19 April 2012
Perfeição
"Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa."
[F.Pessoa]
21 December 2011
Carta (moderna) para uma amiga (antiga)
(...)
Em relação a isso, eu concordo, porque sou muito parecida com você. Mas vamos pensar grande de novo: o importante é que temos consciência disso, que refletimos muito, que buscamos nos conhecer cada vez mais, que não fugimos da batalha interior... Pena eu tenho de quem passa a vida inteira na completa escuridão de si mesmo, de quem se acha perfeito, de quem não tem complexidade, de quem não sabe sofrer e tirar do sofrimento um motivo para se tornar um ser humano melhor.
Há algum tempo, concluí que as pessoas são definidas não pelas respostas que encontram, mas pelas perguntas que fazem. Provavelmente, nós nunca encontraremos conclusões duradouras sobre nada (por isso, disse no email anterior que estamos sempre começando). Na verdade, nosso valor está no alto nível das perguntas que fazemos sobre a vida e sobre nós mesmos. Por todos esses questionamentos, podemos até ser um pouco confusas... Mas nunca, nunca, nunca seremos pessoas banais!
Tem uma outra frase da peça que me tocou muito (e me veio à cabeça quando terminei de ler seu email). Era sobre um personagem de uma parábola que estava diante da encruzilhada entre o bom e o justo (nem sempre o bom é o justo e vice-versa). O que marcava esse personagem é que ele sempre mantinha um alto nível de tensão interior - mesmo quando precisava executar uma ação contrária à sua verdadeira vontade.
Provavelmente, ainda viveremos várias situações contrárias à nossa vontade. Mas não deixemos de fazer perguntas difíceis nem de manter esse alto nível de tensão interior. É a forma de não se entregar.
Em relação a isso, eu concordo, porque sou muito parecida com você. Mas vamos pensar grande de novo: o importante é que temos consciência disso, que refletimos muito, que buscamos nos conhecer cada vez mais, que não fugimos da batalha interior... Pena eu tenho de quem passa a vida inteira na completa escuridão de si mesmo, de quem se acha perfeito, de quem não tem complexidade, de quem não sabe sofrer e tirar do sofrimento um motivo para se tornar um ser humano melhor.
Há algum tempo, concluí que as pessoas são definidas não pelas respostas que encontram, mas pelas perguntas que fazem. Provavelmente, nós nunca encontraremos conclusões duradouras sobre nada (por isso, disse no email anterior que estamos sempre começando). Na verdade, nosso valor está no alto nível das perguntas que fazemos sobre a vida e sobre nós mesmos. Por todos esses questionamentos, podemos até ser um pouco confusas... Mas nunca, nunca, nunca seremos pessoas banais!
Tem uma outra frase da peça que me tocou muito (e me veio à cabeça quando terminei de ler seu email). Era sobre um personagem de uma parábola que estava diante da encruzilhada entre o bom e o justo (nem sempre o bom é o justo e vice-versa). O que marcava esse personagem é que ele sempre mantinha um alto nível de tensão interior - mesmo quando precisava executar uma ação contrária à sua verdadeira vontade.
Provavelmente, ainda viveremos várias situações contrárias à nossa vontade. Mas não deixemos de fazer perguntas difíceis nem de manter esse alto nível de tensão interior. É a forma de não se entregar.
Casa vazia
Sinto que o blogspot está me expulsando. Tirou até os quadros das paredes (no lugar das fotos, apenas um X). Colocou tudo num caminhão de mudança. E apagou a luz. Toda vez que entro aqui, é como se vagasse por uma casa vazia, mas cheia de memórias.
17 October 2011
Inversão da lógica
Toda a ideologia capitalista está baseada numa simples proposição que permeia nossas vidas ocidentais:
TUDO É POSSÍVEL.
Mas a fórmula honesta de superação da impossibilidade ideológica seria, na verdade: O impossível acontece.
Isso me explicou Zizek, citando Zupancic, que por sua vez mencionou Lacan.
