01 April 2009

Ausência



Estou fora do blog. Não sei mais escrever.

P.S. Devo criar outro, outro dia, com outro começo, para outro fim.

26 March 2009

Sentimentos de amor

Nada disso tudo - a biblioteca, a sala de aula, as pessoas na rua, o socialismo, a América Latina, o céu de outono, a verdade, a loucura... - teria sentido, se eu não estivesse carregada de grandes sentimentos de amor.


"chegou a hora de amar desesperadamente
apaixonadamente
descontroladamente
chegou a hora de mudar o estilo
de mudar o vestido
chegou atrasada como um trem atrasado
mas que chega"

(Chacal)

15 March 2009

Um doce



Uma amizade tão antiga e inacreditavelmente contemporânea.

15 February 2009

O discreto charme da burguesia (II)


"O que os fazia representantes [políticos] da burguesia é que seu pensamento não podia superar os limites que o próprio pensamento burguês não supera em sua vida e que, por consequência, são teoricamente impelidos para os mesmos problemas e para as mesmas soluções às quais os burgueses na prática são conduzidos por seu interesse material e sua situação social".

Michel Löwy, a outro propósito, que aqui coube.


P.S. Título e foto furtados de "Conversas com o teto". =]

01 February 2009

Sobre a miséria alheia

Há algum tempo sinto a necessidade de sistematizar minhas impressões sobre nosso olhar acerca da miséria alheia. Geralmente, causa-me desconforto quando a classe média, às vezes munida com boas intenções, aponta, comenta ou “reflete” sobre os mendigos debaixo da marquise, sobre as velhas pedintes na porta da igreja, sobre os pequenos malabaristas do sinal de trânsito.

Nosso comentarista de cada dia sente que não pode passar por aquilo sem oferecer sua humilde opinião; sem “alertar” os outros; sem mostrar que ele mesmo, ao contrário do que aparenta na sua rotina do escritório ou da faculdade, está carregado de sentimentos de nobreza e solidariedade. Algumas vezes, os comentários seguem a linha do “lirismo” e da “poesia”; outras, da “análise sociológica e política”. Mas a classe média passa; o mendigo, a velha e o malabarista continuam.

Nesses casos específicos do cotidiano, o silêncio retumbante me parece mais honesto que os floreios verbais dos que apenas... passam. Essa “pequena denúncia”, poética ou sociológica, me irrita especialmente por servir como substituto a um verdadeiro comprometimento com a transformação social e a justiça.

Com grande freqüência, sou consumida pela enorme vergonha que me causa a miséria alheia, sobretudo por minha incapacidade de enfrentá-la. Mais nova, acreditava poder resolvê-la com meu próprio voluntarismo: bastava abdicar dos meus privilégios de classe e encampar os discursos de igualdade, que o problema estaria no caminho da solução. Isso, obviamente, se revelou uma grande mentira. Mesmo que abrisse mão de perfume e champagne, a parte fundamental dos meus privilégios de classe permaneceria intocada: décadas de educação em escolas particulares, cursos de língua, universidade federal – entre outros fatores que garantiriam, ad infinitum, meu lugar destacado na pirâmide social, muito acima do exército de miseráveis Brasil afora.

Mesmo que conseguisse cumprir metas pretensiosas de privação material, tal fato não garantiria automaticamente outro destino para o mendigo, a velha e o malabarista. Eles continuariam nas mesmas posições em que estão hoje. Ao mesmo tempo, não se trata de naturalizar uma vida de privilégios – é hipócrita negá-los, mas ainda pior não criticá-los nem colocá-los (os irreversíveis) a serviço de valores justos.

Nosso desafio é pertencer a uma classe que funciona como porrete esmagando a maioria da população (não podemos adulterar nossa realidade individual para nos livrarmos da carga de culpa) e, ao mesmo tempo, saber fazer a grande crítica da sociedade – tentando viver com coerência, embora nem sempre conseguindo, e nos preparando para desempenhar algum papel numa possível ruptura, que talvez nunca cheguemos a ver.


(Depois continua).

27 January 2009

I'm a little bit Macunaíma too

Parajuru, município de Beberibe, estado do Ceará.

