03 November 2010

Assim é

Uma árvore geme se a cortam
Um cão gane se lhe batem
Um homem cresce se o ofendem

O Evangelho segundo Jesus Cristo
(José Saramago)

21 June 2010

Grandes e graves

Trecho de On the Road, quando Sal e Dean chegam ao México pela primeira vez. No geral, não é um livro que me toca muito. Mas essa parte, sim, pela familiaridade com o que já vi e senti nas terras abaixo do Rio Grande. E por achar que o sentido de viajar é buscar lugares onde finalmente aprenderíamos algo sobre o mundo.

"(...) dirigir através do mundo rumo a lugares onde nós finalmente aprenderíamos algo entre os lavradores indígenas desse mundo, a origem, a força essencial da humanidade básica, primitiva e chorosa que se estende como um cinturão ao redor da barriga equatorial do planeta, desde a Malásia (a longa unha da China) até o grande subcontinente indiano, passando pela Arábia e pelo Marrocos, cruzando os próprios desertos e selvas do México, sobre as ondas da Polinésia para chegar ao Sião místico da Túnica Amarela, sempre ao redor, ao redor, de modo que se pode ouvir a mesma lamúria nostálgica desde as muralhas arruinadas de Cádiz, na Espanha, até vinte mil quilômetros mais além, nas profundezas de Benares, a Capital do Mundo. Essas pessoas eram indubtavelmente índias e não tinham absolutamente nada a ver com os tais Pedros e Panchos da tola tradição civilizada norte-americana. Tinham as maçãs do rosto salientes, olhos oblíquos, gestos suaves; não eram bobos, não eram palhaços; eram grandes e graves indígenas, a fonte básica da humanidade, os pais dela".

14 June 2010

O que fica

Não há tempo para tanta gente e muita coisa. Nos reduzimos, nos concentramos, nos economizamos. Vai ficando o essencial. O que não pode ser adiado ou substituído. O que é vital agora.

20 April 2010

O barco e o porto

O barco só está seguro no porto. Mas ele não foi feito para isso. Navegar é preciso, sempre.

06 April 2010

E agora a terça chuvosa

Acordei às 6h30 para nadar na piscina do clube. Chovia na minha janela. Voltei a dormir. Às 7h30, a família reunida na sala assistindo ao noticiário sobre o temporal. Dormi mais um pouco. Depois comecei lendo os emails, passei pelos jornais, olhei os sites, avancei no livro da cabeceira. Por fim, me veio Clarice:

"O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão".

01 March 2010

Leitura de segunda chuvosa

"Para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações".

(On the road, Jack Kerouac)

24 February 2010

Falência múltipla do cérebro

As conexões neuroquímicas do meu cérebro demonstram o mesmo vigor do atletista predestinado a ganhar a corrida. Uma explosão da seta em direção ao alvo. Às vezes, vejo tudo tão claro à minha frente. Vejo com velocidade, se isso é possível. De repente, a profundidade do campo se retrai, consigo absorver todos os objetos - as pessoas - os gestos - as possibilidades - as consequências diante de mim. Consigo entender o enigma num segundo.

Mas isso de pouco vale para alguém que, quando respira mais profundamente, não pode evitar de sofrer um pouco sabe-se lá do quê. Um pouco do passado, do irremediável, do inexplicável, do incompreensível.

16 February 2010

Inventário do irremediável

Com nada, absolutamente, a dizer, faço minhas as palavras de Caio F.:

"... depois de todas as tempestades e naufrágios o que fica de mim e em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro".

E esse essencial e verdadeiro já não precisa ser dito. Tempestades e naufrágios também não.

15 January 2010

Uma nota amarga

"Há poucos sinais a indicar que algo como um novo espírito internacionalista esteja de fato surgindo. As eclosões de solidariedade internacional são notoriamente carnavalescas, esporádicas e curtas. A mídia cunhou a expressão 'fadiga de ajuda', que diz tudo, para denotar a persistente tendência da solidariedade internacional a se esgotar e evaporar em questão de dias e não de semanas".

