao bater asas.
Eu e eu mesma nos encontramos, nos redimimos, nos perdoamos - quando voamos.
05 September 2007
Their finest art

The Genius of the Crowd
(Charles Bukowski)
there is enough treachery, hatred violence absurdity in the average
human being to supply any given army on any given day
and the best at murder are those who preach against it
and the best at hate are those who preach love
and the best at war finally are those who preach peace
those who preach god, need god
those who preach peace do not have peace
those who preach peace do not have love
beware the preachers
beware the knowers
beware those who are always reading books
beware those who either detest poverty
or are proud of it
beware those quick to praise
for they need praise in return
beware those who are quick to censor
they are afraid of what they do not know
beware those who seek constant crowds for
they are nothing alone
beware the average man the average woman
beware their love, their love is average
seeks average
but there is genius in their hatred
there is enough genius in their hatred to kill you
to kill anybody
not wanting solitude
not understanding solitude
they will attempt to destroy anything
that differs from their own
not being able to create art
they will not understand art
they will consider their failure as creators
only as a failure of the world
not being able to love fully
they will believe your love incomplete
and then they will hate you
and their hatred will be perfect
like a shining diamond
like a knife
like a mountain
like a tiger
like hemlock
their finest art
Estilingue e diário

A mãe lhe dizia para não mexer na sacola. O moleque continuou até achar um toco de quiabo. Ajeitou o legume num estilingue de galhos e acertou a nuca do pai que dirigia. O carro comeu a linha divisória da pista. O pai reclamou muito. A mãe, no banco de carona, esticou-se para apreender a arma. A garotinha que escrevia num diário, silenciosa, tateou no peito uma chavinha que pendia de cordão dourado. Fechou o cadeado do diário. Deu um soco no irmão... e um suspiro. Como se não fosse nada, voltou a abrir a tranca, sentiu o perfume das páginas e concentrou-se em escrever. A mãe protestou, histérica. Disse à pequena escritora que, da próxima, apanharia por bater no irmão. Cinco minutos depois, o mesmo copinho plástico de garrafa térmica passava de mão em mão. Beberam suco de goiaba.
17 August 2007
A grandeza argentina
Dei "Ficções", do Borges, para um amigo em seu aniversário. Nesta semana, ele me disse "A verdade? Não gostei. Pareceu arrogante". Respondi "A verdade? Eu sabia que não gostaria quando comprei o livro".
Este é o problema fundamental em dar presentes: saber se devemos dar o que a pessoa vai gostar ou se devemos abrir uma janelinha na vida dela, para que veja algo que não veria sozinha. É como tirar algo da invisibilidade e fazê-lo existir no mundo de outra pessoa. Prefiro sempre esta opção.
E-MAIL PARA O AMIGO
Achei uma entrevista do Cortázar em que ele fala sobre escrever bem e escrever de verdade. Claro que, para mim, Borges escreve inacreditavelmente das duas maneiras. Mas compreendo quando as pessoas não se sentem tocadas mesmo com tal nível de refinamento estético. A verdade dele não é a sua verdade. Eu sei como é isso. Segue o texto. Um beijão
“Es muy fácil advertir que cada vez escribo menos bien, y ésa es precisamente mi manera de buscar un estilo. Algunos críticos han hablado de regresión lamentable, porque naturalmente el proceso tradicional es ir del escribir mal al escribir bien. Pero a mí me parece que entre nosotros el estilo es también un problema ético, una cuestión de decencia. ¡Es tan fácil escribir bien! ¿No deberíamos los argentinos (y esto no vale solamente para la literatura) retroceder primero, bajar primero, tocar lo más amargo, lo más repugnante, lo más obsceno, todo lo que una historia de espaldas al país nos escamoteó tanto tiempo a cambio de la ilusión de nuestra grandeza y nuestra cultura, y así, después de haber tocado fondo, ganarnos el derecho a remontar hacia nosotros mismos, a ser de verdad lo que tenemos que ser?” (Cortázar)
Este é o problema fundamental em dar presentes: saber se devemos dar o que a pessoa vai gostar ou se devemos abrir uma janelinha na vida dela, para que veja algo que não veria sozinha. É como tirar algo da invisibilidade e fazê-lo existir no mundo de outra pessoa. Prefiro sempre esta opção.