13 January 2009

Diário

FORTALEZA, 13 de janeiro. Nesta última madrugada, completaram duas semanas desde que cheguei à capital do estado do Ceará, a 2805 Km do Rio de Janeiro. Há 13 anos, fiz esse mesmo trajeto, mas de carro. Nessa época, escrevi meu primeiro diário - era um diário de bordo que comentava as paisagens, as pessoas, as cidades, os sertões... Depois, vieram outros, ora mais apressados e digitalizados, ora mais conscientes e emotivos. Nesta manhã, em que acordei olhando para um céu corriqueiramente azul, lembrei não ter escrito ainda qualquer linha sobre essas semanas aqui. Apenas enviei fotos e falei ao telefone. Talvez porque não me sinta viajando no estilo clássico e também persista algo de familiar e íntimo no que, sob protestos do Rômulo, chamo equivocadamente de "Nordeste":




03 December 2008

Tanta vida explodida

Eu, que suporto com bravura as dores agudas, nada sei sobre os mistérios do claustro.

Nesses dias de ócio, acabei por associar, com nostalgia, fatos antigos e dispersos, que talvez me sejam peculiares. No primeiro dia de jardim de infância, com 3 anos, corri em disparada em direção à piscina da escola e pulei na água feito mártir. Estava de roupa e bati com o nariz (ou a boca) na borda. Criei um tumulto no lugar e fui entregue à minha mãe com algum sangramento na face. Apesar dos efeitos colaterais, terminei esse dia com saldo positivo, achando que a escola era pura aventura.

Essa cena se repetiu inúmeras vezes, em diversos lugares: de uniforme, de pijama, de vestido, correndo loucamente para pular n'água. Em tempos imemoriais, essa era a forma de me atirar na vida, de torná-la toda minha num instante, de compensar a inquietação. Sem planejamento ou autorização, eu me atirava no sonho mais escorregadio e irracional: a sensação vital da felicidade.

Felicidade que não está embutida no acúmulo de fatos corridos, mas que toma nossos corações e mentes numa explosão particular. Explodir é preciso. A primeira lei do universo, desde o Big Ben.

O que me leva a recorrer a FG:

Todos te buscam, facho
de vida, escuro e claro,
que é mais que a água na grama
que o banho no mar, que o beijo
na boca, mais
que a paixão na cama.
Todos te buscam e só alguns te acham. Alguns
te acham e te perdem.
Outros te acham e não te reconhecem.
e há os que se perdem por te achar,
ó desatino
ó verdade, ó fome
de vida!


25 November 2008

A Crise

Crack da Down Jones.
Crack da Nasdaq.
Crack da Bovespa.
Crack do osso do meu pé.

Cotação de Carla Marques Ltda nesta segunda-feira: -2,0%.

* O BC poderia liberar uns dólares para acalmar meu mercado.

* Analistas chantageados por mim falam em tendência de alta.

* Acompanhem os próximos capítulos desta crise. Com lágrimas!

14 November 2008

Miudezas provisórias

Coisas miúdas
Que a gente pega com a mão

Onda do mar
Que te cobre toda

Mãe no aeroporto
Que espera sorridente

Feixe de sol de inverno
Que entra no quarto de manhã

Música clássica do vizinho
Que chega de surpresa

Cachoeira na cidade grande
Que te deixa resfriada (mas feliz)

Última página de livro bom
Que dá vertigem na rua

Crianças no deque da Lagoa
Que riem e tropeçam

Gente bizarra
Que comemora falta de luz
Que pula debaixo da chuva

05 November 2008

Tatuagem, borrão e sol

Voltei a sonhar com a tatuagem. Desta vez, era enorme e encobria meu ombro esquerdo. Inconformada, me perguntava como havia permitido que aquela imagem fosse tecida na minha pele. Não parecia mais que uma mancha, em que o tom vermelho se destacava dos outros. De alguma forma, porém, a tatuagem derreteu e já não estava mais no ombro. Na seqüência, minha boca aparecia envolta num borrão vermelho, como se meu batom tivesse se espalhado por seus cantos. De todos os pesadelos possíveis, por que a tatuagem? Acordada, vejo-as em toda parte e me pergunto o que há nelas que me aflige quando sonho. Tecer uma trama eterna, talvez. Mas o que é eterno, afinal? A dúvida que atravessa nossas noções de tempo e de espaço no mundo. Aqui estamos, até quando?