Página 194 do livro de Zygmunt Bauman sobre a busca pela Política (com P maiúsculo). Estava revisando o livro e relendo os sublinhados, enquanto a cabeça ainda vagava pelas cenas, pelos relatos e pelas promessas em relação ao Haiti.

Grande parte do noticiário televisivo (assisti mais do que li, confesso) narrava que "o país foi sempre alvo de catástrofes políticas e naturais".

Aparentemente, nada de errado. Se não fosse pelo fato de as catástrofes políticas assumirem um aspecto inevitável como terremotos e furacões. É como se a miséria haitiana fosse apenas uma espécie de falta de sorte (assim como estar localizado no ponto de encontro entre placas tectônicas).

08 October 2009

O nome da rosa inquieta

Alguém que é feliz a vida toda é um cretino. Por isso, antes de ser feliz, prefiro ser inquieto. (Umberto Eco)

P.S. Não sei se é questão de preferência...

14 August 2009

Douleur exquise

"C'est comme si on avait planté une semence qui a ensuite poussé pour devenir la douleur.

(...)

Sa mort ne fut pas le point culminant de ma douleur mais une bombe à retardement.

(...)

C'était la passion, la passion véritable.

(...)

En moi un vide, un blanc total, comme on dit, une voix blanche, un peur blanche.

(...)

Comme une somnambule pendant des mois, je me suis retirée du monde, j'ai souffert nuit et jour.

(...)

Je n'avais jamais été si malheureuse.

(Douleur Exquise - Sophie Calle - Exposition à Pompidou)

10 July 2009

E o que me importa


E o que me importa é
Não estar vencido

Minha vida
Meus mortos
Meus caminhos tortos
Meu sangue latino

26 June 2009

Flutuações



(Foto da Bia Guedes, amiga querida)

19 June 2009

Destruir para construir

De Amedeo Modigliani:

"O homem que não é capaz de extrair continuamente de sua energia novos desejos, nem de derrubar tudo o que ficou velho e apodrecido para reafirmar-se, não é um homem, é um burguês, um boticário, um qualquer."

12 June 2009

Acabou a luz

O silêncio já era sepulcral quando a luz acabou. Ninguém em casa. Três velas perfumadas, acesas com muito custo e risco, e a necessidade de um banho. Era para ser quente, mas foi, naturalmente, frio. As velinhas arrumadas ao lado dos frascos de xampu. No corredor do prédio, vozes imitando fantasmas. Pouca bateria no computador. Música, velas e paciência (o jogo de cartas). Cinco derrotas consecutivas. A luz volta. Caio Fernando Abreu. O telefone toca. Adélia Prado: "Minha tristeza não tem pedigree".

07 June 2009

Angústia existencial

Passaram meses e, ao contrário do poema do Leminski, mudou tudo. A vida parece ser assim: delicados fios que unem uma coisa à outra, uma pessoa à outra... Dificilmente resistem à espiral alucinante de acontecimentos. Mais uma vez, a angústia existencial, que já preencheu tantas páginas nos últimos séculos, consumiu e enlouqueceu tanta gente. Posso morrer de mordida raivosa de cachorro de rua, mas disso não morro. Recuso-me. Quero meu lugar no mundo.

(Dia 27/05)

Perto do selvagem coração da vida

"Que tudo venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos, porque basta-me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta me levantarei forte e bela como um cavalo novo..."

(Clarice Lispector, em algum lugar de Perto do Coração Selvagem)

A coragem é apenas falta de opção. Não heroísmo.

(DIA 23/05)

O segredo

"Eu me aproximo das pessoas como um ladrão que se aproxima de um cofre, os dedos limados, aguçados, para descobrir, tateantes, o segredo".

(Lygia Fagundes Telles)

Kamikaze

Atira-se

Contra inimigo invisível
Que é apenas a sombra
De uma imagem crível

Atira-se

Contra si próprio
Que desconhece
Como a face do outro
Como seu lado oposto

Em pleno ar
Pode voar
Não sabe voar

Está só
Ponto sem nó

Atira-se.

(DIA 17/05)