E-MAIL PARA O AMIGO
Achei uma entrevista do Cortázar em que ele fala sobre escrever bem e escrever de verdade. Claro que, para mim, Borges escreve inacreditavelmente das duas maneiras. Mas compreendo quando as pessoas não se sentem tocadas mesmo com tal nível de refinamento estético. A verdade dele não é a sua verdade. Eu sei como é isso. Segue o texto. Um beijão
“Es muy fácil advertir que cada vez escribo menos bien, y ésa es precisamente mi manera de buscar un estilo. Algunos críticos han hablado de regresión lamentable, porque naturalmente el proceso tradicional es ir del escribir mal al escribir bien. Pero a mí me parece que entre nosotros el estilo es también un problema ético, una cuestión de decencia. ¡Es tan fácil escribir bien! ¿No deberíamos los argentinos (y esto no vale solamente para la literatura) retroceder primero, bajar primero, tocar lo más amargo, lo más repugnante, lo más obsceno, todo lo que una historia de espaldas al país nos escamoteó tanto tiempo a cambio de la ilusión de nuestra grandeza y nuestra cultura, y así, después de haber tocado fondo, ganarnos el derecho a remontar hacia nosotros mismos, a ser de verdad lo que tenemos que ser?” (Cortázar)
16 August 2007
A vingança do museu
(Publicado no Direto da Redação: www.diretodaredacao.com)
Quarenta anos depois de Hélio Oiticica ter levado a mostra Nova Objetividade Brasileira ao Museu de Arte Moderna do Rio, voltei à cena do crime para ver exposição recém-chegada do circuito Chicago-Londres-Berlim-Nova York. Quando a Tropicália surgiu, eu era menos que um espermatozóide, menos que uma idéia maliciosa na cabeça dos meus pais. Ao longo da adolescência, fui montando um mosaico dos meus preferidos nas artes, sem saber que Ferreira Gullar, Zé Celso, Glauber Rocha e Caetano Veloso tinham qualquer relação entre si. Vieram as muitas explicações para o movimento. Engajamento, não engajamento, exotismo, liberação, brasilidade, estrangeirismo. A funcionária do MAM que nos recebeu, porém, parecia certa do que se tratava a Tropicália: "Sejam bem-vindos. Aqui é proibido proibir!"
Apesar de certa desconfiança sobre aquelas palavras mágicas, meu amigo e eu estávamos decididos a viver uma tarde catártica no MAM. Lá estava a primeira instalação a ser sentida. Um minuto após ter dito "É proibido proibir", a mesma mulher, vestida de preto da cabeça aos pés, volta a se manifestar "É proibido pisar de tênis nas pedrinhas". Ok, eu tiro o tênis. Seguimos caminho dentro da instalação, andando por palha e espuma. Sentamos num chão de terra para conversar. "Nossa, que bonito, nunca vi o museu sentada em chão de terra. Tão diferente". Quisemos tirar uma foto deste ângulo de visão. A funcionária volta: "É proibido tirar fotos". Protestamos: "Mas não é proibido proibir?" Ela responde que quem nos oprime é o museu, não a exposição.
Nesta altura, sentimos a necessidade de nos rebelar, de tocar fogo no museu, de pirar esses visitantes burocráticos, de fazer com que todos os funcionários vestidos de preto corressem atrás de nós. Afinal, estamos aqui para viver a Tropicália e "vocês não estão entendendo naaaaada". Seguimos viagem rumo ao segundo andar. Com fome, tiro da bolsa uma tangerina. Foi questão de segundos até que um robozinho viesse me dizer que era proibido comer. Deixa eu ver se entendi: eles podem expor duas araras numa gaiola e achar que isso é brasilidade; eu não posso comer um fruto da minha própria terra.