Fora isso, sinto cheiro do fim do ano quando o ar aquece em novembro. Sinto 2008 encerrado. E agora só quero um pouco de sol.

03 November 2008

Dentro da noite veloz

O que pensar quando se encontra uma folha solta com a seguinte inscrição a punho (meu próprio punho):

"HOMEM MORIBUNDO ESCREVE: Deixo meus bens à minha irmã não ao meu sobrinho jamais será paga a conta do alfaiate nada aos pobres."

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Encerro meu domingo considerando que a agonia do projeto da intelectualidade é a sua tendência ao infinito.

Irrealizado será. Como dois e dois são quatro.

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Como dois e dois são quatro
Sei que a vida vale a pena
Embora o pão seja caro
E a liberdade pequena

(FG, meu poeta mais querido)

15 October 2008

Cordão de rosas e espinhos

Já não posso encontrar no dicionário de sonhos da minha avó o significado de estar tatuada com desenhos discretos ou extravagantes. Se na infância eu via sempre meu pai ser atacado por gatos selvagens debaixo da chuva, hoje me vejo tatuada por um cordão de rosas e espinhos que envolve minha cintura.

Tento tirá-lo, mas não posso, porque atravessa minha pele, minhas células, minh'alma. Eu escolhi tê-lo sem escolhê-lo de verdade. Eu disse: Sim. Mas não quis dizer. Ando na noite escura buscando o significado daquela escolha, imaginando uma forma de estancar o sangue que escorre dos meus espinhos.

Na madrugada em que sonhei lavar roupas num campo de concentração, acordei com músculos doloridos e a sensação de que algo daria errado caso um Rolls-Royce preto passasse em alta velocidade. Outra vez, fui empurrada por uma avalanche de neve do pico de uma montanha até as águas quentes de uma praia, onde um francês me ofereceu um armário exclusivo para guardar meus casacos.

Sonhos são flechas que atravessam meus nódulos de dor, neurônios pirados, fantasmas e espectros, ímpetos de fuga, reservatórios de alegria... Apontando para a soma disso tudo, que eu não sei bem o que é.

09 October 2008

El triste 8 de octubre

"É difícil para alguém como Che Guevara movimentar-se bem nos corredores dos ministérios como o fazia pelas veredas de Sierra Maestra. Difícil a adaptação à nova fase, difícil aceitar com tranqüilidade a passagem do "grupo em fusão", quando guerrilheiros e sociedade confundem-se em um único desejo comum - viver sem grilhões, em paz e felicidade -, para o momento da institucionalização da revolução, quando se torna mais séria - mais amarga. Guevara parte para novas aventuras. Aventuras que reuniam as viagens de aprendizado político com aquelas da "formação do espírito" do "homem novo". (...)

Como Licurgo, o Che abdica do poder e a ele prefere continuar em sua atividade de preceptor, pedagogo e legislador (...). Em plena floresta boliviana (...), sentado no chão, um fuzil-metralhadora repousando a tiracolo, um homem barbudo estranho lê o Fausto do Goethe (...) imagem que dá bem a idéia de sua complexidade e sofisticação e que unifica todos os aspectos do guerreiro-legislador no sentido de Montesquieu e Rousseau: um condottieri-legislador ou, valendo-se de Rousseau, um guerrilheiro bom e virtuoso".

(Luiz Roberto Salinas Fortes. "Che, Vinte Anos Depois").

01 October 2008

Nosso próprio tempo


Eu, ele, a distância do resto, a proximidade de nós.

Eu amo de verdade.

16 September 2008

Balzac e a pequena farmacêutica

Ela é pequena. Tem 1,52m. Quando percebi pela primeira vez a diferença entre a sua altura e a dos demais mortais, perguntei sem delongas: "Mãe, você é anã?" Ela disse que era apenas pequena, assim como toda sua família, e que talvez eu ficasse também. Alcancei a inacreditável marca de (quase) 1,70m.