Nesta fórmula, não existe qualquer promessa, qualquer garantia, qualquer truque. Pode acontecer, mas não quer dizer que acontecerá. Quando acontece, empresta um tom mágico às nossas existências.
(Um bom exemplo disso foi contado por um professor - o melhor que tive contou. A última frase dita por Lênin antes de embarcar no trem rumo a Moscou foi: A revolução não é possível. Quando ele desembarcou, foi justamente o impossível que aconteceu)
TUDO É POSSÍVEL.
Mas a fórmula honesta de superação da impossibilidade ideológica seria, na verdade: O impossível acontece.
Isso me explicou Zizek, citando Zupancic, que por sua vez mencionou Lacan.
Nesta fórmula, não existe qualquer promessa, qualquer garantia, qualquer truque. Pode acontecer, mas não quer dizer que acontecerá. Quando acontece, empresta um tom mágico às nossas existências.
(Um bom exemplo disso foi contado por um professor - o melhor que tive contou. A última frase dita por Lênin antes de embarcar no trem rumo a Moscou foi: A revolução não é possível. Quando ele desembarcou, foi justamente o impossível que aconteceu)
Dor, experiência filosófica
O que dizer para um amingo triste num domingo chuvoso.
Eu não entendo nada de música, mas por algum motivo o Johnny Cash é um dos meus artistas preferidos. Às vezes, estou no longo caminho para o trabalho, completamente de saco cheio, e coloco "Boy Named Sue" para tocar. Fico rindo sozinha no metrô. Nos domingos chuvosos, eu vejo o clipe de "Hurt", que me dá um grande aperto no coração, porque consigo sentir a verdade e a intensidade do Cash cantando. Talvez seja por isso que gosto dele: a mistura de sofrimento, intensidade e humor.
É preciso de um pouco de sofrimento e de uma pitada de angústia para se tornar mais humano, mais complexo, mais amplo. As pessoas que mais me interessam têm algum nó no peito. Mas não é o sofrimento em si que engrandece. É o que fazemos com ele, é como o desafiamos, como o utilizamos para olhar o mundo de forma menos passiva e superficial. O sofrimento é o que nos dá densidade. Ele é arrasador, mas também extremamente criativo pois exige que encontremos novos caminhos. A dor é filosoficamente uma experiência interessante.
Eu não entendo nada de música, mas por algum motivo o Johnny Cash é um dos meus artistas preferidos. Às vezes, estou no longo caminho para o trabalho, completamente de saco cheio, e coloco "Boy Named Sue" para tocar. Fico rindo sozinha no metrô. Nos domingos chuvosos, eu vejo o clipe de "Hurt", que me dá um grande aperto no coração, porque consigo sentir a verdade e a intensidade do Cash cantando. Talvez seja por isso que gosto dele: a mistura de sofrimento, intensidade e humor.
É preciso de um pouco de sofrimento e de uma pitada de angústia para se tornar mais humano, mais complexo, mais amplo. As pessoas que mais me interessam têm algum nó no peito. Mas não é o sofrimento em si que engrandece. É o que fazemos com ele, é como o desafiamos, como o utilizamos para olhar o mundo de forma menos passiva e superficial. O sofrimento é o que nos dá densidade. Ele é arrasador, mas também extremamente criativo pois exige que encontremos novos caminhos. A dor é filosoficamente uma experiência interessante.
15 July 2011
28 February 2011
Silêncio
E cada vez mais, não escrevo. Transcrevo:
"Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso."
Clarice L.
"Ouve-me, ouve o meu silêncio. O que falo nunca é o que falo e sim outra coisa. Capta essa outra coisa de que na verdade falo porque eu mesma não posso."
Clarice L.
25 January 2011
Pelo sonho é que vamos
"Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos".
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos".