Em volta, aquelas obras com dizeres "Lute" e "Pense" só podiam ser provocação. Deixa para lá. Chegamos aos objetos sensoriais da Lygia Clark. Colocamos as luvas e começamos a mexer nas bolas. Criamos uma brincadeira de jogar para o outro bolas de diferentes pesos. Não estávamos atirando nas janelas. Apenas passando com mais rapidez para sentir as diferenças de textura e volume. Surge o carinha de preto: "É proibido jogar com as bolas. Vocês só podem tocá-las". Arghhhhhhhh. O mesmo veio dizer, logo depois, que estávamos andando no sentido errado da exposição. Ignoramos. Apesar das seguidas opressões, continuamos nosso trajeto como Alice no País das Maravilhas. Prestes a entrar em outra instalação, uma visitante repreende nossa distração rispidamente: "Isso aqui é uma fila!", referindo-se a ela mesma e à amiga. Calma, calma, não estamos no banco, você não está no seu horário de almoço tentando pagar a conta de luz.
Saímos da instalação de cara para a Roda dos Prazeres, da outra Lygia, a Pape. Pela primeira vez, demos de ombros, feito crianças tolidas e educadinhas, e não nos atiramos. Já estávamos quase no fim da exposição quando vi uma peça do Pedro Escosteguy: uma caixa com as portas fechadas pelos canos cruzados de duas armas. Claramente, era preciso abrir os dois canos e ver o que havia dentro: uma urna com o aviso "Vote". Ainda estava lendo o "Vote" quando percebi na minha lateral um dedo em riste. Mais uma funcionária de preto me apontando a faixa branca no chão e dizendo que era proibido abrir as portas da caixa. Expliquei que as idéias externas e internas da obra a completavam, uma não existia sem a outra. A mulher repetiu que era proibido e encerrou minha visita com a célebre frase: "O artista não se discute".
Meu amigo suspeitou que fizéssemos parte, sem saber, de alguma excursão turística para a Tropicália, coisa antiga e admirável como catedral adornada em ouro. Voltamos à contemplação divina da Idade Média. Ou fui enganada pelos neoconcretos, ou eles sofreram a mais terrível vingança do museu.
Quarenta anos depois de Hélio Oiticica ter levado a mostra Nova Objetividade Brasileira ao Museu de Arte Moderna do Rio, voltei à cena do crime para ver exposição recém-chegada do circuito Chicago-Londres-Berlim-Nova York. Quando a Tropicália surgiu, eu era menos que um espermatozóide, menos que uma idéia maliciosa na cabeça dos meus pais. Ao longo da adolescência, fui montando um mosaico dos meus preferidos nas artes, sem saber que Ferreira Gullar, Zé Celso, Glauber Rocha e Caetano Veloso tinham qualquer relação entre si. Vieram as muitas explicações para o movimento. Engajamento, não engajamento, exotismo, liberação, brasilidade, estrangeirismo. A funcionária do MAM que nos recebeu, porém, parecia certa do que se tratava a Tropicália: "Sejam bem-vindos. Aqui é proibido proibir!"
Apesar de certa desconfiança sobre aquelas palavras mágicas, meu amigo e eu estávamos decididos a viver uma tarde catártica no MAM. Lá estava a primeira instalação a ser sentida. Um minuto após ter dito "É proibido proibir", a mesma mulher, vestida de preto da cabeça aos pés, volta a se manifestar "É proibido pisar de tênis nas pedrinhas". Ok, eu tiro o tênis. Seguimos caminho dentro da instalação, andando por palha e espuma. Sentamos num chão de terra para conversar. "Nossa, que bonito, nunca vi o museu sentada em chão de terra. Tão diferente". Quisemos tirar uma foto deste ângulo de visão. A funcionária volta: "É proibido tirar fotos". Protestamos: "Mas não é proibido proibir?" Ela responde que quem nos oprime é o museu, não a exposição.