Além das notáveis diferenças físicas, somos água e vinho em outros aspectos da vida. O que ela tem de pragmática, eu tenho de idealista. Ela é fã dos números e eu, das letras. Quanto mais ela desconfia das pessoas, mais acredito nelas.

Minha mãe - que, como se sabe agora, é pequena, nunca anã, pragmática, numérica e desconfiada - ingressou recentemente num mundo perigoso. O meu mundo. Percebi que algo havia mudado na casa quando, ao entrar na cozinha, avistei três panelas borbulhando em cima do fogão e uma pessoa compenetrada na leitura... de Honoré de Balzac.

E mais: ela havia passado a contar a história em capítulos em plantões semanais no seu laboratório. A cada semana, oferecia um trecho da saga aos colegas de trabalho. Pragmaticamente, me explicou o que achava de A Mulher de Trinta Anos: "Acho engraçado tanto amor e dor".

Há alguns meses, minha mãe começou a me pedir livros. Desde então, passaram por suas mãos, além de Balzac, Ernest Hemingway, Gabriel García Márquez, Milan Kundera e José Saramago... No início, tentava instrui-la sobre a importância de cada autor e de cada livro.

Ela, porém, fazia sempre a leitura que bem entendia e me respondia coisas terríveis. O Velho e o Mar? "O velho é chato demais, merece morrer". O Amor nos Tempos do Cólera? "Florentino Ariza não ama aquela mulher, é um doente mental. Essa é a única explicação". Ensaio sobre a Cegueira? "Os cegos precisam se civilizar de novo. Não agüento tanta sujeira".

As constatações nuas e cruas geraram debates e brigas sob este teto. Aos poucos, as mudanças ficaram mais claras, com suas referências aos autores ou aos livros em conversas corriqueiras, seu interesse em decifrar o sentido de uma passagem e sua vontade ansiosa de comentar o final da história.

Sempre que restam poucas páginas até o fim, em tom de aviso, ela fala para sua bibliotecária-filha: "Está acabando, qual será o próximo?" Por hora, ela ganhou dois: Todos os Nomes, Saramago, e O Estrangeiro, Camus.

Dos personagens cegos que ela mencionou nos últimos dias, perguntou, achando graça, se eu lembrava da "mulher que disse aonde tu fores, eu irei". Sim, eu me lembro, essa sou eu, mãe.

10 September 2008

Silêncios de resistência

- Qual o papel do escritor brasileiro hoje em dia? - pergunta o entrevistador de TV cheio de entonações.

- O de falar o menos possível - responde Clarice Lispector, num dia que julgou estar cansada, mas negou ser infeliz e solitária, no longíquo ano de 1977.

http://www.youtube.com/watch?v=9ad7b6kqyok
http://www.youtube.com/watch?v=TvLrJMGlnF4&feature=related
...
(Tenham paciência com o apresentador animadinho)

30 August 2008

Trechos, torres e lugares no mundo

Dia chuvoso de leituras (anti-) psicanalíticas e (anti-) existencialistas, que me trazem a certeza da superação de determinadas indefinições (em outras palavras, a certeza do "a que vim fazer neste mundo"). Rômulo conhece os prenúncios da pergunta recorrente - "Posso ler um trecho para você?" - e parece se arrumar para ouvi-lo. É certo que me acusa de distraída, por perder o fio da atenção quando ele me oferece "um trecho". É certo também que as idéias entram em mim de maneira menos organizada do que nele. De qualquer forma, enquanto as idéias voam desvariadas por todos os lados, olhamos para o mesmo céu, nos reconhecemos nele, nos reconhecemos em nós dois.

Cada vez mais percebo ser difícil o debate público (e acho um momento heróico dos homens públicos sinceros e complexos). No meu caso, debate público se refere a uma arena bem restrita, quase privada a amigos, conhecidos e semi-desconhecidos. O obstáculo está no começo de todas as discussões, que jamais é realmente um "começo", pois as pessoas já trazem em si uma bagagem de pressupostos e concepções (refletidos, irrefletidos, folclóricos, de senso comum etc). A sensação Torre de Babel me persegue.