01 January 2011
21 December 2010
Ou assim
"porque foi tão fácil conseguir
e agora eu me pergunto "e daí?"
eu tenho uma porção
de coisas grandes prá conquistar
e eu não posso ficar aí parado"
e agora eu me pergunto "e daí?"
eu tenho uma porção
de coisas grandes prá conquistar
e eu não posso ficar aí parado"
20 December 2010
Contagem regressiva
03 December 2010
03 November 2010
Assim é
Uma árvore geme se a cortam
Um cão gane se lhe batem
Um homem cresce se o ofendem
O Evangelho segundo Jesus Cristo
(José Saramago)
Um cão gane se lhe batem
Um homem cresce se o ofendem
O Evangelho segundo Jesus Cristo
(José Saramago)
21 June 2010
Grandes e graves
Trecho de On the Road, quando Sal e Dean chegam ao México pela primeira vez. No geral, não é um livro que me toca muito. Mas essa parte, sim, pela familiaridade com o que já vi e senti nas terras abaixo do Rio Grande. E por achar que o sentido de viajar é buscar lugares onde finalmente aprenderíamos algo sobre o mundo.
"(...) dirigir através do mundo rumo a lugares onde nós finalmente aprenderíamos algo entre os lavradores indígenas desse mundo, a origem, a força essencial da humanidade básica, primitiva e chorosa que se estende como um cinturão ao redor da barriga equatorial do planeta, desde a Malásia (a longa unha da China) até o grande subcontinente indiano, passando pela Arábia e pelo Marrocos, cruzando os próprios desertos e selvas do México, sobre as ondas da Polinésia para chegar ao Sião místico da Túnica Amarela, sempre ao redor, ao redor, de modo que se pode ouvir a mesma lamúria nostálgica desde as muralhas arruinadas de Cádiz, na Espanha, até vinte mil quilômetros mais além, nas profundezas de Benares, a Capital do Mundo. Essas pessoas eram indubtavelmente índias e não tinham absolutamente nada a ver com os tais Pedros e Panchos da tola tradição civilizada norte-americana. Tinham as maçãs do rosto salientes, olhos oblíquos, gestos suaves; não eram bobos, não eram palhaços; eram grandes e graves indígenas, a fonte básica da humanidade, os pais dela".
"(...) dirigir através do mundo rumo a lugares onde nós finalmente aprenderíamos algo entre os lavradores indígenas desse mundo, a origem, a força essencial da humanidade básica, primitiva e chorosa que se estende como um cinturão ao redor da barriga equatorial do planeta, desde a Malásia (a longa unha da China) até o grande subcontinente indiano, passando pela Arábia e pelo Marrocos, cruzando os próprios desertos e selvas do México, sobre as ondas da Polinésia para chegar ao Sião místico da Túnica Amarela, sempre ao redor, ao redor, de modo que se pode ouvir a mesma lamúria nostálgica desde as muralhas arruinadas de Cádiz, na Espanha, até vinte mil quilômetros mais além, nas profundezas de Benares, a Capital do Mundo. Essas pessoas eram indubtavelmente índias e não tinham absolutamente nada a ver com os tais Pedros e Panchos da tola tradição civilizada norte-americana. Tinham as maçãs do rosto salientes, olhos oblíquos, gestos suaves; não eram bobos, não eram palhaços; eram grandes e graves indígenas, a fonte básica da humanidade, os pais dela".
14 June 2010
O que fica
Não há tempo para tanta gente e muita coisa. Nos reduzimos, nos concentramos, nos economizamos. Vai ficando o essencial. O que não pode ser adiado ou substituído. O que é vital agora.
13 June 2010
20 April 2010
O barco e o porto
O barco só está seguro no porto. Mas ele não foi feito para isso. Navegar é preciso, sempre.
06 April 2010
E agora a terça chuvosa
Acordei às 6h30 para nadar na piscina do clube. Chovia na minha janela. Voltei a dormir. Às 7h30, a família reunida na sala assistindo ao noticiário sobre o temporal. Dormi mais um pouco. Depois comecei lendo os emails, passei pelos jornais, olhei os sites, avancei no livro da cabeceira. Por fim, me veio Clarice:
"O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão".
"O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão".
01 March 2010
Leitura de segunda chuvosa
"Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações".
(On the road, Jack Kerouac)
(On the road, Jack Kerouac)
Subscribe to:
Posts (Atom)