Nesta altura, sentimos a necessidade de nos rebelar, de tocar fogo no museu, de pirar esses visitantes burocráticos, de fazer com que todos os funcionários vestidos de preto corressem atrás de nós. Afinal, estamos aqui para viver a Tropicália e "vocês não estão entendendo naaaaada". Seguimos viagem rumo ao segundo andar. Com fome, tiro da bolsa uma tangerina. Foi questão de segundos até que um robozinho viesse me dizer que era proibido comer. Deixa eu ver se entendi: eles podem expor duas araras numa gaiola e achar que isso é brasilidade; eu não posso comer um fruto da minha própria terra.
Em volta, aquelas obras com dizeres "Lute" e "Pense" só podiam ser provocação. Deixa para lá. Chegamos aos objetos sensoriais da Lygia Clark. Colocamos as luvas e começamos a mexer nas bolas. Criamos uma brincadeira de jogar para o outro bolas de diferentes pesos. Não estávamos atirando nas janelas. Apenas passando com mais rapidez para sentir as diferenças de textura e volume. Surge o carinha de preto: "É proibido jogar com as bolas. Vocês só podem tocá-las". Arghhhhhhhh. O mesmo veio dizer, logo depois, que estávamos andando no sentido errado da exposição. Ignoramos. Apesar das seguidas opressões, continuamos nosso trajeto como Alice no País das Maravilhas. Prestes a entrar em outra instalação, uma visitante repreende nossa distração rispidamente: "Isso aqui é uma fila!", referindo-se a ela mesma e à amiga. Calma, calma, não estamos no banco, você não está no seu horário de almoço tentando pagar a conta de luz.
Saímos da instalação de cara para a Roda dos Prazeres, da outra Lygia, a Pape. Pela primeira vez, demos de ombros, feito crianças tolidas e educadinhas, e não nos atiramos. Já estávamos quase no fim da exposição quando vi uma peça do Pedro Escosteguy: uma caixa com as portas fechadas pelos canos cruzados de duas armas. Claramente, era preciso abrir os dois canos e ver o que havia dentro: uma urna com o aviso "Vote". Ainda estava lendo o "Vote" quando percebi na minha lateral um dedo em riste. Mais uma funcionária de preto me apontando a faixa branca no chão e dizendo que era proibido abrir as portas da caixa. Expliquei que as idéias externas e internas da obra a completavam, uma não existia sem a outra. A mulher repetiu que era proibido e encerrou minha visita com a célebre frase: "O artista não se discute".
Meu amigo suspeitou que fizéssemos parte, sem saber, de alguma excursão turística para a Tropicália, coisa antiga e admirável como catedral adornada em ouro. Voltamos à contemplação divina da Idade Média. Ou fui enganada pelos neoconcretos, ou eles sofreram a mais terrível vingança do museu.
15 August 2007
Tropicália sim
Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?
Vocês tem coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música, que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado.
É a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem!
Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada!
Hoje não tem Fernando Pessoa!
Eu hoje vim dizer aqui que quem teve coragem de assumir a estrutura do festival, não com o medo que o Sr. Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir esta estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu, não foi ninguém.
Foi Gilberto Gil e fui eu!
Vocês estão por fora! Vocês não dão para entender!
Mas que juventude é essa? (gritos)
Vocês jamais conterão ninguém!
Vocês são iguais sabe a quem?
(Tem som no microfone?)
Vocês são iguais sabe a quem?
Àqueles que foram a Roda Viva e espancaram os atores... Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada! E por falar nisso:
VIVA CACILDA BEKER!
VIVA CACILDA BEKER!
Eu tinha me comprometido em dar esse VIVA aqui, não tem nada a ver com vocês!
O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira!
O Maranhão apresentou esse ano uma música, com arranjo de charleston, sabem o que foi?
Foi a "Gabriela" do ano passado que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar, por ser americana.
Mas eu e o Gil já abrimos o caminho, o que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso!
Eu quero dizer ao júri : me desclassifique! Eu não tenho nada a ver com isso! Nada a ver com isso!
Gilberto Gil! Gilberto Gil está comigo para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil!
Acabar com tudo isso de uma vez!
Nós entramos em festival pra isso! Não é Gil?
Não fingimos, não fingimos, aqui, que desconhecemos o que seja festival não!
Ninguém nunca me ouviu falar assim! Sabe como é?
Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas, e vocês?