Acho que a explicação do problema pode ser a seguinte: Um saber é realmente adquirido apenas quando o processo de aprendizado se apaga da memória. O encadeamento de regras, argumentos e pressupostos - tão necessário e claro numa fase - passa a ser internalizado no fim do ciclo: o indivíduo simplesmente "sabe". Como andar de bicicleta, falar uma língua ou ter uma visão de mundo.

Uma simples idéia, portanto, significa um longo processo de escolhas conscientes e inconscientes. Nunca pode ser resumida a uma tomada de posição imediata num debate. Para que um debatedor pudesse realmente convencer o outro, teria que voltar muito atrás no seu processo de aprendizado (já internalizado) e mostrar ao concorrente as suas razões mais profundas.

Algumas poucas pessoas, entretanto, nos surpreendem por terem uma consciência nata dessas nossas razões mais profundas. São com as quais nos comunicamos sem palavras. Mesmo que nem sempre concordem com a superfície dos nossos argumentos imediatos. Antes de tudo, são um contraponto à Torre de Babel na qual nos metemos ao nascer. São, talvez, nosso verdadeiro lugar no mundo.

05 August 2008

Porque Marx não serve para nada

Rômulo chegou esbaforido de uma incursão na graduação. A disciplina era História do Pensamento Econômico II, cuja ementa prevê a leitura do livro I de O Capital. Difícil ter estômago para graduação, sobretudo porque 99% das pessoas que nela estão foram levadas compulsoriamente até lá, com a missão básica de conseguir um diploma qualquer que lhes garanta um emprego burocrático e uma dignidade mínima na sociedade contemporânea. Universidade é um nome que perdeu o sentido: longe de parecer um universo - infinito, complexo e revelador -, mais parece, tantas vezes, a sala de espera do dentista, em que criaturas distraídas folheiam revistas sem menor critério. Quantas pessoas conseguiram se formar, em instituições públicas ou privadas, sem terem lido sequer um livro inteiro?

Mas voltando ao caso de hoje. Rômulo me conta que o professor era um homem de 60 e poucos anos, sisudo mas afável. Ele pergunta se alguém na turma já havia tido contato com a obra de Marx. Um garoto se adianta: "Odeio Marx. Ele não serve para nada". O professor argumenta: "Mas você já leu alguma coisa do autor?". Não havia lido. A Economia é povoada pelo que gostamos de chamar de "ogros matemáticos". É o tipo de cara que exercita bastante os músculos e promete que fará seu primeiro milhão aos 20 e poucos. Acredita ter sido tocado pelo dom da inteligência, pois consegue resolver equações matemáticas e sofre de pró-atividade mercadológica.

O professor parece estar psicologicamente preparado para lidar com essa gente "do futuro". Rômulo faz uma referência ao nome do filme dos irmãos Cohen: "No country for old men". Filme ruim, título ilustrativo. O veterano continua: "Por muitos anos, tentei explicar por que Marx não serve para nada. Agora já tenho uma resposta".

Numa tribo sem História ou, melhor seria dizer, numa sociedade em que as organizações e relações sociais se mantêm inalteradas ao longo dos anos, tanto faz observá-la hoje ou dois séculos atrás. Ela se converva igual, pois todos indivíduos, em todas as gerações, se inserem naturalmente no grupo. Não existem margens que se multiplicam. Nessa sociedade, Marx é completamente inútil.

Muitos estão convencidos que vivemos numa sociedade sem História, que desigualdades e opressões de várias espécies não têm origem no tempo histórico. Tantos jovens assimilaram que o mundo tal como vemos hoje sempre existiu e sempre existirá, equiparando-o a uma tribo de equilíbrio perfeito, em que mesmo as características ruins têm sua razão de ser - ou, como se diz hoje, a existência miserável de 2/3 de pessoas no planeta é a condição básica para que a última parte viva bem.

Nesse "equilíbrio perfeito", cada um se vê "livre" (no sentido mais escroto da palavra) para cultivar seu intimismo à sombra do poder, para fazer um milhão de reais, para consentir um projeto que mutila em massa carne e alma humanas... Afinal, a História não existe mesmo e as pessoas são responsáveis apenas pelo curto espaço de tempo em que respiram e consomem.


(Para Rômulo, como tudo que escrevo e penso).