E vocês?
Se vocês... Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos!
Me desclassifiquem junto com o Gil!
Junto com ele, tá entendendo?
E quanto a vocês... (incompreensível).
O júri é muito simpático mas é incompetente.
DEUS ESTÁ SOLTO!
(Caê, no III Festival da Canção)
Vocês tem coragem de aplaudir, este ano, uma música, um tipo de música, que vocês não teriam coragem de aplaudir no ano passado.
É a mesma juventude que vai sempre, sempre, matar amanhã o velhote inimigo que morreu ontem!
Vocês não estão entendendo nada, nada, nada, absolutamente nada!
Hoje não tem Fernando Pessoa!
Eu hoje vim dizer aqui que quem teve coragem de assumir a estrutura do festival, não com o medo que o Sr. Chico de Assis pediu, mas com a coragem, quem teve essa coragem de assumir esta estrutura e fazê-la explodir foi Gilberto Gil e fui eu, não foi ninguém.
Foi Gilberto Gil e fui eu!
Vocês estão por fora! Vocês não dão para entender!
Mas que juventude é essa? (gritos)
Vocês jamais conterão ninguém!
Vocês são iguais sabe a quem?
(Tem som no microfone?)
Vocês são iguais sabe a quem?
Àqueles que foram a Roda Viva e espancaram os atores... Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada! E por falar nisso:
VIVA CACILDA BEKER!
VIVA CACILDA BEKER!
Eu tinha me comprometido em dar esse VIVA aqui, não tem nada a ver com vocês!
O problema é o seguinte: vocês estão querendo policiar a música brasileira!
O Maranhão apresentou esse ano uma música, com arranjo de charleston, sabem o que foi?
Foi a "Gabriela" do ano passado que ele não teve coragem de, no ano passado, apresentar, por ser americana.
Mas eu e o Gil já abrimos o caminho, o que é que vocês querem? Eu vim aqui para acabar com isso!
Eu quero dizer ao júri : me desclassifique! Eu não tenho nada a ver com isso! Nada a ver com isso!
Gilberto Gil! Gilberto Gil está comigo para nós acabarmos com o festival e com toda a imbecilidade que reina no Brasil!
Acabar com tudo isso de uma vez!
Nós entramos em festival pra isso! Não é Gil?
Não fingimos, não fingimos, aqui, que desconhecemos o que seja festival não!
Ninguém nunca me ouviu falar assim! Sabe como é?
Nós, eu e ele, tivemos coragem de entrar em todas as estruturas e sair de todas, e vocês?
E vocês?
Se vocês... Se vocês em política forem como são em estética, estamos feitos!
Me desclassifiquem junto com o Gil!
Junto com ele, tá entendendo?
E quanto a vocês... (incompreensível).
O júri é muito simpático mas é incompetente.
DEUS ESTÁ SOLTO!
(Caê, no III Festival da Canção)
11 August 2007
04 August 2007
Acumulação primitiva de riquezas
O mundo inteiro cabia no meu quarto. Muitas pessoas também. Passávamos dias inteiros ouvindo música alta, escrevendo idéias atiradas na lixeira, tirando coisas do lugar, largando copos semi-cheios pelos cantos, esperando a hora de sair chegar, chegando para não sair mais, não mexa na caixa de pensamentos!, você tem um quarto rosa?, não é rosa, agora é lilás, a cor acalma, a girafa de madeira, os retratos de queridos, a lista de livros furtados e de ladrões, o anúncio do professor de tango Daniel Raphael, o cartão do restaurante peruano, o duende da minha avó, o copinho de tequila, o Marvin e sua hélice amarela, uma meia listrada atrás do monitor, a limpeza nos aproxima da divindade, eu não sou divina, meu quarto não é templo, eu preciso de outros quartos, este entupiu, é a acumulação primitiva de riquezas.
O mundo também coube dentro de uma mochila. Eu despachei cinco quilos de mundo pelo correio, de Manaus para o Rio.
O mundo também coube dentro de uma mochila. Eu despachei cinco quilos de mundo pelo correio, de Manaus para o Rio.
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